Não consegue desligar do trabalho, nem mesmo à hora do almoço? Sente que a vida só tem sentido se for permanentemente a trabalhar? Não tira férias sem levar trabalho atrás? Se respondeu que sim as estas três questões poderá pertencer ao grupo dos workaholic.
Surgido na década de 80, nos Estados Unidos, o termo workaholic – importado do inglês que significa dependente do trabalho – serve para definir as pessoas que não conseguem colocar um travão nos afazeres profissionais. E como traçar o perfil típico dos “viciados em trabalho”?
“Estes indivíduos distinguem-se pela elevada capacidade profissional. Mas, em contrapartida, demonstram uma baixa competência da expressão emocional e, por conseguinte, relacional”, responde Victor Cláudio, coordenador da área de Psicologia Clínica do Instituto Superior Psicologia Aplicada (ISPA).
Os workaholic são, em regra, “cidadãos isolados”, que encontram no trabalho o ansiolítico natural”. Trabalhar horas a fio é, pois, uma forma de alimentarem o ego e de preencherem as esferas vazias da sua vida pessoal. Como profissionais fora de série, com elevado potencial de produtividade, acabam por não ser “condenados” pela sociedade em que se inserem. Bem pelo contrário. “Opostamente a outras dependências, em que os sujeitos são alvo de críticas, esta compulsão pelo trabalho é alimentada pela recompensa social”, fundamenta o psicólogo.
Assim, movidos pelo estímulo profissional, os workaholics acabam por mergulhar de corpo e alma no trabalho. Dedicam grande parte do seu dia a trabalhar, mesmo aos fins-de-semana e períodos de lazer. Esta compulsão acaba por esconder um estado patológico, que emerge “no exacto momento em que o pilar profissional colapsa”.
“Quando o ser humano está adaptado, em equilíbrio, é sustentado por diferentes tipos de pilares: laboral, relacional, familiar, amigos e hobbies.” Acontece que, no caso dos workaholic, o “edifício” está alicerçado somente no trabalho. E quando o indivíduo já não consegue alcançar as metas profissionais estipuladas, a estrutura começa a ruir “Verifica-se uma sobrecarga no pilar laboral, ao passo que as outras esferas ficam deficitárias. É neste processo de desadaptação que se inicia a patologia”, diz.
Ciclo vicioso
Segundo Victor Cláudio, “é esperado que, mais tarde ou mais cedo, a estrutura” que segura o workaholic “comece a colapsar”. “O indivíduo, que antes demonstra uma elevada eficácia profissional, deixa de conseguir realizar tão bem as tarefas e de trabalhar tantos horas”, defende. “A perda da gratificação social, associada ao desinvestimento emocional”, concorrem, assim, para o aparecimento de uma sensação de vazio.
De acordo com o psicólogo, embora não haja estatísticos sobre esta matéria, estima-se que, nos últimos anos, o número de “viciados em trabalho” tenha sofrido um aumento. Este facto decorre “das actuais exigências laborais”. Tratando-se de um “sujeito vulnerável a este tipo de dependência”, a pressão do mercado de trabalho favorece esta compulsão laboral.
Uma das outras explicações encontradas para justificar este “vício” é a incompetência relacional. “Quando o indivíduo falha na esfera de expressão emocional, vai procurar de forma não consciente uma área da sua existência em que se possa sentir valorizado”, salienta o psicólogo. Um divórcio ou uma ruptura relacional podem ser o ponto de partida para este “ciclo vicioso”.
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A dependência do trabalho gera, então, um efeito “bola de neve”. “Se o workaholic trabalha 12 horas e passa o restante tempo a pensar em trabalho, não se encontra disponível para cultivar uma relação fora do ambiente laboral”, afirma. Embora possa estar fisicamente com colegas ou amigos, “este indivíduo não está aberto a sistemas relacionais”.
As emoções dos workaholic ficam “congeladas”. As conversas redundam em assuntos de trabalho: o centro das suas preocupações. “Por esta razão”, assegura o psicólogo, “dificilmente, consegue manter uma rede social”. Os momentos de lazer são convertidos em mais trabalho. “O tempo de convívio é encarado como desperdício. E devido a este isolamento constante o workaholic entra num espaço circularmente fechado. Num ponto quase sem retorno.”
De um modo geral, “os workaholic são indivíduos com um grau de exigência elevada”. Assim, para atingirem um patamar de produtividade, os típicos “viciados em trabalho”, elevam a fasquia ao mais alto nível. “Como são profissionais competentes, muitas vezes com uma acelerada progressão na carreira, é-lhes exigido cada vez mais trabalho. O que, por conseguinte, se traduz em menos tempo para sistemas relacionais fora do ambiente laboral.”
Apesar de serem catalogados como “pessoas frias”, não se pode falar em inexistência de emoções. De acordo com o psicólogo, “estes sujeitos vivem as emoções quase de forma vulcânica”. A expressão destes sentimentos é contida de tal forma que, à semelhança de uma panela pressão, pode “explodir em qualquer momento”.
Workaholic ou apaixonado pelo trabalho?
Como distinguir um “viciado em trabalho” de um “worklover”? A fronteira pode parecer ténue, mas há, contudo, algumas diferenças significativas. “Um workaholic apresenta um hiper-controlo emocional e uma hiper-valorização através do próprio trabalho”, explica Victor Cláudio.
Para que se possa falar em “dependente”, é preciso que o sujeito esteja totalmente focalizado no trabalho e apresente uma incompetência da expressão emocional”. Por outro lado, apesar das exigências profissionais, o “trabalhador dedicado” não perde de vista as estruturas emocionais”, conseguindo encontrar um meio-termo na sua vida, sem prejudicar a elevada produtividade.
Contra tudo e contra todos, o workaholic, mesmo em período de férias, não deixa o trabalho em mãos alheias. Cortar com a rotina torna-se, assim, para os workaholic a maior das dificuldades.
“Alguns destes indivíduos chegam mesmo a abdicar das férias”, frisa.
Refere o psicólogo que “as novas tecnologias dificultam este distanciamento do trabalho”. É, então, por isso, que a noção de férias para os workaholic é quase inexistente. Com as facilidades em transportar um computador portátil e ligá-lo à Internet, torna-se quase “impossível desligar a corrente do trabalho”.
Privar um workaholic de exercer a sua actividade é, nas palavras de Victor Cláudia, como deixá-lo à deriva. “Se tirarmos o único meio de satisfação do indivíduo, ficará completamente desnorteado.” Para esta patologia, a cura está à distância de sessões psicoterapêuticas. “Nestas consultas ajudamos o indivíduo a desmontar o puzzle, de modo a que este compreenda que existe vida para além do trabalho.”
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