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Síndrome de Raynaud: Branco, azul e vermelho

Estas são as cores que se sucedem na pele de quem sofre de síndrome de Raynaud, uma extrema sensibilidade ao frio que afecta sobretudo os dedos. E não é preciso permanecer sob baixas temperaturas, basta abrir o frigorífico para assistir a esta reacção. O stress tem o mesmo efeito.

Mãos e pés frios são comuns. Afinal, estamos no Inverno. Quando há uma exposição mais prolongada a temperaturas baixas o organismo reage, limitando o afluxo de sangue às extremidades – pernas, braços e dedos das mãos e dos pés – numa tentativa de proteger os órgãos internos, vitais para a sobrevivência. Esta é, no entanto, uma reacção progressiva.

Mas há pessoas cuja resposta ao frio é mais rápida e mais forte, podendo ser desencadeada por descidas mínimas de temperatura: pode ser suficiente tirar algo do frigorífico. Os dedos denunciam de imediato a síndrome de Raynaud, assim se designa esta extrema sensibilidade.

Esta é uma doença que afecta os vasos sanguíneos, que, perante o frio, se contraem, limitando a passagem de sangue para os dedos das mãos e dos pés ou, mais raramente, para o nariz e orelhas. A reacção do organismo é visível através de uma sucessão de cores na pele: a ausência temporária de sangue faz com que os dedos fiquem brancos, evoluindo depois para azul em consequência da falta de oxigénio; à medida que a temperatura sobe o sangue regressa e a pele fica avermelhada, podendo inchar e causar dor. Além da mudança de coloração, as áreas afectadas podem latejar e ficar dormentes ou com formigueiro.

Não é apenas o frio que causa esta reacção da pele: os sintomas são idênticos numa situação de stress. Isto porque, perante emoções mais avassaladoras, o organismo liberta hormonas que provocam o estreitamento dos vasos sanguíneos e, em consequência, o menor afluxo de sangue e oxigénio às extremidades.

O que acontece é que nas pessoas com síndrome de Raynaud essa resposta é mais intensa.

 

Causa por descobrir

São as mulheres as mais afectadas por esta síndrome cuja causa é, na maioria das vezes, desconhecida. Noutras situações, porém, é possível associá-la a outras doenças como as que danificam os vasos sanguíneos ou os nervos que controlam esses vasos nas mãos e nos pés. Acções repetitivas que causem danos nesses mesmos nervos também podem estar na origem da síndrome de Raynaud, tal como a exposição a determinados químicos e a toma de alguns medicamentos.

Entre as condições médicas que desencadeiam a sensibilidade dos dedos ao frio encontram-se a esclerodermia – uma doença rara que provoca endurecimento e fibrose da pele -, o lúpus eritematoso sistémico – uma doença auto-imune que afecta diversas partes do corpo, nomeadamente a pele e os vasos sanguíneos -, a artrite reumatóide – que causa dor e rigidez nas articulações, incluindo nas mãos e pés.

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Também as acções repetitivas, como tocar piano ou teclar, aumentam a probabilidade de se desenvolver esta síndrome, o mesmo acontecendo com o uso de ferramentas de vibração. É que estas acções, quando exercidas com intensidade e prolongadas no tempo, acabam por lesar os nervos que servem os vasos sanguíneos das mãos.

A exposição a químicos, nomeadamente aos que são usados na indústria dos plásticos, pode induzir uma doença muito semelhante à esclerodermia, em que a sensibilidade das extremidades é uma das manifestações.

Há medicamentos que podem ter o mesmo efeito, entre eles se incluindo alguns usados no tratamento do cancro, das enxaquecas, das constipações e gripes e da hipertensão arterial (é o caso dos betabloqueadores).

O tabaco deve ser igualmente tido em consideração como factor de risco, na medida em que causa uma contrição dos vasos sanguíneos, logo uma diminuição do sangue e do oxigénio que chegam às mãos e aos pés.

 

Manter o frio ao longe

A síndrome de Raynaud não se cura. Mas é possível reduzir a intensidade e frequência das crises, bem como prevenir lesões nos tecidos, com recurso a medicamentos e alterações no estilo de vida.

Quando a síndrome está associada a outras doenças, importa mantê-las controladas.

Entre os medicamentos usados contam-se os chamados bloqueadores dos canais de cálcio, que actuam sobre os vasos sanguíneos das mãos e dos pés, dilatando-os, sendo ainda eficazes na cicatrização de úlceras cutâneas nos dedos. Usados podem ser ainda os vasodilatadores, que, como o nome indica, contribuem para dilatar os vasos sanguíneos, facilitando a passagem do sangue.

As situações mais graves exigem tratamentos mais agressivos, que podem envolver cirurgia bloqueio da acção dos nervos que controlam os vasos sanguíneos das mãos e dos pés: simpaticectomia.

Todavia, para a maioria das pessoas, a doença não chega a este extremo. Aliás, as que têm Raynaud primário nem sequer requerem medicamentos, encontrando alívio para as crises com cuidados simples. Desde logo, evitar os factores desencadeantes da síndrome, sejam eles o frio, o stress ou os medicamentos. Não fumar e limitar a ingestão de cafeína também ajuda. Proteger as extremidades, não só das temperaturas, mas também de feridas e outras lesões, é igualmente aconselhado.

Para muitas pessoas, a síndrome de Raynaud é mais um incómodo do que uma doença: com os devidos cuidados é possível controlar as crises sem perder qualidade de vida.

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O que fazer?

Há alguns gestos que ajudam a superar as crises, limitando-as na intensidade e na duração:

• Mudar para um local aquecido;

• Aquecer as mãos e os pés, por exemplo fazendo correr água morna (não quente);

• Massajar os dedos;

• Mover os braços em círculos e/ ou abanar as pernas;

• Relaxar e tentar sair da situação geradora de stress.

 

Mais vale prevenir

Evitar os factores de risco é essencial para prevenir as crises. E, sendo o frio o principal responsável, proteger o corpo passa por:

• Usar chapéu ou gorro, luvas e cachecol sempre que se esteja no exterior em dias frios;

• Usar luvas ao retirar alimentos do frigorífico ou congelador;

• Baixar o ar condicionado e vestir uma roupa quente em espaços ventilados artificialmente;

• Aquecer o carro antes de conduzir em dias frios.

É ainda adequado limitar o uso de ferramentas vibradoras, usar protecção adequada para a exposição a químicos, limitar gestos frequentes e repetitivos com as mãos, evitar os medicamentos passíveis de desencadear os sintomas (com indispensável aconselhamento médico ou farmacêutico) e, sempre que possível, minimizar o impacto das situações geradoras de stress (por exemplo, com recurso a técnicas de relaxamento).

Farmácia Saúde – ANF

www.anf.pt

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