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“Transportar os dados da investigação para o doente individual é a arte da medicina”

Assinado em Junho deste ano, o protocolo entre o univadis e o British Medical Journal vai permitir que, à distância de um clique, todos os médicos e farmacêuticos tenham acesso a informação credenciada. Esta ferramenta de utilização online dá o pontapé de saída para uma aprendizagem à la carte. Em casa ou no consultório, os médicos que adiram a este instrumento têm à disposição 350 cursos, de forma totalmente gratuita.

O Prof. António Vaz Carneiro, director do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência e adepto das ferramentas de aprendizagem online, certifica as vantagens da utilização deste instrumento de apoio à actividade clínica e único em Portugal.

Hoje em dia, informação é poder. Esta premissa também se aplica à prática clínica?

Os médicos precisam de informação clínica de alta qualidade. Hoje é impensável não assentar a prática clínica em ciência sólida. Claro que, quando há necessidade de informação válida e de qualidade, as fontes são várias. Desde logo, os livros de textos, as chamadas fontes clássicas, e os softwares médicos. Há, ainda, as guidelines, que, traduzido para português, significa normas de orientação clínica. Mas a grande questão não é encontrar uma resposta para as dúvidas, no meio da parafernália de meios… mas se a informação que se obtém é ou não fidedigna.

Convém, no entanto, que as respostas surjam em tempo útil…

No momento em que estou a encarar o doente, preciso de responder às dúvidas rapidamente. Esta informação que é fornecida assenta em dados factuais, em evidência clínica. Isto significa que o médico deverá manter-se actualizado diariamente sobre as novidades que vão sendo publicadas. Se o clínico estiver na posse desta informação “refrescada” conseguirá dar atender melhor o utente e de um modo mais célere.

Como pode o univadis ajudar os médicos a manterem-se actualizados, sem que, para isso, tenham de ler centenas de artigos científicos?

Todos os profissionais sabem que transportar os dados da investigação para o doente individual é a arte da medicina. E esta é uma questão complexa, porque, mais do que ler uma panóplia de livros ou artigos científicos, o médico necessita de informação detalhada e de fácil interpretação, no momento em que está com o doente à frente. Assim, o univadis apresenta-se como um instrumento que ajuda a desenvolver o raciocínio clínico.

E como?

A investigação dá-nos peças discretas: como trato esta doença, como estabeleço o prognóstico, entre outras informações. Mas, quando se está a assistir doentes individuais, é preciso um outro tipo de conhecimento que essas peças de investigação não facultam. Os cursos do BMJ da Univadis mimetizam aquilo que se passa no dia-a-dia, ou seja, os chamados casos clínicos. Através de múltiplas opções, os médicos vão sendo conduzidos a respostas. Trata-se de uma maneira muito sofisticada de ensinar: a uma cultura científica de base junta-se o raciocínio.

Quer isto dizer que esta ferramenta se adapta a cada situação particular?

O BMJ learning e o univadis trazem um conjunto de cursos e de instrumentos de treino médico que ultrapassam em muito a Medline ou os livros de texto. Estas informações complementam de uma maneira admirável a necessidade de incorporar o conhecimento e modulá-lo para qualquer tipo de doente. São peças que pintam o quadro clínico de uma maneira estruturada, bem pensada, com perguntas sequenciais. Todo este conjunto cria empatia com o programa.

Esta abordagem exclui a actualização clínica por intermédio de outras fontes?

Os médicos têm um período limitado de aprendizagem e actualização, como é de todo sabido, pelo que temos de o racionalizar extraordinariamente. Este instrumento não pretende anular outras fontes de informação. Antes pelo contrário: é um suplemento da aprendizagem livresca.

Esta ferramenta vai permitir a partilha de informação e a troca de experiências?

Os cursos do BMJ learning e o univadis funcionam em moldes fechados. A informação já aparece sintetizada e “mastigada”. Com este método vamos racionalizando a prática clínica, pensando no doente e respondendo às perguntas, seguindo uma lógica sequencial.

Quem são os destinatários do univadis?

Esta plataforma contém informação útil para os prestadores de cuidados de saúde primários, assim como para outros especialistas. Eu diria que qualquer médico que tenha contacto com doentes encontra imensa informação útil. Se o médico tiver de prescrever medicamentos, fazer diagnóstico, se tiver de tratar, esta é, sem dúvida, uma fonte notável.

A Formação médica contínua online é uma novidade em Portugal. O online é o futuro da aprendizagem?

As tecnologias de informação actuais, quando aplicadas à saúde, têm dois níveis de informação. O Sistema Nacional de Saúde, se totalmente informatizado, drena todas as informações para uma base de dados diária. Se, em cima disso, colocarmos um sistema de informação clínica integrado, diminui-se a variação da prática clínica. Por exemplo, imagine-se um doente com diagnóstico de diabetes mellitus tipo 2. Se integrar esta informação, posso saber qual é o medicamento de primeira linha ou, ainda, qual o procedimento regular de diagnóstico. Esta ferramenta simplifica o papel do médico, porque a informação vai sendo fornecida.

Este instrumento permite, então, uma interactividade com o acto médico…

Mais do que criar um repositório dos dados clínicos do utente, pretende-se potenciar a interactividade com o médico, à medida que se vai introduzindo informações e obtendo respostas.

Com esta ferramenta há possibilidade de reduzir o erro?

Errar é humano, mas se a informação for flexível e inteligente, no sentido de determinar o que se está a fazer, menor a probabilidade de erro. Imagine-se que em vez de oito unidades de insulina prescrevo, por engano, 80. O software produz alertas e encarrega-se de eliminar estes erros. A prevenção do erro passa pela disponibilização de limites nas acções. Ao fornecer-me informação, o sistema vai ajudar a diminuir a qualidade de falhar por defeito.

O carimbo do British Medical Journal (BMJ) é, por si só, um mecanismo depurador da informação?

A informação apresentada, em inglês técnico, np univadis tem este selo de qualidade. O BMJ marca a agenda e, desse ponto de vista, os médicos contam com uma informação gratuita e de grande qualidade. Para terem acesso a esta ferramenta, basta apenas proceder a um registo no site.


Quem é o Prof. António Vaz Carneiro?

Aos 57 anos, o director do Centro de Medicina Baseada na Evidência (CEMBE), da Faculdade de Medicina de Lisboa tem um percurso notável. Formado em Medicina Interna, António Vaz Carneiro especializou-se, ainda, em Nefrologia, em São Francisco, nos Estados Unidos da América. No final dos anos 80, após a sua estadia de quase dez anos no outro lado do Atlântico, regressou a Portugal onde trabalhou na área de Cuidados Intensivos, no hospital de Santa Maria. Esta tornou-se a sua “segunda casa”, já que o CEMBE, um organismo que dirige, se localiza no interior das instalações desta unidade hospitalar. Hoje em dia, 90% do seu tempo é passado no CMBE, onde ensina, realiza investigação clínica e produz informação/conhecimento para todo os níveis do Sistema Nacional de Saúde.

 

“Se o clínico estiver na posse desta informação ‘refrescada’ conseguirá dar atender melhor o utente e de um modo mais célere”

“O univadis apresenta-se como um instrumento que ajuda a desenvolver o raciocínio clínico”

Prof. António Vaz Carneiro,
Director do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência

Jornal do Centro de Saúde

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