Crónica de um ex-fumador: E depois do adeus
Lembro-me do primeiro cigarro, como se fosse hoje. Na bruma de uma manhã de Março, um banco do jardim do Liceu, vários companheiros em torno de mim, todo o ritual iniciático de quem decide começar a fumar como um homem – fumo bem travado, depois expelido pela boca e pelo nariz, com a segurança de um grande senhor…
Do alto dos meus quinze anos, em meia dúzia de segundos estatelei-me positivamente ao comprido naquele banco de ferro, a olhar os céus cobertos de branco, os suores frios, os tremores de uma Primavera num ápice tornada Inverno, as árvores – dois Plátanos – a andar à roda, eu a andar à roda, tudo a andar à roda num carrossel que nunca mais acaba, a não ser com o vómito e suas consequências biliares, que lá põem fim à vertiginosa odisseia… De repente, toca para a entrada, é aula de Português. A professora dá-se ares de guarda prisional, sempre implacável com quem se atreve a pisar o risco… Não posso faltar.
Mas esta dor de cabeça… acutilante…… insuportável…… que me pressiona como um medieval instrumento de tortura… Num pulo, entro na casa de banho, passo água pelos pulsos, molho a fronte e a nuca, e lá vou eu para o calvário de cinquenta e cinco minutos de aula que me hão-de parecer uma eternidade……
Este foi o primeiro dia do resto de uma vida de fumador que havia de durar trinta anos a fumar à grande… Entrei no jornalismo ainda menino, e o cigarro era assumidamente um adereço inseparável que – pensava eu……- me conferia uma aura de charme, de sabedoria e até de respeitabilidade acrescida. Pura ilusão minha, como é bom de ver. Os anos que seguiram foram de consolidação de um vício brutal, com consequências pessoais complicadas, sobretudo quando tive de me confrontar com duas ou três pneumonias… um par de gripes violentas… algumas esofagites… uma gastrite residente… e por aí fora.
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Apesar de tudo isto, continuava a olhar o cigarro como confortável muleta do quotidiano profissional e natural extensão de mim na vida social. Trinta anos depois, tomei uma decisão radical, bem ao meu estilo. Um ponto final parágrafo. Um adeus ao tabaco. Não estou minimamente arrependido.
As capacidades criativas não diminuíram por isso.
Quando fumador, puxava de um cigarro antes de partir para o texto; puxava de outro nos ‘entretantos’ da prosa; e ainda outro no final, para rever, podar e mondar a escrita. Hoje, escrevo sem rede, sem a tal muleta… e sinto-me bem. Muito bem. Sem catarro nem expectoração.
Tenho muita vontade de continuar assim, com paladares mais refinados. E sem necessidade de procurar argumentos – tantas vezes esfarrapados – para responder à minha filha, que durante muito tempo me questionou sobre os porquês de o pai insistir em fumar… Última nota para dizer o seguinte: o autor deste texto nasceu a 17 de Novembro, que num passado recente passou a ser o Dia do Não Fumador. A data, que durante muito tempo me foi indiferente, agora ganhou o estatuto de lembrete…… Porque, como diria (embora noutro sentido) o publicitário Washington Olivetto: O pneu do meu carro não vai furar duas vezes na mesma rua.

