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O novo riquismo do charuto

9 Dezembro, 2009 0

Veio-me à mente a imagem de uns senhores dirigentes de clube de futebol, sentados nas poltronas do estádio a assistir ao jogo com um charuto empinado na boca.

Bem, eu não fumo, mas como liberal que sou, respeito o prazer que cada pessoa sinta e deseje apreciar. Mas gozar o seu prazer incomodando quem o rodeia, denota falta de princípios básicos de educação ou então, como neste caso, o gozo consistia tão só na exibição pública, ostentação de uma época mais endinheirada, regida por valores de qualidade duvidosa.

Não foi difícil perceber que aqueles senhores não apreciavam charutos. Um bom entendedor da matéria corta a ponta do charuto com um corta-charutos apropriado, de guilhotina de lâmina dupla ou outro e segura o charuto com naturalidade numa posição paralela ao solo.

O charuto não se fuma, aspira-se, saboreia-se, desfruta-se e para que isso aconteça o verdadeiro apreciador terá que o fazer em ambiente caseiro, calmo, intimista, sozinho ou apenas com amigos apreciadores, condição exigida para conseguir absorver as sensações agradáveis que deseja alcançar, quando o fumo se dissolve na saliva e estimula as papilas gustativas.

De forma alguma um apreciador educado incomodará terceiros, sob pena de não ser capaz de obter a concentração necessária que lhe permita desfrutar aquele prazer durante duas a três horas por charuto.

Sendo assim, o recente fenómeno cada vez mais numeroso de fumadores de charutos em locais públicos, restaurantes ou outros, enquadra-se na sua convicção ignorante de apreciador, equívoco, que tem como real objectivo tentar transmitir aos outros uma imagem de poder e sinal de bem viver. Este é um bom exemplo de comportamento do “novo-riquismo” social, que neste caso, acarreta implicações negativas para a saúde pública. Mas estão convencidos que são os maiores! Pobres de espírito!

O nosso jantar acabou, saímos e eles lá continuaram. Em vez de namorar senti-me vítima de poluição sensorial: visão, audição e olfacto. Paguei a conta e não tive qualquer indemnização por sentir a minha saúde prejudicada face à acção nociva daquele tabaco de charuto exibicionista.

…mas vá lá, vá lá…ainda tive sorte! Nenhum daqueles senhores se sentiu mal, caso contrário e como obrigação deontológica profissional, teria que o socorrer, o que me sujeitaria ainda a maior poluição sensorial: o tacto!

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