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A ameaça invisível das infecções hospitalares

Ninguém consegue vê-las ou tocar-lhes. Porém, as infecções hospitalares são a maior ameaça dos hospitais e as crianças as suas vítimas mais vulneráveis.

Há alguns meses fomos confrontados com as notícias da morte de várias crianças no Hospital Senhora da Oliveira, em Guimarães. Segundo os relatórios médicos, a causa de morte ficou a dever-se a uma infecção provocada por um adenovírus. Apesar das suspeitas, o relatório do Ministério da Saúde conclui que não ficou provado ter-se tratado de uma infecção hospitalar.

«É impossível controlar o ambiente num hospital», afirma a Dr.ª Rosa Barros, coordenadora da Comissão de Controlo Hospitalar e Antimicrobianos (CCIHA) e directora do Serviço de Patologia Clínica do Hospital de D. Estefânia. Há 30 anos ao serviço das crianças, a especialista explica que «todo o ambiente hospitalar potencia a infecção, uma vez que a ecologia nestes espaços é cada vez mais agressiva».

O uso indiscriminado de antibióticos em Medicina, na Veterinária e na Agricultura ajudam a perceber o aumento da resistência aos antibióticos, já que estes «permitem que as bactérias sejam seleccionadas, multiplicando-se apenas as mais resistentes», adianta.

A automedicação é outro problema com que os clínicos se deparam diariamente, pois, «nem sempre é possível fazer um diagnóstico rápido e eficaz dado que, por vezes, as crianças já estão sob o efeito de antibióticos que inibem o crescimento da bactéria, mas não a eliminam», avisa a responsável.

A imensurável quantidade de vírus e bactérias que coexistem naturalmente no ambiente hospitalar com os doentes, técnicos de Saúde e visitantes aumentam o risco de infecção. Assim, numa tentativa incessante para se manterem vivos, acabam por encontrar nos doentes e/ou acamados os alvos privilegiados para as infecções. Por sua vez, a fragilidade do sistema imunitário das crianças torna-as também muito susceptíveis às infecções.

Perigo das urgências

É do senso comum que todo o cuidado é pouco quando se fala de crianças. Se em todas as idades essa atenção deve ser permanente, de forma a impedir que o estado clínico se complique, esses cuidados devem ser reforçados até aos 2 anos, pois estão mais susceptíveis de complicações graves.

Em Pediatria, a maioria das infecções são virais, de origem respiratória e gastrintestinal. Em relação às respiratórias, a infecção tem, frequentemente, origem no vírus Influenza e no vírus Parainfluenza, sendo estes responsáveis pela conhecida síndrome gripal.

Dentro desta tipologia, também podemos incluir os adenovírus, podendo estes, tal como os rotavírus, provocar gastrenterites agudas que conduzem a diarreias, vómitos e febres altas.

O elevado grau de risco dos vírus está directamente associado à forma como são transmitidos, já que o ar, através das gotículas da tosse e dos espirros, é o meio de disseminação por excelência.

«Nas salas de espera dos serviços de Urgência as crianças estão em contacto umas com as outras. Mesmo havendo uma triagem dos doentes, é fácil haver contágio», alerta.

Por esse motivo, Rosa Barros aconselha os pais a contactarem o pediatra ou as linhas de apoio, de forma a não exporem os filhos a outros agentes infecciosos, uma vez que «o estado clínico pode agravar-se pelo simples facto de estarem na mesma sala com outros doentes».

A merecer também uma atenção especial por parte das autoridades sanitárias, a coordenadora da CCIHA alerta para a mesma vulnerabilidade das creches e infantários como potenciadores de surtos de infecção.

«Muitas vezes os pais levam os filhos doentes para a creche. Ao ficarem junto dos colegas é muito provável que estes também fiquem doentes», diz.

Desta forma, não é de estranhar que nas urgências seja comum as crianças apresentarem tosses, febres altas ou diarreias, o que significa que «podem ter estado submetidas a um mesmo tipo de vírus».

Infecções bacterianas O ambiente hospitalar condiciona a flora de todos os técnicos de Saúde, aumentando a ameaça de infecção hospital, não só para eles como também para os doentes.

Neste quadro de risco é importante não esquecer o papel desempenhado pelas bactérias. Analisando a incidência das infecção bacterianas, Rosa Barros aponta as causas endógenas (infecções desencadeadas por bactérias que existem dentro de cada um), como as principais responsáveis pelo agravamento do estado clínico da criança.

Um desses momentos de risco verifica-se na altura do parto. Assim, ao nascer sem imunidade, um recém-nascido pode ser contaminado por uma bactéria que existe na vagina da mãe, Streptococus do grupo B, podendo vir a sofrer uma infecção. Com os avanços da tecnologia já é possível fazer um diagnóstico precoce e, caso necessário, ministrar, antes do parto, um antibiótico para impedir a contaminação.

Infelizmente, nem sempre é possível actuar de forma preventiva. Nesses casos só um diagnóstico microbiológico consegue identificar a estirpe. «Por vezes, é difícil que uma bactéria se desenvolva in vitro e, quanto mais patogénica for mais complicado é identificá-la».

Isto é uma realidade muito comum quando falamos de crianças internadas, dado que são submetidas a diferentes terapêuticas, mas também grave no caso de os pais optarem por automedicar os filhos.

Para além destas condicionantes internas, existem ainda as causas exteriores, quase sempre associada às condições dos edifícios, dos equipamentos e à falta de cuidado do pessoal hospitalar.

Despertar consciências

A debilidade do estado de saúde dos doentes internados e dos que se encontram nos Cuidados Intensivos não ajuda a evitar as infecções. «O facto de as crianças estarem a ser ventiladas ou alimentadas por via artificial origina uma porta de entrada que facilita a contaminação por bactéria do meio ambiente», explica a especialista.

Por outro lado, qualquer dispositivo ou equipamento médico (equipamentos de aerossol, ventiladores, etc.) pode ser a fonte de contaminação e/ou infecção do doente que os utiliza a seguir.

«É essencial que se cumpram as normas de manutenção e higienização dos equipamentos para diminuir o risco da transmissão de microrganismos de um doente para outro», avisa Rosa Barros.

No Hospital de D. Estefânia, a vigilância epidemiológica da infecção hospitalar é feita através da apreciação dos inquéritos de incidência e de prevalência da infecção hospitalar e do envio de produtos positivos para o laboratório, a fim de serem executados exames microbiológicos.

Com base nesses dados é possível saber que, nos últimos anos, tem vindo a verificar-se uma diminuição das infecções hospitalares, com um declínio da infecção por Staphylococcus aureus meticilinarresistente, cuja percentagem de resistência à meticilina diminuiu de 47%, em 1992, para 12%, em 2003. Também as infecções por Serratia marcescens, por Klesbsiella e por Enterobacter spp diminuíram nos últimos anos.

Em contraponto, as infecções por Streptococcus pneumoniae ou Pneumoco resistentes à penicilina têm registado um aumento, passando de 0% de resistências, em 1990, para 32%, em 2002.

«Não há dúvida que as infecções mais frequentes nas crianças são as respiratórias, sendo a bactéria Pneumoco a principal responsável por estas infecções. O uso de antibióticos acaba por aumentar a sua resistência, especialmente na população pediátrica, aumentando assim a sua incidência», analisa Rosa Barros.

Numa tentativa de despertar as consciências dos técnicos de Saúde e dos pais, a Comissão de Controlo Hospitalar e Antimicrobianos não tem poupado esforços para tornar corrente o cumprimento das regras básicas de segurança.

«É preciso que as pessoas percebam que, quando falamos em crianças, os cuidados devem ser redobrados», reitera a directora do Serviço e Patologia.

Nesta lógica de actuação, o simples lavar as mãos, entre doentes ou, no caso dos pais, o limitar-se a mexer na chupeta e nas coisas do seu filho, são pequenos detalhes que ajudam a minimizar as hipóteses de infecção hospitalar.

Dói-Dói-Trim-Trim

Antes de levar o seu filho à Urgência de uma qualquer unidade de Saúde, saiba que pode tirar as suas dúvidas, sem sair de casa, e ao custo de uma chamada local. Com um atendimento pediátrico a crianças dos 0 aos 14 anos, a linha Saúde 24 (808 242 400) vai ajudá-lo a perceber se a situação é realmente grave e quais as medidas a tomar para minimizar o problema.

E não se esqueça, para a segurança do seu filho, urgências só em casos mesmo graves.

ENTREVISTA À Dr.ª Elaine Pina

O combate às infecções no interior dos hospitais é multidisciplinar Os problemas da infecção hospitalar não são de agora. Existem desde sempre. A Dr.ª Elaine Pina, coordenadora do Programa Nacional de Controlo de Infecção Hospitalar, dá-nos conta dos três anos de trabalho que está a ser feito nas unidades hospitalares, bem como as dificuldades com que se depara diariamente.

Medicina & Saúde® – Por que motivo foi criado o Programa Nacional de Controlo de Infecção Hospitalar (PNCI)?

Dr.ª Elaine Pina – O PNCI foi criado, em 1999, por despacho do director-geral de Saúde (DGS), com o objectivo de desenvolver uma rede de registo de infecção, definir critérios e indicadores de qualidade de desempenho, definir orientações de boas práticas e promover a formação e informação dos profissionais. Tudo isto para garantir a prevenção e controlo de infecção hospitalar em todas as instituições de Saúde.

M&S® – Mas antes já existia outra equipa multidisciplinar a trabalhar a temática das infecções hospitalares…

EP – Exacto. Desde 1988 funcionou no SIGSS (Sistemas de Informação para Gestão de Serviços de Saúde) o Projecto Controlo de Infecção, que desenvolveu trabalhos nesta área com alguns hospitais piloto. Mas houve, também, actividades generalizadas a todos os hospitais interessados e foi no âmbito deste projecto que se obtiveram os únicos dados existentes sobre a prevalência e incidência de infecções hospitalares no País.

Em 1996, foi publicado o despacho da DGS que define a estrutura e as funções das Comissões de Controlo de Infecção (CCI). Porém, poucos foram os hospitais que desenvolveram um programa global. O facto de as CCI serem consideradas órgãos consultivos da gestão leva a que, sempre que muda o Conselho de Administração, se substituam os coordenadores, dificultando a continuidade da acção. Por outro lado, a escassez de recursos humanos torna difícil cumprir as regras básicas, não por falta de conhecimento, mas por falta de disponibilidade e meios.

M&S® – Como decorreu essa transferência de competências?

EP – Desde o ano de 2000 que o Programa está sediado no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA). Para gerir o PNCI foi nomeado um grupo coordenador multidisciplinar que trabalha as três principais vertentes da actividade de prevenção e controlo: a vigilância epidemiológica, o desenvolvimento de recomendações e a formação, dando continuidade às actividades já iniciadas no projecto.

M&S® – Que acções que têm sido levadas a cabo?

EP – Toda a participação no PNCI é voluntária. Está a ser desenvolvida uma rede de registo de infecção nas unidades de Cuidados Intensivos (adultos e recém–nascidos) dos doentes cirúrgicos e ainda das bacteriemias, com o objectivo de definir padrões e identificar problemas. Estão também a decorrer acções de formação sobre a gestão de programas de controlo de infecção, envolvendo já cerca de 35 hospitais.

Finalmente, estão em fase final de desenvolvimento algumas recomendações de boas práticas. Em 2001 fizemos um inquérito aos hospitais e sub-regiões para avaliar o cumprimento do despacho da DGS, de 23 de Outubro de 1996, que define o âmbito das actividades e funções das CCI.

M&S® – E quais foram as conclusões?

EP – Pelos resultados pode-se concluir que, embora existam as CCI, elas têm poucas condições para desenvolver um trabalho eficaz. As principais deficiências que se observam é a falta de recursos humanos, falta de apoio da Gestão, para além da falta de reconhecimento pelos pares.

M&S® – Na sua opinião, a que se deve tal situação?

EP – Penso que a nível da tutela, é desconhecido o âmbito da actividade que desenvolvemos. A principal dificuldade é que este não é um tema prioritário na agenda do Ministério da Saúde. Não temos orçamento próprio, trabalhamos voluntariamente e muito do que fazemos sai dos nossos tempos livres e tempo roubado ao hospital onde trabalhamos.

Somos solicitados pelos hospitais para esclarecimentos, apoio técnico para resolução de problemas. Por outro lado, fazemos parte da rede europeia de vigilância das infecções nosocomiais e temos o compromisso de lhes fornecer dados para a base de dados europeia. Seria importante que se criasse um núcleo de profissionais que pudessem dedicar-se ao PNCI a tempo inteiro.

M&S® – Apesar desse sentimento de abandono, que balanço faz destes três anos?

EP – O balanço que faço dos 15 anos de actividades a nível nacional e dos três anos do PNCI é de uma grande frustração. Pela falta de reconhecimento por parte da tutela e pela falta de recursos mínimos para desenvolver um programa eficaz. Contudo, porque reconhecemos a necessidade das CCI dos hospitais, sentimo-nos na obrigação de lhes dar uma resposta.

M&S® – Mesmo assim, têm planos de futuro?

EP – Temos conseguido recrutar bastantes hospitais para participar na rede de vigilância e julgo que quando se começarem a ver os resultados a adesão poderá aumentar. Os nosso projectos de futuro dependem do futuro do INSA e da DGS com a nova política de saúde que se perspectiva. O tema do controlo da infecção continua a ser actual, como demonstram a situação recente de surto por adenovírus num hospital do Norte e a transmissão hospitalar da síndroma respiratória aguda.

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