Fala-se muitas vezes em hepatite, mas a verdade é que esta é uma doença com múltiplas faces. Quer porque pode ter diferentes origens, quer porque tem diferentes fontes de contágio e também porque apresenta distintos graus de gravidade.
O fígado é o primeiro e o principal órgão afectado pela hepatite, independentemente da causa da infecção.
E causas há, de facto, várias: a viral (conhecem-se seis tipos diferentes de vírus) e o consumo excessivo de substâncias consideradas tóxicas, nomeadamente álcool e alguns medicamentos.
Mas existem igualmente hepatites auto-imunes, o que significa que não possuem uma causa exterior, resultando, sim, de uma alteração no funcionamento do sistema imunitário que, em vez de defender o organismo, desenvolve anti-corpos que atacam as células do fígado.
Dependendo do agente que a provoca, a hepatite pode curar-se apenas com repouso ou implicar tratamentos prolongados ou mesmo um transplante de fígado, quando já existe cirrose, de modo a impedir o desenvolvimento do cancro. Quer a cirrose quer o cancro podem levar à morte.
As mais prevalentes são as que têm na origem vírus, constituindo algumas delas verdadeiros problemas de saúde pública. É através da água e de alimentos contaminados com matérias fecais que se transmitem os vírus A e E. Os vírus B e D partilham duas formas de contágio – contacto com sangue infectado e por via sexual. Quanto aos vírus C e G, passam de um organismo para o outro através de sangue contaminado.
Todos têm diferentes períodos de incubação, com a particularidade de ser frequente que os doentes não apresentem sintomas. As hepatites A e E não se tornam crónicas, uma situação que é comum nos tipos B, D e G (esta última com menos gravidade) e muito elevada na hepatite C.
Apesar do elevado grau de cronicidade, os doentes com hepatite para a vida podem ter um quotidiano normal, não tendo de ficar inactivos, isolados ou cumprir dietas rígidas. Têm, sim, de conhecer e aprender a viver com a doença.
Apesar de diferentes, cada uma destas patologias implica sempre uma ida ao médico e um acompanhamento adequado. No entanto, em muitos casos, o organismo possui defesas que, em presença do vírus, reagem, produzindo anti-corpos, que lutam contra os agentes infecciosos e os aniquilam. Mas, em algumas situações, não são suficientes, sendo então necessário recorrer a tratamentos anti-víricos.
Há muito a estudar ainda nesta área, mas a investigação científica tem percorrido um bom caminho na luta contra as hepatites, tendo já conseguido elaborar vacinas para os tipos A e B, as quais permitiram reduzir significativamente a sua propagação.
E descobriu substâncias, como os interferões, que podem travar a multiplicação do vírus e constituir uma esperança de cura para muitos doentes.
[Continua na página seguinte]
De A a G
São cinco os principais tipos de hepatites causadas por vírus, a que se junta um sexto descoberto há relativamente pouco tempo. Cada um deles é identificado por uma letra do alfabeto:
A – Água e alimentos contaminados são fonte de contágio
Trata-se de uma infecção provocada pelo vírus VHA, que é absorvido no aparelho digestivo e se multiplica no fígado, inflamando-o. Transmite-se de pessoa para pessoa, quando os alimentos ou a água estão contaminados por dejectos. Daí que seja mais frequente em países menos desenvolvidos, devido à precaridade do saneamento básico; daí também que atinja sobretudo crianças e adolescentes, cujo sistema imunitário é mais frágil. É uma doença considerada aguda, que se cura em média ao fim de três semanas a um mês, sem necessitar de internamento hospitalar ou de um tratamento específico.
Em 90% dos casos manifesta-se sem sintomas específicos, mas eles existem – mal-estar, fadiga, náusea, vómitos, desconforto abdominal sob as costelas direitas, febre na fase inicial, urina muito escura, fezes descoradas, amarelecimento dos olhos. Raramente é fatal, embora em adultos afectados por uma doença hepática crónica – originada por outro vírus ou pelo consumo excessivo de álcool – possa provocar falência do fígado, conhecida por hepatite fulminante. Contra o VHA existe uma vacina, descoberta em 1991, e que garante protecção por, pelo menos, dez anos.
B – Uma das principais doenças do mundo
A hepatite B constitui um grave problema de saúde pública em todo o mundo, com o vírus que a causa – o VHB – a ser responsável por uma elevada taxa de mortalidade, com as infecções crónicas a ele associados a darem origem, com frequência, a cirrose e cancro do fígado. É através do contacto com o sangue de uma pessoa infectada e das relações sexuais não protegidas que o vírus se transmite, à semelhança do que acontece com o vírus da sida. Uma outra forma de contágio, comum também às duas doenças, é a transmissão de mãe para filho durante o parto. Nas mais das vezes, a infecção declara-se sem sintomas ou com queixas não específicas, como cansaço, desconforto abdominal sob as costelas direitas e dores nas articulações.
Num terço dos infectados, o vírus provoca hepatite aguda e um em cada mil pode ser vítima de hepatite fulminante. Em dez por cento dos casos, a doença torna-se crónica, uma situação mais frequente nos homens. Existe uma vacina, que faz parte do plano nacional de vacinação.
[Continua na página seguinte]
C – Sem vacina à vista
É conhecida como a “epidemia silenciosa” pela forma como o número de portadores crónicos tem aumentado em todo o mundo e pelo facto de os infectados poderem não apresentar qualquer sintoma, durante 20 ou 30 anos, e sentir-se de perfeita saúde. Uma vez no organismo humano, este vírus leva 40 a 70 dias a incubar, com a particularidade de, à semelhança do vírus da sida, ser capaz de se modificar e camuflar, o que dificulta uma resposta adequada do sistema imunitário. Só uma parte dos infectados apresenta sintomas da doença, os quais podem oscilar entre letargia, mal-estar geral e intestinal, febre, perda de apetite, intolerância ao álcool, icterícia e problemas de concentração. Muitas vezes, são queixas muito parecidas com as de uma gripe. Cerca de 20% dos infectados recuperam espontaneamente, mas a maioria passa a sofrer de hepatite crónica, com a possibilidade de evolução para cirrose ou cancro no fígado.
Esta é uma doença da sociedade, mais comum no sexo masculino, e quem esteve na Guerra do Ultramar, quem foi operado ou fez transfusões de sangue (dado ou recebido), as mulheres que foram mães ou fizeram abortos antes de 1992 devem solicitar o rastreio junto do seu médico de família. É principalmente por via sanguínea que se transmite o vírus da hepatite C – um corte ou uma pequena ferida é quanto basta, sendo frequente o contágio através da partilha de seringas. A transmissão por via sexual é rara, havendo também um risco mínimo de uma mãe infectar o filho, durante a gravidez podendo, no entanto, infectá-lo durante o parto. Não está ainda disponível uma vacina.
O álcool está proibido aos portadores de hepatite porque estimula a multiplicação do vírus e diminui as defesas imunitárias.
D – À boleia da hepatite B
A inflamação do fígado causada pelo vírus VHD ocorre apenas em simultâneo com a acção de um outro vírus, o causador da hepatite B.
Transmite-se sobretudo a partir do sangue e seus derivados, bem como pelo contacto com seringas infectadas, o que explica a prevalência entre toxicodependentes.
No caso de uma co-infecção (infecção simultânea pelos vírus B e D), a hepatite B pode ser severa ou mesmo fulminante, mas raramente evolui para uma forma crónica; a situação oposta ocorre com a superinfecção, que provoca hepatites crónicas em 80% dos casos, dos quais 40% acabam em cirrose.
E – Endémica em regiões tropicais
Em Portugal, como noutros países ditos industrializados, a infecção do fígado causada pelo vírus VHE é rara, mas nas regiões tropicais foi já responsável por graves epidemias.
Nas zonas em que é endémica, calcula-se que a taxa de mortalidade infantil causada pela hepatite E seja superior a 30. Incide sobretudo nos adultos entre os 15 e os 40 anos. Pode ser fulminante, mas quase sempre cura-se espontaneamente. À falta de tratamento específico, devem evitar-se medicamentos que possam ser tóxicos para o fígado.
[Continua na página seguinte]
G – Com pouca incidência mas pouco conhecida
Calcula-se que a hepatite G corresponda a 0,3% das hepatites víricas. Por ser recente – só foi descoberta em 1995 – desconhecem-se ainda todas as formas de contágio possíveis, mas sabe-se que se transmite sobretudo por contacto sanguíneo. Assim, poderão estar em risco pessoas como as que partilham seringas e as que são sujeitas a transfusões de sangue. Também não há ainda muito conhecimento sobre as consequências de uma infecção pelo VHG, embora esteja já identificado que a grande maioria dos infectados se tornam portadores crónicos. Poderão, no entanto, nunca vir a sofrer de uma doença hepática.
SOS Hepatites
Foi a necessidade de partilhar experiências, forças e esperanças, entre doentes com hepatites vitais e os seus familiares, que conduziu à constituição da SOS Hepatites. Entre os seus objectivos contam-se também a sensibilização da sociedade e os dos profissionais de saúde para os problemas das hepatites e para a necessidade de combater a marginalização a que são votados os doentes. Para melhor alcançar estes propósitos, a associação aderiu à Plataforma Saúde e Diálogo, um fórum de entreajuda e solidariedade entre doentes, utentes dos serviços de saúde e profissionais de saúde, nomeadamente farmacêuticos.
Contactos:
Praça Mota Veiga, Lote 0 subcave Dtª, 1800-280 Lisboa
218 515 441 – 969 677 151 – 924 194 028
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
www.anf.pt