A obesidade é uma das grandes causas de morte em Portugal. Poucas são as preocupações relativamente a esta doença mas muitos são os cuidados que se deve ter, principalmente quando se trata de alguém com tendências hormonais para tal doença.
Além de restringir a pessoa de viver o seu dia-a-dia normalmente, esta doença, quando associada a outras, pode levar à falência.
O Dr. António Sérgio Bastos Silva, presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia da Obesidade (SPCO), responde às dúvidas da grande maioria da população portuguesa:
Quando se considera que uma pessoa é obesa?
Nós considerámos a obesidade através de uma fórmula, à qual nós chamamos índice de massa corporal que nos dá o grau de obesidade. Esta não serve para atletas de alta competitividade, nem para pessoas que apresentem certas doenças hepáticas. Para verificar o índice de massa corporal basta dividir o peso pela altura ao quadrado (Kgs/altura ao quadrado) e verificar em que escala se encontra. Este índice apresenta várias graduações:
IMC >18,5 <24,9 ----- Normal IMC >25 <29,9 --------Excesso de peso IMC >30 <34,9 ------- Obesidade moderada (Grau I) IMC >35 <39,9 ------- Obesidade grave (Grau II) IMC >40 ————— Obesidade mórbida (Grau III)
Esta formula não se aplica às crianças uma vez que estas ainda estão em crescimento e, por isso mesmo, ter-se-á em atenção o índice de crescimento e a idade da criança. Esta formula só por si não chega para avaliar o índice de massa corporal dessa criança e, portanto, esta fórmula só se aplica aos adultos.
Quais as dificuldades no dia-a-dia de um obeso?
São muitas as dificuldades que o obeso encontra no seu dia-a-dia, principalmente quando se trata de um obeso de grau II ou III. Essas dificuldades são a todo a nível: quer familiar, quer social ou até pessoal.
As dificuldades a nível pessoal passam pela incapacidade em fazer a sua higiene pessoal, coisa que faz parte do dia-a-dia de qualquer pessoa e que é perfeitamente normal, e pela incapacidade de olharem para o espelho para se verem, o que se torna muito constrangedor para esses. Estas são as necessidades básicas que um obeso, na maior parte dos casos, não consegue satisfazer.
Por outro lado, também devemos pensar que os obesos, se quiserem ir ao cinema, terão dificuldades em encontrar cadeiras à sua medida, há também situações em que as companhias aéreas os obriga a viajar em primeira classe ou então a comprarem dois lugares porque não cabem num só lugar.
É complicado ser-se obeso, principalmente em Portugal pois nenhum sítio está preparado para receber estes doentes. Já começam a haver locais que estão aptos para os deficientes físicos mas ainda não há a preocupação para com os obesos.
As próprias unidades de saúde não estão preparadas para os receber porque não têm cadeiras para eles se poderem sentar, ou portas por onde eles possam passar. Estes são exemplos mínimos, nos quais a maior parte das pessoas nunca pensou mas que fazem a diferença para estes doentes.
De facto, Portugal não tem infra-estruturas necessárias para acomodar os obesos.
E é também uma verdade que a sociedade portuguesa culpa o gordo por assim o ser mas não se dá conta de que o obeso também é doente e que não tem culpa de assim o ser e de que esta doença é bem séria e grave, tão grave que mata.
Porque a esta doença está associada um vasto número de doenças como a hipertensão, diabetes, problemas cardiovasculares, temores (no caso do homem no cólon, e na mulher na mama). E ainda se pode verificar o caso das mulheres, que têm incontinência urinária porque são obesas.
Há um vasto número de coisas que envolvem o dia-a-dia do obeso, desde afectações sociais, passando pelas psicológicas, até às alterações hormonais. Qualquer uma destas situações é desagradável para qualquer pessoa.
Aparentemente, quais as causas que levam à obesidade?
Não há causas aparentes que justifiquem o aparecimento da obesidade. A hereditariedade pode ser uma das causas que provoca esta doença porque os hábitos alimentares são um factor determinante no combate e na prevenção desta doença.
É complicado uma pessoa modificar os seus hábitos culturais e para isso há um treino que se adquire desde cedo e é importante que este seja continuado. Não é um processo simples, é complicado e que leva dois a três anos a concretizar-se.
Qual o primeiro passo para a resolução do problema da obesidade?
O primeiro passo para a resolução deste problema é evitá-lo. A obesidade é considerada uma doença, uma vez que esta tem a capacidade de gerar outras doenças que a esta estão associadas, e de levar à falência.
E, portanto, qualquer pessoa que apresente tendências para contrair esta doença deve, desde cedo, prevenir-se, sendo esta prevenção a nível primário, ou seja, evitar que a doença apareça modificando os hábitos alimentares e exercitando-se.
Esta é das poucas doenças graves que se pode prevenir, em que a prevenção é eficaz. Esta não tem efeitos imediatos, mas serão ressentidos uns anos depois, uma vez que há hábitos alimentares que já estão enraizados e, por isso, será mais difícil de atingir essa mudança.
A obesidade dá-se por uma alteração ou mau funcionamento entre os gastos e a ingestão e, portanto, o fundamental é fazer uma dieta equilibrada e fazer o máximo de exercício físico possível para gastar as calorias ingeridas.
Em que casos se recorre à intervenção cirúrgica e, em média, qual a percentagem de casos falhados?
Os tratamentos cirúrgicos são direccionados para casos de obesidade grave, ou seja, de grau II e III, porque até então o obeso vai tentar perder peso da maneira mais fisiológica que é alterando os hábitos alimentares, e aumentando o exercício físico.
Caso não se obtenha sucesso só com estes princípios básicos, dever-se-á juntar medicamentos apropriados para combater a obesidade.
Mas quando esta é muito grave, ou seja, em que já se colocam outros problemas que lhe estão associados, ou quando se trata de obesidade de grau III, é então nestes casos que se recorre à intervenção cirúrgica.
Qualquer um dos tipos de cirurgia tem bons resultados. É preciso ter em atenção que a cirurgia não cura a doença, mas antes constitui numa ferramenta que evita que a doença evolua e que, preferencialmente, regrida.
Para os casos de obesidade grave, é a melhor ferramenta que há. Obviamente que, como todos os tratamentos, o tratamento cirúrgico tem a possibilidade de falhar, mas são só 6 a 7% dos casos que falham, entendendo-se por falha quando não se atinge uma perda de 50% da gordura.
Há riscos nos tratamentos cirúrgicos? Quais são?
Não há nenhum tratamento em que não se corram riscos e portanto, o tratamento cirúrgico tem o seu risco. Quanto mais complexa for a cirurgia maior é o risco.
Há três tipos de cirurgias: restritivas, que é a incapacidade das pessoas ingerirem, e está confinada à Banda Gástrica. Esta cirurgia é a que mais se pratica porque tem menos complicações e melhores resultados do que as cirurgias restritivas que se usavam até então.
A segunda grande razão para que a banda gástrica seja o tipo de cirurgia mais usado é o facto de que a curva de emagrecimento se dê aos 2 anos e meio.
Há também as cirurgias mistas, isto é, que têm alguma restrição e que têm alguma má absorção. Dentro destas cirurgias há algumas que têm pior absorção do que outras.
O vulgar é o “Bypass Gástrico”, tem alguma má absorção de ferro, cálcio, vitaminas e proteínas que podem levar a problemas graves como a falência hepática, e tem uma perda de peso com média de 5 anos. Complicações do acto cirúrgico em si são, por exemplo, as infecções (na ordem dos 2%). Neste caso a solução é retirar a prótese e pôr uma nova.
As outras cirurgias têm problemas mais graves: sempre que se corta um órgão e se junta um a outro, pode levar a infecções internas que obriga a uma nova intervenção cirúrgica porque se assim não fosse poderia levar a falência.
Somos um país obeso?
Sem dúvida que somo um país obeso. A obesidade infantil está a crescer, e há cada vez mais adultos despreocupados com este aspecto e por isso a taxa de obesidade tanto adulta como infantil esta a crescer.
De tal maneira que quase 50% da nossa população tem excesso de peso. Há dez anos atrás o excesso de peso rondava os 20 ou 30% e até aos dias de hoje o excesso de peso tem vindo a duplicar.
Maioritariamente, que tipo de população é a mais obesa: crianças ou adultos, homens ou mulheres?
Há mais adultos que são obesos do que crianças. A situação incomodativa nas crianças é que elas são muito críticas umas com as outras. Quando se trata de crianças ou adolescentes é necessário ter mais cuidados, ter mais atenções, sobre o que se pode fazer, se será necessário fazer uma intervenção cirúrgica ou se o problema poderá ser resolvido com dieta, exercício e com medicação, e deve-se também ter em atenção o factor psicológico que é muito mais ressentido entre crianças e adolescentes.
Maioritariamente, são as mulheres (70 a 80%) que procuraram as cirurgias como resolução do problema da obesidade, também porque a taxa de prevalência de obesidade é maior no sexo feminino do que no masculino.
O factor psicológico é determinante, tanto na procura da cura da obesidade, como na cura propriamente dita?
Todos os factores são importantes, e o psicológico não pode ser esquecido, tanto antes de iniciar o tratamento como na resolução do problema. É necessário preparar a pessoa para a cirurgia, para as consequências que vai ter, para o que vai modificar na sua vida, tudo isto para que o pós-operatório seja bem sucedida.
É necessário a pessoa estar psicologicamente preparada para o que poderá comer, e como o poderá fazer (mastigar muito bem os alimentos e engolir devagar). O factor psicológico melhora bastante depois da operação porque a pessoa vê que há melhorias físicas visíveis e por isso fica bem consigo mesma, a auto-estima sobe, e sente-se autónoma e menos receosa.
As pessoas obesas ouvem palavras desagradáveis todos os dias e de forma depreciativa, não construtiva. É negativamente psicológico para uma pessoa ser depreciado a vida inteira. E muitas vezes é esse factor que contribui para a procura de tratamentos mas também porque o obeso deseja sentir-se bem com ele mesmo e até aumentar a sua qualidade de vida.
Depois da cirurgia, os obesos terão de fazer um pequeno regime alimentar e manter o exercício físico que o fisioterapeuta recomenda. A verdade é que o facto de a pessoa sentir e verificar que há resultados visíveis, logo à partida terá maior vontade de fazer esse regime e por iniciativa própria começa a exercitar-se mais.
É importante ter em mente que a ideia da cirurgia não é levar a pessoa a ficar esbelta, a sua função é fazer com o doente se sinta bem, ou seja, diminuir o índice de massa corporal e proporcionar à pessoa as necessidades básicas para viver o seu dia-a-dia.
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