…finalmente foram servidos os cafés! Por breves instantes, tive a sensação que poderia ainda desfrutar do nosso calmo jantar de namoro. Com uma vela acesa entre nós, tentava ouvir a música de fundo que me parecia agradável.
Mas naquela mesa ao lado, num restaurante famoso, jantavam cinco homens. Cinquentões! Cabelos grisalhos, falavam muito alto como se ninguém mais existisse por perto. Engravatados, sem casaco, colarinho desapertado e mangas arregaçadas. O de bigode, eu via-o bem de perfil, tinha a cadeira recuada afim de conseguir alojar aquela barriga de gravidez em final de gestação. A sua própria camisa, molhada de suor, reclamava e pedia a medida XXL.
Nos punhos de cada um deles exibiam-se os relógios, que competiam entre si pelo seu tamanho e brilho dourado. As suas faces apresentavam o rubor típico sequente a um jantar farto, bem regado por vinho tinto servido em balão. A expressão de triunfo que transmitiam sugeria que o negócio teria sido concretizado, provável motivo daquele encontro.
Mas em seguida vi de novo o empregado, com ar tímido e de cumplicidade subserviente, colocar em cima da mesa uma garrafa de whisky de 20 anos e cinco cálices bem grandes.
– Ouve lá pá, não te esqueças do resto! Disse o mais calvo dos cinco.
– Sim senhor, de forma alguma, retorquiu o empregado.
Foi então que o funcionário colocou em frente do tal senhor, cinco charutos.
O careca exclamou:
– Estes sim são havanos, verdadeiros, uma pipa de massa, mais caros que este jantar!
Percebi então que a coisa ainda iria piorar…!
[Continua na página seguinte]
De forma calma e por entre as baboseiras que iam dizendo, roeram com os próprios dentes a ponta dos charutos cuspindo em seguida o sobrante para dentro das chávenas de café já vazias. Ignorando o mundo, acenderam as suas preciosas prendas, e iniciaram a “fumaça”, como diria um velho baiano!
Passaram então a fumar, com o charuto empinado ao alto e foram intercalando com um golo de whisky.
Que cheiro intragável, pensei eu perante aquela baforada, devem ser charutos falsificados, de contrabando ordinário.
Veio-me à mente a imagem de uns senhores dirigentes de clube de futebol, sentados nas poltronas do estádio a assistir ao jogo com um charuto empinado na boca.
Bem, eu não fumo, mas como liberal que sou, respeito o prazer que cada pessoa sinta e deseje apreciar. Mas gozar o seu prazer incomodando quem o rodeia, denota falta de princípios básicos de educação ou então, como neste caso, o gozo consistia tão só na exibição pública, ostentação de uma época mais endinheirada, regida por valores de qualidade duvidosa.
Não foi difícil perceber que aqueles senhores não apreciavam charutos. Um bom entendedor da matéria corta a ponta do charuto com um corta-charutos apropriado, de guilhotina de lâmina dupla ou outro e segura o charuto com naturalidade numa posição paralela ao solo.
O charuto não se fuma, aspira-se, saboreia-se, desfruta-se e para que isso aconteça o verdadeiro apreciador terá que o fazer em ambiente caseiro, calmo, intimista, sozinho ou apenas com amigos apreciadores, condição exigida para conseguir absorver as sensações agradáveis que deseja alcançar, quando o fumo se dissolve na saliva e estimula as papilas gustativas.
De forma alguma um apreciador educado incomodará terceiros, sob pena de não ser capaz de obter a concentração necessária que lhe permita desfrutar aquele prazer durante duas a três horas por charuto.
Sendo assim, o recente fenómeno cada vez mais numeroso de fumadores de charutos em locais públicos, restaurantes ou outros, enquadra-se na sua convicção ignorante de apreciador, equívoco, que tem como real objectivo tentar transmitir aos outros uma imagem de poder e sinal de bem viver. Este é um bom exemplo de comportamento do “novo-riquismo” social, que neste caso, acarreta implicações negativas para a saúde pública. Mas estão convencidos que são os maiores! Pobres de espírito!
O nosso jantar acabou, saímos e eles lá continuaram. Em vez de namorar senti-me vítima de poluição sensorial: visão, audição e olfacto. Paguei a conta e não tive qualquer indemnização por sentir a minha saúde prejudicada face à acção nociva daquele tabaco de charuto exibicionista.
…mas vá lá, vá lá…ainda tive sorte! Nenhum daqueles senhores se sentiu mal, caso contrário e como obrigação deontológica profissional, teria que o socorrer, o que me sujeitaria ainda a maior poluição sensorial: o tacto!
Mas naquela mesa ao lado, num restaurante famoso, jantavam cinco homens. Cinquentões! Cabelos grisalhos, falavam muito alto como se ninguém mais existisse por perto. Engravatados, sem casaco, colarinho desapertado e mangas arregaçadas. O de bigode, eu via-o bem de perfil, tinha a cadeira recuada afim de conseguir alojar aquela barriga de gravidez em final de gestação. A sua própria camisa, molhada de suor, reclamava e pedia a medida XXL.
Nos punhos de cada um deles exibiam-se os relógios, que competiam entre si pelo seu tamanho e brilho dourado. As suas faces apresentavam o rubor típico sequente a um jantar farto, bem regado por vinho tinto servido em balão. A expressão de triunfo que transmitiam sugeria que o negócio teria sido concretizado, provável motivo daquele encontro.
Mas em seguida vi de novo o empregado, com ar tímido e de cumplicidade subserviente, colocar em cima da mesa uma garrafa de whisky de 20 anos e cinco cálices bem grandes.
– Ouve lá pá, não te esqueças do resto! Disse o mais calvo dos cinco.
– Sim senhor, de forma alguma, retorquiu o empregado.
Foi então que o funcionário colocou em frente do tal senhor, cinco charutos.
O careca exclamou:
– Estes sim são havanos, verdadeiros, uma pipa de massa, mais caros que este jantar!
Percebi então que a coisa ainda iria piorar…!
[Continua na página seguinte]
De forma calma e por entre as baboseiras que iam dizendo, roeram com os próprios dentes a ponta dos charutos cuspindo em seguida o sobrante para dentro das chávenas de café já vazias. Ignorando o mundo, acenderam as suas preciosas prendas, e iniciaram a “fumaça”, como diria um velho baiano!
Passaram então a fumar, com o charuto empinado ao alto e foram intercalando com um golo de whisky.
Que cheiro intragável, pensei eu perante aquela baforada, devem ser charutos falsificados, de contrabando ordinário.
Veio-me à mente a imagem de uns senhores dirigentes de clube de futebol, sentados nas poltronas do estádio a assistir ao jogo com um charuto empinado na boca.
Bem, eu não fumo, mas como liberal que sou, respeito o prazer que cada pessoa sinta e deseje apreciar. Mas gozar o seu prazer incomodando quem o rodeia, denota falta de princípios básicos de educação ou então, como neste caso, o gozo consistia tão só na exibição pública, ostentação de uma época mais endinheirada, regida por valores de qualidade duvidosa.
Não foi difícil perceber que aqueles senhores não apreciavam charutos. Um bom entendedor da matéria corta a ponta do charuto com um corta-charutos apropriado, de guilhotina de lâmina dupla ou outro e segura o charuto com naturalidade numa posição paralela ao solo.
O charuto não se fuma, aspira-se, saboreia-se, desfruta-se e para que isso aconteça o verdadeiro apreciador terá que o fazer em ambiente caseiro, calmo, intimista, sozinho ou apenas com amigos apreciadores, condição exigida para conseguir absorver as sensações agradáveis que deseja alcançar, quando o fumo se dissolve na saliva e estimula as papilas gustativas.
De forma alguma um apreciador educado incomodará terceiros, sob pena de não ser capaz de obter a concentração necessária que lhe permita desfrutar aquele prazer durante duas a três horas por charuto.
Sendo assim, o recente fenómeno cada vez mais numeroso de fumadores de charutos em locais públicos, restaurantes ou outros, enquadra-se na sua convicção ignorante de apreciador, equívoco, que tem como real objectivo tentar transmitir aos outros uma imagem de poder e sinal de bem viver. Este é um bom exemplo de comportamento do “novo-riquismo” social, que neste caso, acarreta implicações negativas para a saúde pública. Mas estão convencidos que são os maiores! Pobres de espírito!
O nosso jantar acabou, saímos e eles lá continuaram. Em vez de namorar senti-me vítima de poluição sensorial: visão, audição e olfacto. Paguei a conta e não tive qualquer indemnização por sentir a minha saúde prejudicada face à acção nociva daquele tabaco de charuto exibicionista.
…mas vá lá, vá lá…ainda tive sorte! Nenhum daqueles senhores se sentiu mal, caso contrário e como obrigação deontológica profissional, teria que o socorrer, o que me sujeitaria ainda a maior poluição sensorial: o tacto!