Seis meses depois do arranque oficial da campanha da Valormed, Fátima Lopes, a embaixadora desta acção de sensibilização, mostra como pequenos gestos podem fazer toda a diferença. Em entrevista ao Jornal do Centro de Saúde, a apresentadora mostra-se uma acérrima defensora do meio ambiente. E não deixa de frisar que o futuro do ambiente começa hoje, com pequenas rotinas como entregar as embalagens e medicamentos fora de uso na farmácia.
Como surgiu o convite para encabeçar a campanha da Valormed?
Depois de efectuar alguns estudos de mercado sobre figuras públicas, que têm desenvolvido trabalho sobre responsabilidade social, a Valormed chegou à conclusão de que eu tinha um posicionamento interessante. Talvez porque, ao longo destes anos todos, fui abraçando projectos de responsabilidade social. A nível ambiental ainda não o tinha feito. Mas a Valormed decidiu lançar-me o desafio, até mesmo para testarem a minha sensibilidade na área ambiental.
E como reagiu ao convite?
Mantenho uma preocupação ambiental há já vários anos. E, nesta matéria, sou uma autodidacta, porque procuro obter informação para melhorar os meus comportamentos ambientais. Por estas razões, fiquei muito satisfeita com a ideia de poder abraçar este projecto. Pelo que leio, Portugal é o país que mais medicamentos consome, mas, também, aquele que mais desperdiça. Esta campanha tem um objectivo bem delineado: mudar o comportamento dos portugueses em matéria de reciclagem dos medicamentos.
Qual a sua postura em relação a esta campanha?
Tenho a preocupação de me informar previamente sobre as campanhas que abraço. Não pretendo apenas emprestar apenas a minha imagem, sob pena de não passar disso mesmo: de uma imagem. Quero ir mais além do que inteirar-me da campanha.
Ultimamente tem aparecido associada a várias campanhas de produtos de saúde e de ambiente. Estes são temas que a preocupam no seu dia-a-dia?
Sou muito criteriosa em relação às campanhas a que me associo. Recuso-me a dar a cara por campanhas que possam defraudar a população. No caso da Valormed, não tive dúvidas em aceitar o convite. Esta é uma campanha que qualquer figura pública com o mínimo de responsabilidade social e ambiental aceitaria encabeçar.
O que pensa deste tipo de acções de sensibilização?
Modificar os comportamentos e as práticas ambientais é um passo obrigatório. Isto porque ainda há pouca consciência ambiental e um longo caminho por desbravar. Nota positiva para o facto de as crianças, hoje em dia, terem uma consciência ambiental mais apurada, fruto da formação escolar. Mas esse comportamento ainda não é uniforme. Em Portugal, continuam-se a praticar atrocidades ambientais.
O slogan “Habitue-se a esta ideia” resume, no fundo, o comportamento ainda avesso dos portugueses no que toca à reciclagem de medicamentos fora de uso?
É tudo uma questão de mentalidade. Julgo que há, ainda, um comportamento tipicamente português. E digo ainda, porque acredito que, mais dia, menos dia, as atitudes vão mudar. Logo que esta questão esteja devidamente assimilada, passa a ser algo consensual. Ao nível dos medicamentos, julgo que há um certo desleixo e até preguiça, juntamente com falta de informação. Em meios pequenos, muitas pessoas não sabem que destino dar aos medicamentos fora de uso. Partem do princípio de que os medicamentos podem ser atirados para o recipiente do lixo comum.
E onde se observa um maior desconhecimento desta prática?
Em zonais mais rurais, percebemos que as pessoas nem sequer estão elucidadas sobre a divisão do lixo. Não por inexistência de campanhas de informação. Mas porque, simplesmente, existe uma falta de sensibilização por parte da população. Muitas das vezes, são as camadas mais jovens que instruem os adultos a alterar comportamentos ambientais.
No fundo, há uma certa ambiguidade. Porque, se por um lado, os adultos são os que apresentam maior défice de informação, são, simultaneamente, os que consomem a maior parcela de medicamentos…
Sim. Mas não é apenas por uma questão de falta de informação. As gerações mais velhas – as maiores consumidoras de medicamentos – por vezes não dão o destino adequado aos medicamentos fora de prazo. Esta rotina pode implicar uma deslocação propositada à farmácia, para entregarem estes produtos, razão pela qual muitas pessoas ainda não aderiram a esta prática.
Mas a entrega de medicamentos e embalagens fora de uso não implica, necessariamente, uma deslocação propositada à farmácia…
É uma questão de método. Normalmente, eu guardo os medicamentos fora de prazo num saco, em casa, até à próxima ida à farmácia ou até ao dia em que sei que vou passar perto de um destes estabelecimentos. Não me incomoda nada acumular os medicamentos num saco durante três meses. Sei que, por uma questão de atitude, há pessoas que continuam a depositar estes produtos no mesmo recipiente do lixo biológico. Parte-se do princípio que, mais um, menos um, ninguém conta. Urge mudar esta atitude, porque se, isoladamente, continuarmos a pensar todos da mesma forma, as práticas ambientais não se alteram.
Ainda existe a falsa crença de que os medicamentos são produtos biodegradáveis?
Os medicamentos são produtos químicos. E não são amigos do ambiente. É por estas razões que os medicamentos fora de prazo e as respectivas embalagens devem ser entregues nos locais próprios, para, posteriormente, serem reciclados. É como as radiografias, que, erradamente, se cortam aos pedaços e se atiram para o balde do lixo comum.
O facto de ser uma figura pública ajuda a moldar comportamentos e atitudes?
As figuras públicas exercem influência a esse nível. Tanto pela imagem que foi construída, como pelo nível de credibilidade. Uma mensagem veiculada por uma figura pública tem mais impacto do que se for um anónimo. Não é por acaso que muitas das figuras conhecidas dos portugueses “emprestam” a imagem para algumas campanhas de sensibilização.
Antes da campanha da Valormed já tinha a rotina de entregar os medicamentos fora de uso na farmácia?
Já tinha algum cuidado, mas, depois de ter sido devidamente informada, adoptei esta rotina com mais frequência. E, hoje em dia, em minha casa, os medicamentos fora de prazo são todos entregues na farmácia.
É uma ideia simples que pode fazer muito pelo ambiente…
Separar os medicamentos é muito simples. Na verdade, não dá trabalho nenhum e faz-nos sentir muito melhor, por estarmos a ajudar o ambiente. O futuro das gerações vindouras depende dos nossos comportamentos ambientais.
Houve algum episódio inesperado decorrente da campanha?
Lembro-me de uma senhora idosa que, ao cruzar-se comigo na rua, bateu-me no ombro e disse: “Dona Fátima, já não deito os medicamentos no lixo, já aprendi consigo. Agora, entrego tudo na farmácia.” Foi uma situação curiosa, porque demonstra que mesmo os mais velhos, quando aprendem, sentem-se felizes ao mudar o comportamento, independentemente da idade.
Qual o balanço que pode ser feito da campanha até ao momento?
Em Maio, houve um jantar de entrega de prémios às farmácias que registaram maior recolha de medicamentos. E este primeiro balanço indicou que os números eram muito promissores. Houve um grande volume de toneladas de medicamentos entregues ainda o ano ia a meio. E tudo leva a crer que a mensagem, aos poucos, está a chegar ao destino e é esse o objectivo da campanha.
Jornal do Centro de Saúde
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