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Sexualidade, Cultura e Internet » Disfunções sexuais podem ter origem em aspectos «não sexuais»

«No fundo, muito da actual terapia sexual é, na sua natureza, “não sexual” e passa por aspectos e mudanças socioculturais». São palavras do Dr. João Amílcar Teixeira, psiquiatra, referindo-se aos aspectos socioculturais das disfunções sexuais.

«É óbvio que não nos podemos esquecer de que há determinantes biológicos em muitas das disfunções sexuais», afirma o especialista, avançando:

«Mas também não nos podemos esquecer de que a realidade quotidiana, com homens e mulheres cronicamente extenuados e fatigados, os actuais estilos de vida, a falta de comunicação e de carinho e de erotização desse mesmo quotidiano, as lutas de poder dentro do casal, e até as incompatibilidades entre o modelo cultural do casamento e as expectativas de quem casa, têm influência, directa ou indirecta, nas disfunções sexuais.»

De acordo com o psiquiatra, «não haverá alternativa em Sexologia senão avaliar-se, separadamente, a resposta sexual, mas igualmente estes aspectos “não sexuais”».

A prática clínica e a terapia sexual não podem, pois, ser indiferentes a todos esses aspectos. Não podem passar, sobretudo, por cima das diferenças das pessoas e dos casais. Admite-se que nos dias de hoje assistimos a uma «maravilhosa variabilidade individual e dos casais».

Homens e mulheres, bem como as suas sexualidades, são obviamente diferentes. Tudo passará por aqui. Parece que para a grande maioria das mulheres afecto e comunicação emocional, por exemplo, são mais importantes que o orgasmo numa relação sexual.

«A mulher terá ainda necessidade de assumir mais claramente o seu corpo e o seu desejo sexual e o homem as suas emoções e necessidades afectivas. Isto levar-nos-á, se calhar, a uma maior igualdade real entre homens e mulheres, respeitando as suas diferenças. A única forma, talvez, de se irem conseguindo relações cada vez mais satisfatórias a todos os níveis», afirma o nosso interlocutor.

Por detrás de todos estes aspectos estão mitos e falsas crenças que têm a ver com toda a tradição judaico-cristã e com séculos de erros e falsa informação. João Amílcar Teixeira fala-nos sobre os mitos em relação à mulher, ao homem e à sexualidade em geral, que acabam por reflectir o ainda dominante «duplo padrão moral sexual».

Eis alguns exemplos no que toca à mulher:

«A mulher que toma a iniciativa é suspeita ou imoral; não deve expressar os seus sentimentos; uma mulher de verdade tem relações sexuais completas; o prazer fora do coito é “mau”; sexo e prazer é algo que não é próprio delas, mas sim dos homens; tudo o que não tenha a ver com reprodução e maternidade será pouco recomendável ou duvidoso.»

O «verdadeiro» orgasmo
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Contraditoriamente, mas reflectindo «novas ideologias» e gerando ou sendo indicador da actual confusão de valores, sobretudo na sexualidade feminina, é um outro tipo de estereótipo – o do «verdadeiro» orgasmo. Neste «tocam sinos, o céu escurece e a terra treme» como que a obedecer a um estereótipo algo hollywoodesco, esquecendo-se de facto a importância da qualidade subjectiva que não se pesa ou mede», exemplifica, com humor, o especialista.

Relativamente ao homem também se encontram mitos, obviamente de sinal contrário, reflectindo o «papel activo» que aquele «deve» ter: «O homem está sempre pronto e deseja sempre ter relações sexuais; homem que não tem erecção em situações assinaladas socialmente como sexuais é, pelo menos, homem duvidoso; tem maior capacidade sexual que a mulher; o sexo deve acontecer por iniciativa e sob comando do homem.»

«Todos os contactos físicos devem levar ao coito, todos os coitos devem levar ao orgasmo; relação sexual é igual a coito, o resto são meros substitutos ou aberrações», são outros exemplos do quanto o modelo da sexualidade masculina é quase exclusivamente centrado na genitalidade.

Em resumo, João Amílcar Teixeira afirma: «A nossa própria prática sexológica não consegue ser indiferente às mudanças socioculturais em geral, sendo influenciada por essas mudanças, mas influenciando-as também.»

O psiquiatra conclui referindo que, «apesar das grandes mudanças sociais e culturais resultantes da chamada libertação das mulheres, atitudes quotidianas e mentalidades não terão mudado assim tão significativamente, continuando a existir padrões culturais dominantes ou hegemónicos».

Dito de outra forma, «se calhar mais importante que as próprias práticas sexuais será a imagem ou o conceito que cada um constrói e tem da sua própria sexualidade».

O «cibersexo em chats»

Falar actualmente de sexualidade implica falar também de «Sexo, Cultura e Net». Porque a Internet é um engenho de mudança social, porque é um espaço privilegiado para a interacção social e para o sexo. Como diz a Dr.ª Ana Carvalheira, psicóloga, a Internet, hoje, é um mundo sem fronteiras geográficas, um território livre, que pela fácil acessibilidade e os baixos custos permite uma enorme diversidade de relações, bem como o acesso a todas as formas de actividade sexual.

O sexo é o tópico mais procurado na Internet. As motivações?

«Procura de informações, compra e venda de material sexual para uso off-line, procura de material com objectivo de entretenimento ou masturbação on-line, de parceiros sexuais para relação duradoura ou transitória, prostitutas, swingers, agências, chats», responde.

Mas Ana Carvalheira quis saber mais sobre o assunto. Fez um estudo com o Dr. Allen Gomes, sobre «cibersexo nos chats”, que incluiu uma amostra de 400 pessoas, e encontrou o seguinte: «Há um predomínio da participação masculina, a maioria são jovens dos 15 aos 24 anos e 8,3% gastam mais de duas horas por dia em cibersexo.»

Explica a psicóloga que o objectivo deste estudo foi tentar uma caracterização dos utilizadores, saber quem são essas pessoas que se envolvem no cibersexo em chats, porque é que se envolvem e quais as motivações.

E ainda tentar perceber e identificar alguns comportamentos relativos ao cibersexo, avaliar o tempo gasto nessa actividade e conhecer o papel do anonimato.

Qual é então o papel do anonimato?, pergunta.

«Parece ser, efectivamente, protector e libertador para todos que têm poucas competências sociais. Parece ser facilitador da desinibição social e, por conseguinte, serve mais para tirar máscaras do que para as colocar», conclui.

Neste estudo, parece haver, refere, «duas tendências principais dentro do que é a diversidade ou dois grupos principais de pessoas. Por um lado, um grupo de sujeitos que utilizam os chats como ponto de partida para futuro encontro real. Pretendem chegar rapidamente ao sexo, não têm tempo para os jogos de sedução. Por outro lado, um segundo grupo, que prefere o cibersexo. Sem nenhum interesse num encontro real, quer manter-se on-line. Aqui, o anonimato parece ser o grande atractivo. Este grupo constitui uma minoria.

Para concluir, Ana Carvalheira subscreve uma frase de Cooper: «A sexualidade na Internet pode ser conceptualizada num contínuo que vai desde a expressão sexual normal e enriquecedora (por permitir a exploração e o aumento de repertório e de interesses) até às expressões mais patológicas.»

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