Margarida Martins, obesa mórbida » «Quando atingi os 163 kg comecei a sentir-me muito mal e a ter dificuldades em andar»
Várias especialidades envolvidas no tratamento
A colocação de uma banda gástrica é um dos métodos mais eficazes. A taxa de sucesso é elevada e o doente vê a sua vida alterar-se «da noite para o dia», mas não «de um dia para o outro».
Apesar de todos os meses notar diferenças bastante positivas, somente ao fim de três ou quatro anos é que o paciente recupera de forma consolidada da obesidade mórbida. Isto se a situação evoluir dentro dos parâmetros normais e, claro, se o indivíduo colaborar activamente.
Endocrinologia, Psicologia, Psiquiatria, Cirurgia Geral, Gastrenterologia, Cirurgia Plástica, Anestesia, Cuidados Intensivos, Nutrição e Medicina Interna. São estas as especialidades envolvidas no tratamento de um obeso mórbido, que tem uma abordagem multidisciplinar. Afinal, não passa pela «simples» colocação da banda gástrica.
«É necessário que o doente tenha uma estrutura emocional adequada. Este tratamento exige uma alteração do comportamento. A pessoa tem de ser educada a comer, porque com a banda gástrica não vai conseguir comer um décimo daquilo que comia e psicologicamente é um grande embate. Por exemplo, basta um iogurte para o estômago ficar repleto», menciona Biscaia Fraga.
Se para cada obeso mórbido, o cirurgião geral intervém uma única vez para colocar a banda, o cirurgião plástico efectua entre 5 a 10 intervenções, com intervalos entre cada acto cirúrgico.
Quando o doente começa a perder gordura, o corpo altera-se e as peles ficam extremamente flácidas e em excesso.
De acordo com Biscaia Fraga, «a primeira cirurgia plástica para retirar todo o excesso de tecido adiposo, geralmente, é ao abdómen. Depois passamos às coxas, ao tronco, à região lombar, aos braços, à área mamária, ao pescoço e à face. A cirurgia não é só para a pele que ficou em excesso, também reconstruímos o tecido muscular», diz o director do Serviço de Cirurgia Plástica e Maxilofacial do Hospital Central, ressalvando:
«Não se pode considerar cirurgia estética, porque é uma reconstrução que visa transformar a pessoa, pô-la o mais normal possível.»
Após o moroso tratamento, o doente tem de consultar o endocrinologista e o cirurgião plástico de seis em seis meses.
Quais as causas da obesidade mórbida?
Ninguém está livre de vir a sofrer deste mal, até porque tanto o excesso de peso como a obesidade têm vindo a aumentar.
Na opinião de Biscaia Fraga, «a causa fundamental da obesidade mórbida é a sociedade actual e a forma como tem evoluído. A alimentação não é saudável, o ser humano não faz exercício físico, quer conforto a todos os níveis e acaba por se deslocar sem mexer um único músculo».
Mas, o cirurgião plástico também acredita que haja influências de outra natureza, como climáticas ou hormonais.
«Pode também estar associada a depressões. Nestes casos, a comida funciona como um reflexo condicionado de gratificação daquilo que é uma vida tenebrosa, horrível. Além disso, numa depressão grave, o doente acaba por ter uma vida muito sedentária», indica o especialista.
Discutir a obesidade mórbida no I Congresso Nacional de Cirurgia Estética
Uma obesa mórbida envolvida num processo de operações plásticas para retirar o excesso de pele, uma paciente que foi operada aos joanetes em virtude de uma deformação originada pelo uso de sapatos desadequados e um doente que corrigiu os genitais. A cirurgia estética mudou a vida destes três portugueses, cujos casos foram expostos no I Congresso Nacional de Cirurgia Estética.
«O Congresso decorreu acima das expectativas e houve um excelente feedback por parte dos participantes. Conseguimos juntar 17 especialidades diferentes, desde a Reumatologia à Neurocirurgia, Estomatologia, Endocrinologia, Cirurgia Geral, entre outras», diz Biscaia Fraga, presidente deste evento, que teve lugar entre os dias 10 e 12 de Novembro, em Cascais.
A obesidade mórbida foi um dos temas principais. Mas, houve muitos outros.
«Foi transmitida em directo para o auditório uma cirurgia de rejuvenescimento da face feita por um cirurgião francês. Durante a operação tivemos a possibilidade de discutir a técnica usada, colocar algumas questões e esclarecer algumas dúvidas», sustenta Biscaia Fraga, sublinhando:
«Até mostramos como era possível, através da cirurgia estética, transformar um pé elegante para as senhoras usarem um calçado italiano.»
A cirurgia nasal na perspectiva da Otorrinolaringologia e da Cirurgia Estética, a reconstrução microcirúrgica da base do crânio e a cirurgia de ambulatório foram outros assuntos discutidos neste Congresso, que contou com a participação do Dr. Rogério Alves, bastonário da Ordem dos Advogados, do Prof. João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, e do Dr. Pedro Nunes, bastonário da Ordem dos Médicos, num debate sobre a responsabilidade e divulgação em cirurgia estética.

