A taxa de desemprego não desce. Fala-se diariamente em insolvência de várias empresas. O consumo de ansiolíticos e antidepressivos não pára de aumentar em Portugal. Saiba o que pode fazer para inverter a tendência de pessimismo que atravessa o país, motive-se e encare os obstáculos como desafios!
A crise começa por ser um conceito mental suscitado pela exposição aos mass media que acaba por produzir efeitos psicológicos, sociais e económicos.
Quer isto dizer que “por exemplo, algumas notícias divulgadas relativas à falência de bancos e ao encerramento de uma empresa acabam por gerar ansiedade e desconfiança face ao clima económico do país”, explica Fausto Amaro, sociólogo da saúde mental. “As pessoas são induzidas a deixarem de consumir e investir com implicações para a economia do país”, acrescenta.
Esta construção social da realidade origina pessimismo quer nos cargos directivos das empresas, quer nos seus colaboradores, independentemente da sua classe socioprofissional.
Soluções? Não se afigura como solução, mas pode ser uma ferramenta chave para vencer adversidades. Chama-se inteligência emocional.
Segundo o sociólogo “consiste na capacidade que o indivíduo deve ter para criar motivação, para identificar as suas emoções e as dos outros e saber geri-las de uma forma eficiente”.
Conhecer a inteligência emocional
A inteligência emocional compreende quatro quadrantes: o autoconhecimento, a autogestão, a compreensão das relações e a gestão das relações. Os dois primeiros centram-se no eu e os dois segundos nas interacções com os outros. “O quadrante de autoconhecimento está relacionado com a consciência e tem três competências fundamentais: o autoconhecimento emocional (capacidade de reconhecer as nossas emoções), a auto-avaliação e a autoconfiança”, define Micaela Ramos, psicóloga social clínica. Citando o psicólogo Goldman,especialista no tratamento do tema da inteligência emocional, explica que os indivíduos necessitam conhecer-se bem a si próprios para poderem desenvolver as outras competências.
A autogestão diz respeito às características que induzem os indivíduos à acção e divide-se em autocontrolo (adequada gestão das emoções negativas e dos impulsos); transparência (viver de acordo com os seus valores e crenças), a adaptabilidade, a orientação para resultados, a iniciativa e o optimismo. “Ser optimista é manter-se positivo face às adversidades”, define a especialista que encara osportugueses como pessimistas. É aqui que a Programação neurolinguística assume especial relevo, sendo um dos protótipos sugeridos aquele em que um copo está a metade e pode originar duas interpretações: “Que horror o copo está quase vazio ou que bom, eu tenhoeste sumo!”, explica. A especialista faz a ponte com o sucesso pessoal e profissional das pessoas referindo que “está provado que as pessoas mais optimistas são mais bem-sucedidas do que as mais pessimistas”. A crença e confiança na possibilidade de atingir metas e superar adversidades está na base do sucesso.
“Porque aquilo em que as pessoas acreditam mobiliza a sua acção, pois trata-se de um motor do seu comportamento”, acrescenta.
Os restantes quadrantes estão relacionados com a inteligência social, sendo a empatia um factor fundamental na interacção com os outros. “Nós temos um cérebro social que está programado para ler o que os outros estão a sentir e para reagir em função disso. E nós somos contagiados pelas emoções dos outros.
Se estivermos num país negativo, é fácil deixarmo-nos contagiar”, remata.
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Abraçar o optimismo nas empresas
Como se pode, então, vencer o clima de pessimismo económico? No universo empresarial, a estratégia deverá, em primeiro lugar, passar pela aposta na empatia entre direcção e colaboradorese pelo estímulo à cooperação, factores de sucesso de qualquer organização, refere Fausto Amaro. Os momentos críticos devem ser vividos com uma atitude de proactividade aliada a um sentimento de comunhão. Todos deverão ser convidados a participar com originalidade na sugestão de possíveis soluções para os problemas emergentes, no seu microcosmos laboral, num contexto de recessão.
Como se pode manter ou adquirir inteligência emocional numa situação de desemprego? Sem pretensões de estar a lançar “receitas mágicas”, o especialista em sociologia da saúde mental acredita que os indivíduos desempregados deverão igualmente reagir ao momento difícil que atravessam com discernimento e destreza emocional. Como podem encontrar a inteligência emocional? “Devem rejeitar atitudes conformistas, ser optimistas, ter iniciativas, procurar adaptar-se a novas funções, aproveitar os programas de requalificação profissional e, se surgir a oportunidade, não recear emprego noutra cidade ou até fora do país”, sugere Fausto Amaro.
Como criar crenças optimistas?
Afastar as crenças negativas e continuar a acreditar é o desafio lançado por Micaela Ramos, psicóloga social clínica e directora-geral da GO FOR, para quem o treino destas competências é fundamental. “Se vier um pensamento negativo, devo pensar em observar um lado positivo. Se não posso jantar fora hoje, porque não experimento em casa aquela receita nova que nunca experimentei? Há tanto tempo que tenho aquele DVD para ver e hoje é um bom dia. Olha, é uma forma de ir visitar os meus pais ou avós e não sair para fora no fim-de-semana”.
As ideias pessimistas podem ser contrariadas através do seguimento de uma terapia em grupo (psicodrama) e de técnicas de sociodrama. “O psicodrama é a psicoterapia individual em grupo na qual é escolhido um tema que interessa a todos os seus membros.
Estimular as pessoas para a acção e para a coesão é o principal objectivo do aquecimento, um dos momentos do psicodrama. “Fazemos jogos e dinâmicas de grupo nos quais as pessoas tenham que usar o corpo e a voz”, explica Micaela Ramos.
Na dramatização – segundo momento do psicodrama- os membros do grupo trazem problemas concretos que estão a ter no âmbito de uma relação e alguém do grupo representa papéis complementares e o egoauxiliar. No psicodrama há sempre dois terapeutas, o que conduz a sessão e aquele que é o ego auxiliar.
No âmbito do “roleplaying”, assume especial relevância a troca de papéis, como por exemplo, o indivíduo que colocar questões sobre problemas de interacção com o chefe, deve desempenhar também este papel.
A compreensão das limitações de dinâmica de grupo nas organizações é favorecida através de uma abordagem de psicologia positiva. Até porque, mais do que analisar os factores negativos relacionais no seios das empresas, com um enfoque nas patologias, interessa estudar aquilo que é saudável e funciona. “Vamos debruçarmo-nos sobre as equipas que funcionam”, explica.
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Educação financeira e percepções face à crise
O tipo de relacionamento com o dinheiro reflecte, em certa medida, a postura das pessoas perante a vida. Segundo Micaela Ramos “a forma como nos relacionamos com o dinheiro mostra muito aquilo que somos e o que valorizamos”.
Daí que seja importante trabalhar as percepções e atitudes face aos bens monetários, principalmente, no contexto actual. Dá o exemplo de uma pessoa com uma situação financeira acima da média, que antigamente não comparava os preços dos produtos no supermercado, mas que passou a fazê-lo, para gerir melhor o seu orçamento. Mas recomenda e alarga esta mudança de percepções e atitudes a todas as pessoas, independentemente da sua classe social.
“Devemos ter atitudes de antecipação e perceber o que valorizamos efectivamente. Se valorizo mais a realização de viagens, será que faz sentido investir muito dinheiro numa casa enorme e sofisticada? Para quê endividarmo-nos?”, questiona a especialista. É este tipo de reflexão que interessa ter em tempo de crise, para definir a sua melhor estratégia de combate. Outro exemplo:
“Sempre comprei produtos caríssimos numa certa loja, e nunca fui à procura em outras que me oferecem os mesmos serviços. Porque não procurá-las?”.
No que diz respeito à educação financeira nas empresas, a psicóloga social clínica reconhece que a solução mais fácil é, frequentemente, o despedimento, “em vez de se apostar no colaborador, estando junto de si para tentar entender as suas dificuldades, postura que implica um maior esforço do gestor”.
Treino comportamental
Considera-se que qualquer mudança comportamental requer uma persistência de, pelo menos, três meses na prática de um novo comportamento.
“É indispensável, pensar de uma forma positiva e persistir naquele comportamento diariamente”, frisa Micaela Ramos. Como fomentar a persistência? Segundo a especialista, a chave da persuasão, é ajudar a pessoa a reflectir sobre as mais valias da adopção e manutenção de um dado comportamento.
“Uma pessoa só muda o seu comportamento se vir mais vantagens em mudar do que em não o fazer”.
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