No domingo, 14 de Novembro, comemorou-se mais um Dia Mundial da Diabetes. Este ano, o enfoque da sociedade médica nacional foi a obesidade, esse grande factor de risco para o aparecimento precoce de uma diabetes adormecida.
A Associação de Diabéticos do Concelho de Ílhavo (ADCI) não quis deixar passar despercebida esta data tão significativa para os seus associados e, concretizando um sonho alimentado desde a sua fundação, há cerca de três anos, conseguiu trazer, mais uma vez, até estas terras marujas rodeadas pelos extensos mantos de água da grande laguna, a sua amiga e madrinha Dr.ª Rosa Gallego, actual coordenadora do Grupo de Estudos da Diabetes, da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral.
A jornada do fim-de-semana versou o tema «O pé do doente diabético», e constou de duas partes: na noite do dia 12, uma sessão para médicos e, no sábado de tarde, uma sessão para os associados e população em geral do concelho de Ílhavo.
12 de Novembro. Fim de tarde. O tempo estava maravilhoso. Ou não fosse o Verão de S. Martinho. Apesar dos IC’s, dos IP’s e das A’s, chegar a Ílhavo pode não ser tão fácil como à primeira vista possa parecer. Não fosse haver algum percalço, decidi marcar encontro com a Maria Rosa (como gosta de se chamar a si própria) à saída do Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro, e servir de guia rumo à cidade de Ílhavo. Esperava–nos uma plateia de três dezenas de médicos da carreira de Medicina Geral e Familiar, colegas nossos de diferentes centros de saúde da Região, como Ílhavo, Estarreja, Aveiro, Vagos ou Albergaria, todos eles interessados no tema que se iria debater: o pé do doente diabético.
Com a força de presença a que nos habituou, a Maria Rosa nem me deu tempo para a apresentar e foi, assim, directa ao assunto: «Ala, que se faz tarde». Honrou-nos, de sobremaneira, a presença na plateia do Dr. Simões Pereira, endocrinologista do Hospital Infante D. Pedro, grande dinamizador científico da ADCI e responsável pela vigilância e controlo de retaguarda de uma vasta população de diabéticos residentes na área de influência do Hospital Infante D. Pedro.
Depois da sessão e do jantar de convívio, a noite ia longa e o cansaço já carregava no rosto e nas palavras da Dr.ª Rosa Gallego. Afinal, estivera a trabalhar no seu Centro de Saúde de Vila Franca de Xira até às três e tal da tarde, fizera a viagem até Ílhavo e ainda dinamizara aquela sessão científica para os colegas, cujos silêncio de ouvintes atentos e solicitações de esclarecimentos finais provaram a importância e o êxito desta iniciativa. Depois de um «até amanhã» e «uma noite descansada», aguardou-se pelo sábado.
Às 10 da manhã, ali estava eu, no hall do Hotel de Ílhavo, mandando um «toque» à Maria Rosa. Fomos pela circular externa recém-inaugurada da cidade, rumo ao lugar da Vista Alegre, contíguo à cidade de Ílhavo, e onde nasceu e cresceu a fábrica de porcelana com o mesmo nome – Vista Alegre. A caminho, ficou-nos do lado direito a Feira dos 13, uma feira que se realiza mensalmente e onde se pode encontrar quase de tudo: os legumes, a criação, as roupas e as alfaias agrícolas são talvez os bens mais procurados.
Mas o nosso destino era mercar num local bem mais sofisticado: a loja da Vista Alegre. Com os olhos arregalados perante tanta beleza, o mais difícil foi saber conter os ímpetos para não esvaziar a bolsa. Esta coisa do cartão de crédito é muito útil e prática, mas tornou-se um instrumento sofisticadamente perigoso para as finanças domésticas. Ao fim de quase uma hora, saímos com poucos sacos brancos V.A. e muitos suspiros por aquilo que havíamos deixado nas prateleiras.
Não pudemos deixar de visitar o Museu da Fábrica, onde pela primeira vez se expunham as peças para o Leilão a decorrer nessa mesma tarde, no velho e precioso teatro de bolso da Vista Alegre, também ele pertença da fábrica. Entrámos no carro, mas não antes de aproveitarmos para passar pela «loja das oportunidades» da Fábrica e comprar aquele artigo de uso diário, que dá sempre jeito: a tigela para o pequeno-almoço ou para a sopa e, porque não, aquele bule tão giro ou o pratinho de Natal que faltava na colecção.
Depois de atravessar a ponte de madeira sobre o Canal de Mira, um dos muitos braços da ria, a paisagem obrigou-nos a parar: o espelho de água que reflectia o azul límpido do céu deixava-se atravessar pelo amarelo vivo da proa de um moliceiro esquecido junto à margem e, lá ao fundo, ao alto, erguia-se o telhado do casario abraçando a fábrica com traça dos finais do século XIX, e onde sobressai o torreão da capela da Vista Alegre, paredes-meias com o Palácio. Um postal que a Maria Rosa não quis deixar de registar em fotografia, na sua máquina digital, que começou a anunciar estar fraca de bateria. Esperava-se que ainda desse para tirar algumas fotos durante a sessão da tarde.
Atravessámos a Gafanha da Boavista e a Gafanha d’Aquém. Quem não gostaria de ter por aqui uma casinha virada para a Ria, com um cais de madeira a convidar para dar uma voltinha de barco e gozar a qualidade de vida que ainda se pode desfrutar por estas bandas, especialmente aos olhos duma lisboeta?
Em meia dúzia de minutos, chegámos à Gafanha da Encarnação, ao Largo da Bruxa, lugar emblemático que nos obrigou a sair do carro e repousar o olhar no casario do lado de lá da ria, a Costa Nova, com casinhas de listas de cores ao alto: azuis, amarelas, vermelhas, cores da vida que marcaram poetas e pintores importantes, que deixaram marcas escritas das suas passagens por estas bandas.
A pé, fomos até à Marina da Bruxa, onde nos sentámos à sombra de um chapéu, que o sol das onze e meia já ia alto e batia com os seus raios nas cabeças mais desprotegidas, como a minha. O silêncio, a calmaria da Ria e a vista sobre a Costa Nova deram um outro sabor à bica que sorvemos em pequenos golos.
Quando demos por ela era quase uma da tarde. Ou os ponteiros do relógio tinham andado muito depressa, ou não demos pelo tempo a passar. E dizíamos nós que estávamos a fazer tempo para o almoço. Como se o tempo se fizesse…
Rumámos ao Hotel de Ílhavo, para almoçar, que a sessão das três da tarde com os doentes não podia esperar. Mesmo assim, ainda deu para mostrar à Maria Rosa o lugar onde trabalho como médico de família, na Gafanha da Encarnação, atravessar a Gafanha da Nazaré, passar pela minha casa – «é aqui que eu moro» – e, finalmente, chegar ao hotel.
Por estas bandas, estes trajectos fazem-se em dez ou quinze minutos.
É a tal qualidade de vida que faz inveja à minha querida lisboeta.
Uma vez instalados no restaurante A Casa Velha, no Hotel de Ílhavo, os olhos da Maria Rosa fixaram-se em ramos de árvores envernizados: ramos perdidos no mar, esculpidos pelas mãos brutas do mar e um dia recolhidos no areal. A quem desfruta de os poder olhar, é só dar asas à fantasia e aí a temos criando livremente formas ora de criaturas fantasmagóricas, ora de torneados femininos.
Comemos uma soberba cataplana de bacalhau, não sem antes degustar uns mexilhões de vinagrete, com pimento verde, cebola e alho picados. Rematámos com uma fruta tropical. Falámos de tudo e de nada. Ficámos a conhecer-nos melhor, ou, talvez, tão simplesmente a conhecer-nos. No fundo, somos todos iguais, de carne e osso, e com os mesmos problemas comuns aos comuns dos mortais e com uma máscara que enfiamos todos os dias de manhã, antes de sair de casa, para encararmos o mundo, cada um à sua maneira. Mas somos todos iguais.
Às três e pouco começava a sessão com os doentes no salão nobre da Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré. Cheio que nem um ovo.
Como sempre que a ADCI faz uma sessão para os seus associados e população em geral. O espaço, nesse dia mais do que nunca, revelou-se exíguo. «Olhe, filha! Sente-se aqui no chão, à frente, e traga todos esses amigos que estão aí à porta. Não é por falta de lugar que se há-de ir embora!»
Quem haveria de dizer estas palavras senão a Maria Rosa, que, tal como na véspera, nem precisou que a apresentassem e, do pé para a mão (ou das mãos para os pés), começou a apresentar as suas figuras pedestres, projectadas na parede branca.
Tal como na sessão da noite anterior, o silêncio atento durante a exposição e o assalto em catadupa no seu final demonstraram o êxito deste encontro.
Que rica jornada!
Para além do pitoresco de bastidores deste memorável fim-de-semana, não posso finalizar esta crónica sem deixar uma palavra de agradecimento ao Laboratório Aventis, em especial na pessoa do Sr. Mário Oliveira, e aos delegados de informação médica da zona, que realizaram os convites médicos para o evento. Em nome da ADCI, o nosso sincero bem-haja!
Dr. António Marques Leal
Médico de Família do Centro de Saúde de Ílhavo
A Associação de Diabéticos do Concelho de Ílhavo (ADCI) não quis deixar passar despercebida esta data tão significativa para os seus associados e, concretizando um sonho alimentado desde a sua fundação, há cerca de três anos, conseguiu trazer, mais uma vez, até estas terras marujas rodeadas pelos extensos mantos de água da grande laguna, a sua amiga e madrinha Dr.ª Rosa Gallego, actual coordenadora do Grupo de Estudos da Diabetes, da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral.
A jornada do fim-de-semana versou o tema «O pé do doente diabético», e constou de duas partes: na noite do dia 12, uma sessão para médicos e, no sábado de tarde, uma sessão para os associados e população em geral do concelho de Ílhavo.
12 de Novembro. Fim de tarde. O tempo estava maravilhoso. Ou não fosse o Verão de S. Martinho. Apesar dos IC’s, dos IP’s e das A’s, chegar a Ílhavo pode não ser tão fácil como à primeira vista possa parecer. Não fosse haver algum percalço, decidi marcar encontro com a Maria Rosa (como gosta de se chamar a si própria) à saída do Hospital Infante D. Pedro, em Aveiro, e servir de guia rumo à cidade de Ílhavo. Esperava–nos uma plateia de três dezenas de médicos da carreira de Medicina Geral e Familiar, colegas nossos de diferentes centros de saúde da Região, como Ílhavo, Estarreja, Aveiro, Vagos ou Albergaria, todos eles interessados no tema que se iria debater: o pé do doente diabético.
Com a força de presença a que nos habituou, a Maria Rosa nem me deu tempo para a apresentar e foi, assim, directa ao assunto: «Ala, que se faz tarde». Honrou-nos, de sobremaneira, a presença na plateia do Dr. Simões Pereira, endocrinologista do Hospital Infante D. Pedro, grande dinamizador científico da ADCI e responsável pela vigilância e controlo de retaguarda de uma vasta população de diabéticos residentes na área de influência do Hospital Infante D. Pedro.
Depois da sessão e do jantar de convívio, a noite ia longa e o cansaço já carregava no rosto e nas palavras da Dr.ª Rosa Gallego. Afinal, estivera a trabalhar no seu Centro de Saúde de Vila Franca de Xira até às três e tal da tarde, fizera a viagem até Ílhavo e ainda dinamizara aquela sessão científica para os colegas, cujos silêncio de ouvintes atentos e solicitações de esclarecimentos finais provaram a importância e o êxito desta iniciativa. Depois de um «até amanhã» e «uma noite descansada», aguardou-se pelo sábado.
Às 10 da manhã, ali estava eu, no hall do Hotel de Ílhavo, mandando um «toque» à Maria Rosa. Fomos pela circular externa recém-inaugurada da cidade, rumo ao lugar da Vista Alegre, contíguo à cidade de Ílhavo, e onde nasceu e cresceu a fábrica de porcelana com o mesmo nome – Vista Alegre. A caminho, ficou-nos do lado direito a Feira dos 13, uma feira que se realiza mensalmente e onde se pode encontrar quase de tudo: os legumes, a criação, as roupas e as alfaias agrícolas são talvez os bens mais procurados.
Mas o nosso destino era mercar num local bem mais sofisticado: a loja da Vista Alegre. Com os olhos arregalados perante tanta beleza, o mais difícil foi saber conter os ímpetos para não esvaziar a bolsa. Esta coisa do cartão de crédito é muito útil e prática, mas tornou-se um instrumento sofisticadamente perigoso para as finanças domésticas. Ao fim de quase uma hora, saímos com poucos sacos brancos V.A. e muitos suspiros por aquilo que havíamos deixado nas prateleiras.
Não pudemos deixar de visitar o Museu da Fábrica, onde pela primeira vez se expunham as peças para o Leilão a decorrer nessa mesma tarde, no velho e precioso teatro de bolso da Vista Alegre, também ele pertença da fábrica. Entrámos no carro, mas não antes de aproveitarmos para passar pela «loja das oportunidades» da Fábrica e comprar aquele artigo de uso diário, que dá sempre jeito: a tigela para o pequeno-almoço ou para a sopa e, porque não, aquele bule tão giro ou o pratinho de Natal que faltava na colecção.
Depois de atravessar a ponte de madeira sobre o Canal de Mira, um dos muitos braços da ria, a paisagem obrigou-nos a parar: o espelho de água que reflectia o azul límpido do céu deixava-se atravessar pelo amarelo vivo da proa de um moliceiro esquecido junto à margem e, lá ao fundo, ao alto, erguia-se o telhado do casario abraçando a fábrica com traça dos finais do século XIX, e onde sobressai o torreão da capela da Vista Alegre, paredes-meias com o Palácio. Um postal que a Maria Rosa não quis deixar de registar em fotografia, na sua máquina digital, que começou a anunciar estar fraca de bateria. Esperava-se que ainda desse para tirar algumas fotos durante a sessão da tarde.
Atravessámos a Gafanha da Boavista e a Gafanha d’Aquém. Quem não gostaria de ter por aqui uma casinha virada para a Ria, com um cais de madeira a convidar para dar uma voltinha de barco e gozar a qualidade de vida que ainda se pode desfrutar por estas bandas, especialmente aos olhos duma lisboeta?
Em meia dúzia de minutos, chegámos à Gafanha da Encarnação, ao Largo da Bruxa, lugar emblemático que nos obrigou a sair do carro e repousar o olhar no casario do lado de lá da ria, a Costa Nova, com casinhas de listas de cores ao alto: azuis, amarelas, vermelhas, cores da vida que marcaram poetas e pintores importantes, que deixaram marcas escritas das suas passagens por estas bandas.
A pé, fomos até à Marina da Bruxa, onde nos sentámos à sombra de um chapéu, que o sol das onze e meia já ia alto e batia com os seus raios nas cabeças mais desprotegidas, como a minha. O silêncio, a calmaria da Ria e a vista sobre a Costa Nova deram um outro sabor à bica que sorvemos em pequenos golos.
Quando demos por ela era quase uma da tarde. Ou os ponteiros do relógio tinham andado muito depressa, ou não demos pelo tempo a passar. E dizíamos nós que estávamos a fazer tempo para o almoço. Como se o tempo se fizesse…
Rumámos ao Hotel de Ílhavo, para almoçar, que a sessão das três da tarde com os doentes não podia esperar. Mesmo assim, ainda deu para mostrar à Maria Rosa o lugar onde trabalho como médico de família, na Gafanha da Encarnação, atravessar a Gafanha da Nazaré, passar pela minha casa – «é aqui que eu moro» – e, finalmente, chegar ao hotel.
Por estas bandas, estes trajectos fazem-se em dez ou quinze minutos.
É a tal qualidade de vida que faz inveja à minha querida lisboeta.
Uma vez instalados no restaurante A Casa Velha, no Hotel de Ílhavo, os olhos da Maria Rosa fixaram-se em ramos de árvores envernizados: ramos perdidos no mar, esculpidos pelas mãos brutas do mar e um dia recolhidos no areal. A quem desfruta de os poder olhar, é só dar asas à fantasia e aí a temos criando livremente formas ora de criaturas fantasmagóricas, ora de torneados femininos.
Comemos uma soberba cataplana de bacalhau, não sem antes degustar uns mexilhões de vinagrete, com pimento verde, cebola e alho picados. Rematámos com uma fruta tropical. Falámos de tudo e de nada. Ficámos a conhecer-nos melhor, ou, talvez, tão simplesmente a conhecer-nos. No fundo, somos todos iguais, de carne e osso, e com os mesmos problemas comuns aos comuns dos mortais e com uma máscara que enfiamos todos os dias de manhã, antes de sair de casa, para encararmos o mundo, cada um à sua maneira. Mas somos todos iguais.
Às três e pouco começava a sessão com os doentes no salão nobre da Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré. Cheio que nem um ovo.
Como sempre que a ADCI faz uma sessão para os seus associados e população em geral. O espaço, nesse dia mais do que nunca, revelou-se exíguo. «Olhe, filha! Sente-se aqui no chão, à frente, e traga todos esses amigos que estão aí à porta. Não é por falta de lugar que se há-de ir embora!»
Quem haveria de dizer estas palavras senão a Maria Rosa, que, tal como na véspera, nem precisou que a apresentassem e, do pé para a mão (ou das mãos para os pés), começou a apresentar as suas figuras pedestres, projectadas na parede branca.
Tal como na sessão da noite anterior, o silêncio atento durante a exposição e o assalto em catadupa no seu final demonstraram o êxito deste encontro.
Que rica jornada!
Para além do pitoresco de bastidores deste memorável fim-de-semana, não posso finalizar esta crónica sem deixar uma palavra de agradecimento ao Laboratório Aventis, em especial na pessoa do Sr. Mário Oliveira, e aos delegados de informação médica da zona, que realizaram os convites médicos para o evento. Em nome da ADCI, o nosso sincero bem-haja!
Dr. António Marques Leal
Médico de Família do Centro de Saúde de Ílhavo