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A nova Rede de Cuidados Continuados vem dar respostas de saúde e de apoio social a idosos e dependentes

“A Rede visa prestar serviços de saúde de qualidade e ajustados às pessoas idosas e a cidadãos em situação de dependência, de perda de autonomia. Na realidade, os serviços de saúde, tal como estão desenhados e a funcionar actualmente, não respondem eficazmente a este tipo de situações”.

As palavras são da Secretária de Estado Adjunta e da Saúde, Carmen Pignatelli, em entrevista exclusiva ao Jornal do Centro de Saúde.

Durante a conversa, transpareceu uma elevada sensibilidade, espírito de missão e um profundo empenhamento na procura de soluções orientadas para as pessoas – que estão no centro das suas preocupações. “As pessoas que estão doentes precisam de apoio e, muitas delas, vivem sós.

É necessário apoiá-las e auxiliar também os seus familiares. As famílias que têm ao seu cuidado um idoso, ou um doente dependente, sobretudo nas grandes cidades, precisam de se sentir apoiadas. Nas cidades, não há disponibilidade, as pessoas têm de trabalhar e sentem-se abandonadas”, diz Carmen Pignatelli.

Os objectivos da Rede de Cuidados Continuados de Saúde e Apoio Social passam pela criação de um inovador gradiente de cuidados que vai desde a alta do hospital até ao domicílio do doente, garantindo a continuidade do seu tratamento, recuperação funcional e reinserção em unidades de internamento alternativas ao hospital, e em casa, através da criação de equipas de cuidados domiciliários nos Centros de Saúde, em articulação com as equipas de segurança social.

A Rede agora delineada – cujo diploma foi aprovado em Conselho de Ministros a 16 de Março – prevê “cruzar todo o sistema público de saúde, sendo articulado com o sector social como parceiro de excelência”.

A futura Rede de Cuidados Continuados Integrados só ficará concluída em 2015, altura em que terá custado cerca de 300 milhões de euros, a preços actuais, financiados essencialmente por receitas dos jogos sociais. Dentro de três anos já estarão cobertas “30% das necessidades”.

Em que é que consiste a Rede de Cuidados Continuados de Saúde e de Apoio Social?

O objectivo é criar uma rede que vise prestar serviços de qualidade e ajustados às pessoas idosas e a outras pessoas que estão numa situação de dependência, ou seja, de perda de autonomia, como por exemplo o de um jovem esquizofrénico, com dezanove anos, ou uma pessoa jovem que ficou tetraplégica na sequência de um acidente de viação. A conclusão a que chegámos é a de que, os serviços de saúde, tal como estão desenhados e a funcionar, não respondem eficazmente a este tipo de situações.

No quadro actual do SNS, existem apenas duas grandes vertentes – cuidados agudos nos hospitais e cuidados primários nos centros de saúde. Com a população a envelhecer, com as doenças a atingirem cada vez mais as pessoas, independentemente da idade, são necessárias soluções para um novo perfil de pacientes.

Os hospitais têm um perfil para situações agudas e não estão preparados para acolher pessoas na fase de convalescença, por exemplo. O diagnóstico que fizemos, e que ficou concluído em Agosto passado, indica também que o apoio domiciliário a partir dos Centros de Saúde, com a equipa completa (médico e enfermeiro), só é realizado por cerca de 4,5% dos Centros de Saúde.

Se quisermos ser mais flexíveis, e considerar que o apoio domiciliário é suficiente só com a presença do enfermeiro, então aí já conseguimos atingir percentagens na ordem dos 40%. Não quero culpabilizar as equipas que estão nos Centros de Saúde. Tem sido difícil aos seus médicos e restantes profissionais da saúde organizar esse apoio domiciliário. Portanto, o Governo quer ajustar os serviços de saúde a outras necessidades que não existiam há uns anos quando a população portuguesa era mais jovem.

A Rede de Cuidados Continuados de Saúde visa:

» Promover a autonomia;

» Promover a reabilitação;

» Readaptação;

» Reintegração das Pessoas Idosas e Cidadãos em Situação de Dependência;

» Reforçar a participação e co-responsabilização dos seus familiares no processo de cuidados do doente.

A quem se destina:

» Pessoas idosas com dependência funcional;

» Pessoas com doenças crónicas evolutivas e dependência funcional grave por doença física ou psíquica, progressiva ou permanente;

» Pessoas em fase terminal, por doença;

» Pessoas que sofrem de demência;

» Pessoas em situação transitória de dependência.

A Rede criará serviços comunitários de proximidade que articulam:

» Hospitais;

» Centros de Saúde;

» Serviços distritais e locais de Segurança Social;

» Rede Solidária;

» Privados;

» Autarquias Locais,

… numa acção conjunta no âmbito dos planos de acção do Ministério da Saúde e do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social

Na prática, como vai funcionar? Pode dar-nos exemplos de benefícios concretos para as pessoas?

As pessoas podem ser referenciadas ou encaminhadas para esse tipo de serviços, em sentido lato (unidade de internamento, ou apoio domiciliário), a partir do hospital onde estão internadas, ou a partir do seu médico de família. No hospital, passará a existir a chamada “equipa de gestão de altas” que será composta por um enfermeiro, um médico e um assistente social. Pretende-se que, 24 ou 48 horas antes de se prever que o doente irá ter alta do hospital, se proceda ao conhecimento do seu caso clínico. Tem de se saber se o doente pode regressar a casa, por questões de saúde e também por questões de carácter social.

Uma pessoa pode não necessitar de mais nada em termos médicos e de saúde, mas imagine-se que não tem ninguém à espera dele… E se é um idoso com 85 anos? Neste caso, a equipa de gestão de altas onde está a tal técnica do serviço social tem de contactar com a rede de apoio social da região para encontrar, por exemplo, uma equipa de apoio domiciliário que vá a casa da pessoa.

“A ideia é criar uma rede que vise prestar serviços de qualidade e ajustados às pessoas idosas e a outras pessoas que estão numa situação de dependência”.

E se o doente necessitar de um período de convalescença? Pode dar-nos exemplos práticos?

A rede de cuidados continuados vem na sequência de um episódio agudo. Tome, como exemplo, um jovem que sofreu um acidente de viação, e que está em situação de alta, mas a família não tem condições para o acolher. A ideia é responder a estas situações concretas. Ou é o médico de família que faz o diagnóstico da situação clínica, social e de integração familiar daquela pessoa, ou é a equipa de gestão de altas. Se a equipa de gestão de altas indica que determinado doente ainda precisa de 30 dias de convalescença, este tem de ser inserido nas unidades de convalescença. Estas unidades são para internamentos até 30 dias. Outro exemplo: uma pessoa partiu uma perna e ainda precisa de mais algum exercício. É então inserida nas unidades de convalescença. Os hospitais de agudos já existentes vão organizar uma unidade de convalescença composta por 20, 30 camas.

Há hospitais que não têm condições para terem unidades de convalescença dentro do seu espaço. Então, os respectivos Conselhos de Administração têm de encontrar, em conjunto com a Administração Regional de Saúde, uma resposta fora do hospital (sector privado e social). As camas de convalescença são pagas a 100% pela saúde.

Teremos ainda as unidades de internamento permanente que se destinam a pessoas que se sabe a priori que dificilmente sairão dessa unidade, como por exemplo, um tetraplégico, um doente crónico, um doente de Alzheimer, entre outros. No meio, temos dois outros tipos de unidades que são as de estadia média e de reabilitação até 90 dias. Aqui, as respostas são mistas, pois têm uma componente de saúde e outra ao nível social.

Prestação de serviços na Rede

1. Unidades de Internamento, incluem unidades de convalescença, unidades de média duração e reabilitação, unidades de longa duração e manutenção e as unidades de cuidados paliativos (CP);

2. Unidades de Ambulatório, nos hospitais de dia / unidades de promoção de autonomia e centros de dia;

3. Equipas Hospitalares que integram os grupos que farão a gestão de altas e as equipas intra-hospitalares de suporte em cuidados paliativos;

4. Equipas Domiciliárias constituem-se em duas modalidades: os grupos que prestam cuidados continuados integrados de saúde e apoio social e as equipas comunitárias de suporte em cuidados paliativos (alimentação, tratamento, reabilitação, cuidados de higiene e apoio da família);

5. Equipas de Gestão de Altas, que identificam e preparam as respostas às necessidades do doente antes de sair do hospital.

A Rede quando arranca? E dentro de quanto tempo ficará pronta?

Essa pergunta é-me colocada constantemente, mas não existe um dia mágico. Já foi aprovado o diploma que enquadra o que existe e o que vai surgir. Com base nos recursos existentes e a partir daquilo que o sector social já tem, vamos criando esta Rede. Mas temos consciência que é uma grande reforma, é estruturante e leva o seu tempo. Prevemos que esteja concluída dentro de dez anos.

Como sintetizaria a principal vantagem da Rede?

O benefício último é o de ir ao encontro das necessidades das populações. Estamos a ajustar serviços que foram concebidos há 30 anos a uma nova realidade que existe. As pessoas estão doentes, precisam de apoio e muitas delas, vivem sós. É necessário apoiá-las e auxiliar também os seus familiares. As famílias que têm ao seu cuidado, um idoso ou um doente dependente, sobretudo nas grandes cidades, precisam de se sentir apoiadas. Nas grandes cidades, não há disponibilidade, as pessoas têm de trabalhar e sentem-se abandonadas.

Já são conhecidos os valores que irão ser gastos na implementação desta Rede?

Prevemos que iremos investir cerca de 300 milhões de euros, nos próximos dez anos.

Que mensagem gostaria de deixar aos leitores do Jornal do Centro de Saúde?

Sabemos que as pessoas que precisam dos serviços de saúde estão muito impacientes, porque precisam de cuidados de saúde hoje, e não daqui a dois ou três anos. No entanto, na saúde, as mudanças que temos de fazer não acontecem por magia. Algumas delas, exigem tempo. Gostaria muito que as pessoas confiassem na equipa da saúde, porque é uma equipa que conhece o sector, sabe o que há para fazer, e está a fazê-lo com pessoas muito competentes. Temos os melhores especialistas a trabalhar em cada área. Embora compreenda a impaciência das pessoas, gostaria que elas percebessem que o que aconteceu nos últimos 30 anos no nosso País, depois do 25 de Abril, foi um salto imenso e que alguns países demoraram 100 anos a atingir esses níveis. Acreditem e confiem que as coisas vão mudar!

Razões

Porque foi criada a Rede?

1. Impacto do envelhecimento da população
A percentagem de idosos na população portuguesa duplicará entre 2004 e 2050. Em 2001, 16 % da população tinha 65 anos ou mais. Em 2025 serão 22%. E em 2050 serão 32 %

2. Mudança do perfil de patologias;

3. Situações de dependência e de fragilidade com alta necessidade de apoio social e familiar;

4. Mudança do perfil das famílias.
Uma em cada quatro pessoas com 75, ou mais anos, vive só
Uma em cada cinco pessoas com 65, ou mais anos, vive só

No quadro actual do SNS, existem apenas duas grandes vertentes – cuidados agudos nos hospitais e cuidados primários nos centros de saúde. Com a população a envelhecer, com as doenças a atingirem cada vez mais as pessoas, independentemente da idade, é necessário considerar um novo perfil de pacientes.

Para além de assegurar o acolhimento dos utentes a médio e longo prazo, a Rede prevê também a deslocação de equipas ao domicílio dos doentes para prestar os apoios necessários.

Alguns dos serviços prestados vão ser gratuitos, enquanto outros vão sair dos bolsos dos utentes, tendo sempre em conta os seus rendimentos.

Objectivos da REDE

1. Prestação de cuidados continuados de saúde e ou de apoio social;

2. Manutenção das pessoas (com perda de funcionalidade ou em risco de a perder) no domicílio, sempre que o apoio domiciliário possa garantir os cuidados terapêuticos e o apoio social necessários à provisão e manutenção de conforto e qualidade de vida;

3. Apoio, acompanhamento e internamento tecnicamente adequados à situação do doente;

4. Melhoria contínua da qualidade na prestação de cuidados continuados de saúde e de apoio social;

5. Apoio aos familiares ou prestadores informais, na respectiva qualificação e na prestação dos cuidados;

6. Articulação e coordenação em rede dos cuidados em diferentes serviços, sectores e níveis de diferenciação;

7. Prevenção de lacunas em serviços e equipamentos, pela progressiva cobertura a nível nacional, das necessidades das pessoas em situação de dependência, em matéria de cuidados continuados integrados e de cuidados paliativos.

De onde vem o dinheiro?

Os custos da Rede serão suportados por:

» Serviço Nacional de Saúde;

» Segurança Social;

» Utentes/Famílias;

» Instituições Particulares de Solidariedade Social.

Parte das verbas do Estado provêm do Euromilhões e dos outros jogos sociais.

“As famílias que têm ao seu cuidado, um idoso ou um doente dependente, sobretudo nas grandes cidades, precisam de se sentir apoiadas”.

“Recentemente recebi um pedido de uma pessoa, que não conheço, cujo caso concreto era o seguinte: um rapaz esquizofrénico, de dezanove anos, vive em casa com a mãe, idosa, que tem um tumor maligno. Esta senhora precisa de ser operada, mas, para o ser, coloca-se a questão: quem é que fica a tratar do rapaz tetraplégico? A Rede procura dar soluções também para este tipo de casos”.

Jornal do Centro de Saúde

www.cscarnaxide.min-saude.pt/jornal/

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