A ansiedade é uma sensação normal e tem um papel muito importante na nossa vida. Surge em inúmeras situações ou circunstâncias do nosso dia a dia.
Aparece quando nos preocupamos com a segurança dos nossos filhos e redobramos logo a atenção, quando pensamos na nossa própria segurança e evitamos expor-nos a situações de risco, quando temos medo de algo e fugimos logo perante essa situação perigosa (por exemplo um fogo, ou com um ladrão que nos vai assaltar, etc.), enfim, a ansiedade, que aparece logo a seguir a situações perfeitamente identificáveis, ajuda-nos a lidar com elas, e acaba por desaparecer logo a seguir.
Estando presente em todos os seres humanos é, também, perante diferentes circunstâncias da vida, que ela pode manifestar-se de diferentes maneiras. Desde a simples inquietação, até a uma angústia, ou mesmo pelo terror. E às vezes, acaba por se manifestar duma forma anormal, transformando-se numa doença a tempo inteiro.
Fobias, ataques de pânico, obsessões compulsivas são alguns exemplos disso: aprenda a reconhecer as diferentes formas de ansiedade patológica.
Quando é que a Ansiedade se torna patológica?
:: Em algumas pessoas, a ansiedade acaba por se manifestar duma forma anormal, e com regularidade: ou é um estado de ansiedade permanente, sem razão nenhuma aparente, que está instalada, ou porque a intensidade e o tipo de respostas face à situação vivenciada estão bastante desadequadas.
:: Ansiedade, do latim angere, significa oprimir, fechar a boca. Torna-se sintoma psicopatológico quando paralisa a actividade normal ou o quotidiano duma pessoa, ou quando tende para o seu aniquilamento. Estamos, portanto, perante quadros de ansiedades patológicas.
As causas são várias
:: A ansiedade é um produto do estado de desamparo psíquico vivido, reproduzido no decurso do desenvolvimento, e experienciado várias vezes, ao longo da vida. Pode, entretanto, transformar-se e evoluir para quadros de ansiedade patológica, sendo as causas as mais diversas, geralmente encobertas por aspectos associados a outras perturbações mentais. A ansiedade distingue-se em 5 grandes quadros principais:
– ansiedade generalizada
– fobias
– perturbação obsessivo-compulsiva
– ataques de pânico
– stress pós-traumático
:: Estes quadros são bastantes frequentes e estima-se que cerca de 3 a 5% da população já se tenha sentido em pelo menos um dos quadros, acima referidos.
A ansiedade faz parte das emoções básicas do ser humano e é parte integrante da sua própria condição. Por definição, a ansiedade é um estado afectivo dominado pelo sentimento de um perigo eminente, onde uma pessoa se encontra em posição de expectativa, geralmente convicto da sua impotência em se conseguir defender, não sabendo da intensidade do acontecimento que está para aparecer nem de quando irá acontecer.
:: É uma emoção acompanhada de vários sintomas físicos: aceleração respiratória, alteração do batimento cardíaco, xixis frequentes, diarreia, desfalecimento de pernas, palidez, contracção ou relaxamento do músculo facial, sudação, etc.
:: O carácter previsível e a capacidade de controlar a ansiedade diminuem o poder ansiogénico dos fenómenos. Estes diferentes mecanismos de protecção, formam-se no decorrer do desenvolvimento, sendo a atitude do ambiente determinante na sua aprendizagem.
Fobias, Perturbação Obsessivo-Compulsivo, Ataques de pânico…
Síndrome de Ansiedade Generalizada
:: A Ansiedade Generalizada manifesta-se por um estado de tensão, duma inquietude permanente, sem que algum acontecimento exterior o possa explicar. São pessoas que estão permanentemente em sobressalto e sofrem com isso. O sintoma-chave é uma ansiedade ou um medo não realista, e excessivo, face a acontecimentos futuros.
As queixas somáticas são: dores de estômago, dores de cabeça (cefaleias), diarreia, suores e transpiração excessiva, vertigens…. Esta psicopatologia torna-se um handicap porque torna a vida complicada e difícil de ser vivida, nomeadamente no quotidiano, no trabalho e nas relações pessoais.
:: Estima-se que a sua prevalência seja de 3 a 7%, com uma incidência mais elevada nos filhos mais velhos e nos filhos únicos.
:: São pessoas muito conscienciosas e que têm necessidade de serem tranquilizadas permanentemente.
As Fobias
:: Nestes casos, a ansiedade não é generalizada nem é permanente, mas “cristaliza-se”/manifesta-se em situações particulares que a fazem ocorrer.
Fobia, do Grego phobos, significa medo, horror. E as pessoas aqui não sentem um inquietude particular, mas sim uma angústia quando confrontadas com uma situação que desencadeia o medo. É um medo, suscitado pela presença dum objecto, ou de uma situação, ou de uma pessoa, que não representam nenhum perigo real mas que provoca uma séria angústia ou mesmo um terror paralisante, e que é reconhecido como uma reacção anormal.
:: Geralmente, a pessoa fóbica, vai tentar fazer desaparecer esse efeito por meio de estratégias defensivas, como por exemplo, a fuga para a frente ou o evitamento, para referir as mais utilizadas.
:: Existem várias fobias, mas as mais vulgares são: a agorafobia (fobia dos espaços abertos) a claustrofobia (fobia dos espaços fechados), a hipocondria (medo das doenças), as vertigens (fobia das alturas), fobias sociais, fobias de animais ( por exemplo, a aracnofobia – medo de aranhas – e outras fobias de animais – ratos, pássaros, serpentes, etc.), fobia de falar em público, timidez anormal nas relações pessoais, e outras fobias específicas, como por exemplo, fobia de objectos, facas, canetas, vidro, etc.
Perturbação Obsessivo-Compulsiva
:: Nestes casos a ansiedade não é o sinal ou sintoma mais evidente, mas está sempre subjacente. A diferença entre Obsessão e Compulsão é: as obsessões são pensamentos ou representações recorrentes e intrusivas. As compulsões, são comportamentos ou actos mentais que se repetem, e que são submetidos a regras inflexíveis, com rituais, sob o risco de que se não forem repetidos e executados sempre da mesma maneira trazem o azar e tudo pode correr mal.
:: Tanto as obsessões como as compulsões, são reconhecidas como excessivas ou irracionais. Têm na origem sentimentos marcados de desamparo. Provocam grande dor mental e interferem com a dinâmica doméstica, na realização profissional e na manutenção das relações pessoais.
:: As obsessões mais frequentes são as do medo de contaminação ou de uma desgraça, a obsessão da ordem ou a da perfeição. Existem pessoas que lavam as mãos mais de duas dezenas de vezes por dia, outras fazem todos os dias exactamente o mesmo percurso para chegar ao trabalho, outras não conseguem fazer uma tarefa nova, ou habitual, sem antes haver um ritual complicado e incompreensível. Percebe-se, portanto, o quanto esta perturbação pode interferir no quotidiano duma pessoa.
Estima-se que a prevalência desta perturbação atinja cerca de 2% da população, e que tenha frequentemente patologias associadas como por exemplo, a depressão.
Ataques de Pânico
:: Se a descrição é bastante fácil de se compreender, já o que se sente é dum acontecimento terrível. Existe uma angústia aguda, uma angústia enorme e brutal, associada a sintomas físicos característicos. O ataque de pânico caracteriza-se por ser bem delimitado no tempo, em que se expressam pelo menos quatro dos treze sintomas a seguir descritos, e atingem o auge da sua intensidade em menos de dez minutos: medo de morrer, medo de ficar louco, com angústia de despersonalização (estar desligado de si próprio), angústia de desrealização (sentimentos de irrealidade), de palpitações, sufocação, transpiração, tremuras ou espasmos musculares, dor toráxica, náuseas, vertigens, sensações de formigueiro (parastesias) e arrepios.
:: Os sintomas físicos, aliás, são tão intensos, que as pessoas acabam por ir a uma consulta médica, preocupados com o bem estar físico propriamente dito. Como exemplo, há pessoas que ficam muito surpreendidas, que quando casam e vão de lua-de-mel têm um ataque de pânico, e procuram rapidamente um cardiologista, devido à taquicardia, ou à falta de ar. O que se verifica, é que não existe problema nenhum a nível físico, mas por detrás destes sintomas está instaurada uma angústia de separação, ou mesmo depressão.
:: Da investigação clínica realizada até hoje, os trabalhos sugerem que a ansiedade de separação patológica durante a infância constitui um factor de risco no aparecimento da perturbação de pânico e de agorafobias, durante a idade adulta.
Os ataques de pânico parece que têm maior prevalência nas mulheres e em sujeitos mais ansiosos, que têm traços de personalidade evitantes, e que têm tendências depressivas.
Stress Pós- Traumático
:: O stress pós-traumático, surge a seguir a um acontecimento particularmente angustiante, correspondendo ao advento de uma ameaça de morte, de uma ferida, ou de uma perda da integridade física (para si próprio ou para outros). Provoca, instantaneamente, um medo e um sentimento de impotência intenso, ou de horror, traduzindo-se em comportamentos totalmente desorganizados.
:: A sintomatologia é dominada por recordações intrusivas, sonhos recorrentes, flash-backs, ilusões ou alucinações, às vezes agressividade, e impressões súbitas. Os estímulos que são recordados do traumatismo tendem a ser evitados, tal como o desinteresse pelo ambiente, à restrição dos afectos, à relação pessimista para com o futuro, associam-se perturbações do sono, irritabilidade, reacção de sobressalto exagerado, dificuldades de concentração e hipervigilância, A duração das perturbação geralmente é sempre superior a um mês.
:: Este sintoma encontra-se geralmente em soldados que estiveram na guerra, mas também em crianças vítimas de violência e de abusos sexuais.
O tratamento das Ansiedades
:: Sofrer de perturbação da ansiedade não é nenhuma banalidade nem uma fatalidade. Os tratamentos para cada tipo de ansiedade variam e são estabelecidos em função da natureza do problema (fobias, obsessões, pânico, etc.) e estabelecidos em função da personalidade do sujeito que as sofre.
:: Podemos encontrar ansiedades que se exprimem por outros tipos de sintomas como por exemplo, no caso de homens com ejaculação precoce, ou com impotência sexual, ou casais que há muito tempo tentam ter um filho, etc., depois de se terem realizados os despistes e exames médicos necessários, e ter-se verificado a ausência de efeitos fisiológicos, verifica-se que a ansiedade e a perturbação emocional são um factor enorme, e responsável, na manutenção dessas dificuldades. Ou ainda, pessoas que encontram no álcool, ou nas drogas, um escape para verem as suas angústias e preocupações aliviadas, e acabam por entrar num esquema traiçoeiro onde num primeiro momento as utilizam como qualquer coisa que ajuda a ficar mais calmo e que até dá prazer, mas mais tarde num esquema de dependência.
:: Os exemplos podem ser vários, mas o importante a saber é que, uma grande parte das ansiedades patológicas são curáveis, outras serão susceptíveis de melhoramentos consideráveis que permitem, na generalidade, devolver às pessoas uma vida normal.
Miguel Botelho de Barros
Psicólogo Clínico do Hospital St. Louis
Grupo Português de Saúde
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