Em 2004, o realizador Morgan Spurlock decidiu vestir a pele de actor e, durante um mês, ingeriu ininterruptamente refeições hipercalóricas. O documentário “Super Size me: 30 dias de fast-food” valeu-lhe um prémio no festival de Sundance. E, certamente, mais uns quilos na balança. Mas, antes que a sinopse anterior lhe abra o apetite, aqui fica um aviso: as informações que se seguem baseiam-se em factos verídicos e espelham uma dura realidade – a obesidade.
O que pesa mais: a tentação da comida hipercalórica ou a consciência de lutar por uma vida mais saudável? Feitas as contas, a razão parece pender para o segundo prato da balança. Isto porque, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), ter uns quilos já não é uma questão puramente estética. “A obesidade é classificada como o flagelo do século XXI”, diz o Prof. Alberto Galvão Teles, presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO).
De década para década, a “epidemia” da obesidade tem vindo a ganhar cada vez mais terreno nos países desenvolvidos. As previsões da OMS apontam para um crescimento “exponencial do número de obesos e super-obesos, no prazo de 17 anos”. Assim, defende Galvão Teles, “há que investir em medidas de combate à obesidade”.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Este ditado, que corre de boca em boca, também poderá servir para explicar os porquês da obesidade. “Antigamente, as populações eram mais activas, porque o trabalho no campo e as profissões braçais favoreciam o dispêndio energético. Com a introdução das tecnologias, os humanos tornaram-se mais sedentários. Acresce que, com um ritmo de vida mais frenético, há, ainda, a questão do stresse. Um mecanismo compensador da ansiedade é, por vezes, a ingestão de doses elevadas de alimentos.”
Segundo o dirigente da SPEO, a obesidade já mereceu o rótulo de doença crónica e, hoje em dia, já não é, exclusivamente, uma questão de peso. “À medida que a obesidade aumenta, cresce, também, o número de diabéticos tipo 2 e avolumam-se as co-morbilidades “, garante. É por tal razão que, combatendo a obesidade, se actuam em outras frentes, nomeadamente na redução das dislipidemias, da hipertensão e das alterações articulares.
Só em Portugal, a prevalência da obesidade e pré-obesidade ultrapassa os 50% da população, em ambos os sexos. “Se atentarmos à obesidade propriamente dita, os dados revelam valores na ordem dos 15 a 16%”, acrescenta o especialista. Casos de obesidade grau 3 resvalam para mais de 1% da população e, “devido à gravidade da situação, obrigam a tratamentos cirúrgicos”.
Menos peso, mais disciplina
Até acabar o curso, Tiago Fernandes, 40 anos, não conjugava no presente o verbo engordar. “Em criança até era magro e não gostava de comer”, recorda. Mas, mal entrou no mercado de trabalho, o sedentarismo, aliado a um descontrolo alimentar, deu o arranque para um processo que quase culminou nos 120 quilos. Nessa altura, com 33 anos, o responsável pela área de compras de uma multinacional, achou que tinha chegado o momento de recuar uns quilos na balança.
“Ao perceber que tinha um peso demasiado elevado, comecei a ter cuidado com o que comia. Consultei um nutricionista e implementei uma estratégia de modificação dos hábitos alimentares”, lembra. Doze meses de treino alimentar e modificação dos estilos de vida foram o suficiente para que Tiago Fernandes conseguisse atingir a sua meta: perder 30 quilos.
“Quando alcancei os 90 quilos pude realizar actividades que antes não era possível.” Assim, e depois de “disciplinar” o apetite, seguiu-se a adopção de um regime regular de exercício físico. “A conjugação entre escolhas mais saudáveis à mesa e a prática de exercício físico foi determinante para cumprir os meus objectivos, sem recorrer a fármacos e à cirurgia”, adianta.
Para Tiago Fernandes, “o controlo de peso” deve ser um processo contínuo. Não faz contas de cabeça, mas aprendeu que a equação do peso saudável é mais do que uma operação matemática. Exige treino e educação no tempo. “Agora, tenho uma dieta mais reduzida em gorduras e monitorizo, regularmente, o meu peso. Simultaneamente, foi-me prescrito um plano de exercício físico, que cumpro à risca.” E assim é desde o início em que decretou para si mesmo que iria perder peso. Esta fórmula terapêutica contou, ainda, com um ingrediente particular: força de vontade.
Apesar das tentações diárias, especialmente quando come fora de casa, Tiago Fernandes é irrepreensível no seu objectivo inicial. No entanto, revela que, esporadicamente, faz o gosto ao paladar. “Não me privei de comer doces, mas doseio a sua ingestão. É esta disciplina que faz toda a diferença.”
Mudar ou criar hábitos alimentares?
“Embora se saiba que os factores genéticos e bioquímicos têm um peso importante na obesidade, é hoje claro que são o sedentarismo e a má alimentação os dois factores mais determinantes desta grave doença”, diz o Dr. José Camolas, nutricionista do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Santa Maria.
Mas, apesar de ser parte do problema, a alimentação deverá ser, irreparavelmente, “a chave da solução”. E como? “Deve investir-se em acções de formação em educação alimentar, explicando à população o que são escolhas alimentares promotoras de saúde e apontar o caminho para lá chegar.”
O nutricionista refere que, apesar de os hábitos alimentares se terem alterado nos últimos anos, hoje em dia, “as pessoas já têm uma noção mais próxima do que é uma refeição saudável”. Acontece que, na prática, “há um desfasamento entre aquilo que se deve ingerir e o que é ingerido”. E porquê?
“Os constrangimentos de tempo, impostos pelos ritmos actuais, ditam que grande parte da população opte por refeições mais rápidas. E isto porque, por vezes, não há disponibilidade alimentar adequada na área de trabalho ou na escola.” Acresce, ainda, o facto de os produtos mais saudáveis serem mais caros. “Muitas pessoas queixam-se que ao fim de um mês, não é suportável ter uma refeição mais completa e saudável, devido ao preço”, acrescenta.
Há, no entanto, pequenos truques que podem fazer toda a diferença. “É aconselhável comer sem pressas, mastigando devidamente os alimentos. Mas, para além disto, há que ter critérios nas escolhas alimentares. Desde logo, evitar molhos ou ingredientes que acrescentem calorias à refeição e pedir menos quantidade de comida.”
Acontece que, por dificuldades em mudar comportamentos, é mais fácil criar um estilo de vida saudável desde tenra idade do que o modificar na idade adulta. “A criança, comparativamente a um adulto que tem mais reticências em mudar, começa logo a desenhar hábitos mais saudáveis que se prolongam para a vida futura.”
Assim, antes de fazer as pazes com a balança, urge mudar os hábitos para evitar engrossar as estatísticas de obesidade. O que não quer dizer que se tenha de deixar de comer. “Em vez de se encher a despensa de alimentos pré-confeccionados, é de ponderar os benefícios de uma sopa, repleta de legumes, acompanhada de uma peça de fruta à sobremesa. Perde-se um pouco mais de tempo, mas os resultados são visíveis na saúde a médio e longo prazo.”
Vencer a inércia
Os estudos são unânimes em afirmar que, até ao momento, o exercício físico é o único mecanismo regulador do peso. É um “remédio” natural sem contra-indicações, desde que realizado na dose certa. No tratamento da obesidade, uma das primeiras medidas prescritas pelos especialistas é a adopção de uma prática regular de exercício físico, acompanhada de um regime alimentar isento de gorduras e doces.
“A actividade física tem um conjunto de aspectos associados que a tornam única no tratamento e prevenção da obesidade. Se é sabido que o exercício contribui para o dispêndio energético, é certo que também tem um papel decisivo na saúde metabólica e cardiovascular, bem como na qualidade de vida”, diz o Prof. Pedro Teixeira, docente na Faculdade de Motricidade Humana (FMH).
O exercício apresenta-se como o componente do tratamento da obesidade com efeitos mais abrangentes na saúde e bem-estar, e sem “efeitos secundários”!. E, embora não haja quantificação precisa dos custos actuais do sedentarismo, Pedro Teixeira afirma taxativamente que os potenciais ganhos em saúde seriam substanciais. “O Sistema Nacional de Saúde iria ter uma poupança enorme se os portugueses fossem mais activos. Aliás, as políticas de saúde actuais já integram a actividade física como uma medida indispensável.”
Segundo o especialista, a realização de exercício físico está, por vezes, à distância da vontade individual, já que a adopção desta prática regular é totalmente gratuita. E, apesar de tempo ser dinheiro, dispensar 30 minutos diariamente para mexer o corpo reduz o risco de obesidade e, ainda, produz ganhos na saúde física e mental. Mesmo em situação laboral, é possível contrariar o sedentarismo, com pequenos gestos que fazem a diferença: “fazer pausas no trabalho ou caminhar 15 minutos duas vezes por dia, por exemplo antes ou depois das refeições principais, transformam um dia-a-dia sedentário num dia moderadamente activo”.
Portugal no quinto lugar da tabela
Um estudo de Padez, Moreira e colaboradores, que avaliou cerca de 4 mil crianças dos 7 aos 9 anos, concluiu que, do total desta população, 30% têm excesso de peso e 11% são obesas. Um outro estudo, levado a cabo pela Fundação Bissaya Barreto, em 2400 crianças de idade pré-escolar no concelho de Coimbra, registou valores na ordem dos 24% de excesso de peso e 7% de obesos, segundo os mesmos critérios do estudo anterior.
“Ainda só agora começamos a levantar a ponta do véu de um problema que coloca Portugal nos cinco primeiros lugares da obesidade infantil em toda a Europa”, afirma a Dr.ª Ana Rito, Investigadora do INSA e Vice-Presidente do Conselho Científico da Plataforma contra a Obesidade. Esta iniciativa da Direcção-Geral de Saúde, que conta com a parceria da Galp Energia, através do “Movimento Energia Positiva”, pretende concertar estratégias de combate a um problema que, segundo os dados médios, atinge perto de 25-30% da população infantil no nosso País.
“A nossa estratégia compreende avaliar a dimensão do problema em Portugal e nesse sentido, fomos um dos primeiros países europeus a integrar o Sistema de Vigilância de Obesidade Infantil da Organização Mundial da Saúde, e ainda a Intervenção ao nível escolar, contando com a parceria já instituída entre o Ministério da Saúde e da Educação”, afirma. E acrescenta: “O nosso enfoque centra-se, sobretudo, na educação da criança. Se os hábitos saudáveis forem instituídos desde cedo, quer na escola, quer em casa, a criança fará as suas escolhas de uma forma mais acertada ao longo da sua vida.
A solução para evitar que os obesos de hoje sejam os adultos doentes de amanhã, passa, na perspectiva de Ana Rito, por estabelecer regras e disciplina às práticas alimentares no seio familiar.”É fundamental que as crianças façam refeições a horas certas e não percam o pequeno-almoço.” Para aliciar a criança a adoptar uma alimentação mais saudável, a criatividade e a imaginação podem dar uma ajuda.
“A criança deve compreender que os hábitos alimentares são como qualquer outra rotina que aprendem na sua vida. A escolha dos menus deve ser feita em família, optando-se por confeccionar refeições apelativas e coloridas, através da variedade alimentar que a Roda dos Alimentos oferece. O hábito da sopa, de legumes e da fruta, pode ser apresentado de várias formas, mas permite que a criança se interesse pela sua alimentação e que se desenvolva em saúde. O que não invalida, claro, que ao fim-de-semana ou em festas se permita uma guloseima”.
Os pais, como principais educadores, “devem servir de modelo à criança, de modo a que esta se sinta motivada a ter hábitos mais salutares”. Há que salientar que a obesidade infantil não se reduz à questão do peso. “A criança obesa tem maior risco de desenvolver diabetes, doenças cardiovasculares e outras doenças mais cedo, o que pode reduzir a sua esperança média de vida em cerca de 9 anos”.
O sedentarismo, aliado a consumo energéticos em demasia, é outra questão da obesidade infantil. “As crianças chegam a estar sentadas cerca de 11 horas em frente à televisão por semana. O facto de estar parado a ver televisão incentiva o consumo energético em produtos alimentares de fraco interesse nutricional.”
Ana Rito alerta para a ameaça da obesidade infantil, porque, diz, “se não se forem tomadas medidas, em 2025, mais de metade da população portuguesa será obesa”. Assim, e como diz o ditado, de pequenino é que se deve torcer o pepino”. “Quanto mais cedo educarmos as crianças melhor”, resume a nutricionista.
Fármacos: alternativa no combate à obesidade
Paralelamente à modificação dos estilos de vida, existem, actualmente, no mercado, dois fármacos, com acção sobre o apetite e sobre a absorção das gorduras pelo organismo. “Este tratamento está indicado para a obesidade grau 1 e 2, embora deva ser sempre coadjuvado com um plano de exercício físico e um regime alimentar equilibrado”, refere a Prof.ª Isabel do Carmo, directora do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Apesar de serem os únicos no mercado, estes fármacos ainda não são comparticipados em Portugal. Isabel do Carmo lamenta esta situação, afirmando que “a utilização generalizada pelos doentes iria produzir ganhos a longo prazo”.
Opção cirúrgica
Já diz o adágio popular que, para grandes males, grandes remédios. Assim, para quem não consegue combater a obesidade com medidas dietéticas ou medicamentosas, a cirurgia aparece como um terceiro recurso. O Dr. António Sérgio, presidente da Sociedade Portuguesa da Cirurgia da Obesidade (SPCO), traça um breve retrato das opções cirúrgicas da obesidade.
– Banda gástrica: procedimento que consiste na colocação de um “anel” à volta do estômago; esta cirurgia não invasiva vai causar a sensação de saciedade mais precocemente;
– Bypass gástrico: divide-se o estômago, criando uma bolsa, e depois corta-se o intestino delgado, ligando-o à bolsa gástrica; esta intervenção restringe a alimentação e, ao mesmo tempo, cria uma mal-absorção.
– Derivações bilio-pancreáticas: intervenção semelhante ao bypass gástrico, mas o intestino que liga ao estômago é mais curto e o estômago maior, de modo a possibilitar uma mal-absorção e uma ingestão alimentar mais elevadas;
– Gastrectomia em manga: cirurgia restritiva que consiste na divisão do estômago, ao longo da grande curvatura, criando uma bolsa; este procedimento é mais utilizado em doentes com patologia grave e com elevados índices de massa corporal.
Sabia que…
Um índice de massa corporal superior a 40 pode denunciar obesidade?
A obesidade já mereceu o rótulo de doença crónica e, hoje em dia, já não é, exclusivamente, uma questão de peso
“Quando alcancei os 90 quilos pude realizar actividades que antes não era possível” Tiago Fernandes
Jornal do Centro de Saúde
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