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Exposição cultural desmistifica falsos estigmas e crenças sobre os doentes mentais

8 Junho, 2007 0

11. O gabinete do psiquiatra era para os doentes um local sagrado e um autêntico confessionário. Aí se relatavam as maiores desgraças que um homem pode viver: solidão, abandono, traições, invejas, ciúmes, adultérios, violações, maus-tratos, abusos e toda a imundície que a perversão humana consegue trazer a este mundo. CÉLIA DOMINGUES

12. Os dias monótonos e ociosos corriam em passadas mecanizadas pelos longos corredores do pavilhão. O tempo era assim apagado indolentemente, sem deixar vestígios nem memória; esfumando-se simplesmente. Os doentes caminhavam vagarosos, cansados, cabisbaixos, sem esperança, presos a um passado revivido milhares de vezes. A alma ficava mergulhada num tédio e num vazio que lhes ia sugando a vida, dia após dia. WALTER BARROS

13. ─ Eu também já pensei em matar-me. Várias vezes fui ensombrado por esse pensamento. Não me encontro, por isso em posição de o julgar. Estou certo de que muitos dos que aqui estão internados já passaram por semelhante angústia. Só os felizes e, eventualmente os bons cristãos, é que serão a excepção. Mas aqui só há doidos, e estes não são decididamente felizes nem estão na graça de Deus. SANDRO RESENDE

14. As paredes esburacadas de cores desfalecidas, as manchas de infiltrações e a sujidade davam um aspecto descuidado e decadente. As condições insalubres daquele espaço eram denunciadas pela atmosfera repelente e pelo cheiro nauseabundo. Havia um odor ubíquo e sufocante a urina que dificultava a respiração. Margarida, perplexa, olhava à sua volta sem saber muito bem se tinha recuado um século no tempo ou se estaria numa casa de loucos. ANA RITO

15. Ouviam-se uivos, gritos, gemidos, proferidos por várias vozes simultâneas que ecoavam nas altas paredes do pavilhão. Daquela algaraviada constante sobressaía um doente que corria com os braços estendidos para a frente, e gritava a plenos pulmões um série de palavras obscenas. Alguns doentes andavam descalços e seminus pelos corredores, de um lado para o outro, sem destino concreto.

─ Se não te calas levas com o «amansa leão»! ─ admoestou o enfermeiro Martins, lançando-lhe um olhar ameaçador.
O doente acusou a advertência, e obedeceu, calando-se. INES BOTELHO

16. Estava amarrado ao leito por fortes correias de couro. As mais largas prendiam-lhe a cintura, enquanto os punhos e os tornozelos estavam fixados a cada um dos cantos da cama por fortes fivelas. Preso como um animal selvagem, crucificado naquela cama ensopada em urina, fitava-a com uma expressão mumificada, e remexia suavemente com os dedos no lençol roto como uma criança que usa a sua fralda como consolo. CRISTINA ATAIDE

17. Desinteressados os restantes doentes comiam famintos, com as mãos revelando uma voracidade animalesca. Mastigavam ruidosamente a comida com o maxilar inferior para cima e para baixo, num movimento cadenciado. Todas as fisionomias denunciavam tristeza, falta de afecto e solidão, tais eram os estragos da doença e do desamparo. ANA QUIROGA PEREZ

18. ─ Ele não quer saber. Quando lhe falo no assunto ameaça-me com os electrochoques. E, eu não quero nem ouvir falar nisso! ─ berrou com uma expressão aterrorizada.
─ Porquê?
─ Aquilo queima-me a pele toda! Observe, tenho aqui as marcas da última ─ disse levando a mão à testa.
─ Não vejo aí nada! ─ discordou Margarida, observando-o de vários ângulos
SÉRGIO BRÁS D’ALMEIDA e SOPHIE PINTO

19. ─ Eu vi-os senhor director, vi-os entregues às mãos de autênticos carcereiros, num ambiente frio e sujo, amarrados em lugares nos quais se hesitaria até em guardar bestas selvagens, ou o mais temível dos criminosos. Perante tudo isto há que tomar medidas, não podemos cair na tentação da indiferença, num desdém pela justiça e pela defesa da dignidade humana. RUI LOURO

20. O asilo psiquiátrico assemelhava-se a um purgatório na Terra, no qual os gritos e os gemidos não eram tolerados. Havia sempre uns ouvidos atentos aos queixumes, não faltando um enfermeiro solícito para, às ordens do médico, espetar na nádega o abençoado tranquilizante, aspergindo-os daquela água benta química, silenciando-lhes o sofrimento. Mas, no final, a vitória não cabia nem a Deus nem ao diabo, mas à loucura, que resistia, imperturbável. HENRIQUE ALBUQUERQUE

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