O Professor Fernando de Pádua é o Presidente do Instituto de Cardiologia Preventiva. É ainda Presidente da Fundação Professor Fernando de Pádua que tem como objectivo a promoção da saúde e a melhoria da qualidade de vida. Com um trabalho de mais de 50 anos a difundir ensinamentos de educação para a saúde, o Professor concedeu-nos uma entrevista em que dá conselhos sobre a prevenção de doenças de forma a promover a saúde das populações.
Que conselhos dá para a prevenção das doenças do coração?
Eu explico aos meus doentes que a tensão alta é gravíssima enquanto existe e temos de a tratar. O seu Médico de Família no Centro de Saúde é que o acompanha e o conhece, mas quem tem de tratar de si é você.
Vá controlando a tensão. Vá registando os valores da tensão e se a medicação não resultar, volte ao seu médico. Não deve parar de tomar medicamentos quando já se sente bom. A hipertensão deve ser tratada pelo próprio com a colaboração inestimável e absoluta do seu Médico de Família. É ele quem vai controlando, mudando a medicação, ajustando-a ao seu caso e vai prevendo as complicações.
A hipertensão é a nossa doença principal. A nossa intenção é a de que os doentes aprendam o que é a tensão, tenham aparelho de medição ou usem o que existe nos Centros de Saúde e nas farmácias para que possam ir controlando, embora com indicação médica. A nossa luta neste momento é a procura do “hipertenso desconhecido”. Os múltiplos estudos que têm sido feitos pelo país sobre este tema detectaram entre 30 e 40% de pessoas com hipertensão arterial. O problema é que desses, menos de metade se trata. E desses, menos de metade ou talvez 1/3 desconhece completamente que tem tensão elevada. O que em números redondos fará que haja um milhão de hipertensos desconhecidos. Ainda pouca gente utiliza esse termo, mas eu uso-o e para mim tensão arterial elevada é 14 ou mais. Entre 12 e 14 é a faixa da pré hipertensão. O que nós deveríamos ter é 12,11 ou 10. Quando temos 13 ou 14 é porque estamos a caminho da hipertensão. Portanto, não estamos a fabricar doentes, mas sim a escolher uma faixa de pessoas que já não têm uma tensão normal e que devem ter especial atenção a esse problema e aos factores de risco que agravam a tensão. Isto porque uma tensão de 19 é muito grave, mas se for de 19 com tabaco, é três vezes mais grave. A tensão de 19 com colesterol elevado ou com açúcar elevado no sangue é duas ou três vezes mais grave. Uma coisa é o doente com hipertensão e mais nada. Outra é o doente hipertenso que fuma, que tem o colesterol alto ou glicémia elevada e aí a mortalidade é 9 ou 10 vezes maior e mais grave. Cada pessoa que tiver um aparelho para medir a tensão arterial deve oferecer-se para medir a familiares, amigos e vizinhos: para descobrirmos o milhão que falta! A verdade é que, em cada dia que passa, morrem 60 pessoas por acidente vascular cerebral.
Qual a principal causa da hipertensão?
Os principais erros da nutrição são o sal em excesso e a gordura a mais. Estamos a cair na asneira de recorrer às gorduras saturadas e gorduras industriais, quando temos o azeite, uma das melhores gorduras que no mundo há. Existe em Portugal um consumo excessivo de gorduras, de sal e falta de fruta. Nós constituímos um exemplo mundial de uso e abuso do sal, apenas precedido pelo Japão. No Japão, havia o consumo de 30 e pouco gramas diárias. Nós consumíamos entre 24 a 25 gramas por dia, quando o desejável é menos de 5 gramas por dia. E esta é a principal causa de hipertensão dos portugueses.
Que conselhos dá a pessoas que tenham o hábito de fumar?
O tabaco surge como um erro que complica a vida dos diabéticos de uma maneira atroz, torna a hipertensão três vezes mais grave e fabrica cancros do pulmão. Já está perfeitamente esclarecido e há muitas campanhas que estão apontadas para os seus perigos. Se conhecer os perigos do tabaco fizesse parar de fumar, ninguém fumava.
Há estatísticas que indicam que 70% dos fumadores querem deixar de fumar. Mas tem de haver uma boa motivação. Uma delas é a motivação emocional, em que a pessoa pára de fumar porque tem filhos em casa e sabe que se o fizer, eles tornar-se-ão também fumadores. Devem-se cativar os clínicos gerais de forma a falarem aos pais e mães para deixarem de fumar cada vez que planeiem ter um filho. Ao que parece, aquilo que mais consegue fazer com que as pessoas deixem de fumar é convencê-las da sua força de vontade. Eu arranjei até uma frase que pode ser que resulte: “você começou a fumar porque quis imitar os homens. Agora que já fuma tem de mostrar que é homem e parar”. Há que fazer sentir às pessoas, dar-lhes o conhecimento de que há muitos métodos para deixar o tabaco, mas que não resultam se não quiser. Se você quiser deixar de fumar, pode dispensar os médicos porque consegue parar. Vá passear tornou-se um slogan já nosso: “Atenção à tensão. Pare de fumar e vá passear!”. E aqui fica com a saúde na sua mão!
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