A Helicobacter pylori é uma bactéria que afecta metade da população mundial e 90% da população portuguesa. Tem sido sugerida uma relação entre a infecção por esta bactéria e o desenvolvimento de cancro do estômago. Mas a adopção de uma dieta saudável pode fazer a diferença. Saiba como.
Parece existir uma íntima relação entre a infecção por H. pylori e o desenvolvimento de adenocarcinomas no estômago.
Os estudos consultados evidenciaram que a dieta tem um papel fundamental tanto na potenciação como na prevenção deste tipo de cancro.
O consumo de carne, especialmente carne vermelha e processada, assim como de sal são um factor acrescido de risco, que quando somado à infecção por H. pylori, podem levar a carcinogénese.
Por outro lado, alimentos ricos em antioxidantes como os vegetais ou frutas (principalmente frescas), já provaram ser eficazes na prevenção do cancro do estômago.
Sendo Portugal tão afectado por esta doença, torna-se cada vez mais imperioso, tomar consciência dos cuidados a ter ao nível de uma dieta equilibrada, usufruindo da grande variedade de vegetais e frutas existente no nosso país.
Prevalência do cancro do estômago
O cancro do estômago é o quarto tipo de doença oncológica mais prevalente e a segunda maior causa de morte relacionada com o cancro em todo o mundo [1]. É estimado que ocorrem 650.000 mortes e 880.000 novos casos deste tipo de cancro por ano, sendo que dois terços ocorrem em países em desenvolvimento.
Portugal está entre os dez países com maior número de cancros do estômago e, infelizmente, o número de casos não tem diminuído significativamente nos últimos anos.
O Japão, Chile e Portugal são alguns dos países onde a incidência da patologia é maior. Isto porque há, em média nestes países, 29 mortes por cada 100 000 pessoas em cada ano.Em contraste, nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, há apenas cerca de três mortes em 100 000 pessoas por ano devido ao cancro do estômago.
Esta doença oncológica afecta mais homens que mulheres e tende a surgir após a quinta década de vida.
Helicobacter pylori
A H. pylori vive no estômago humano, mais concretamente na camada mucosa, estando muitas vezes associada ao aparecimento de úlceras estomacais e gastrite.
A incidência de infecção por esta bactéria é bastante maior nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos, provavelmente devido às piores condições sanitárias e de higiene. Surpreendentemente, em Portugal, a percentagem de infecção é semelhante à dos países em desenvolvimento.
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Associação entre h. Pylori e cancro do estômago
O cancro do estômago está frequentemente associado à infecção por H. pylori (70-90%), sendo que se determinou que a presença desta bactéria confere um aumento de seis vezes no risco de contrair esta patologia.
A título de exemplo, o Japão, que é o país com maior incidência de cancro do estômago, é também um dos países em que a infecção por H. pylori é maior.
Tendo em conta os estudos epidemiológicos que mostram a associação entre a H. pylori e o cancro do estômago, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou a H. pylori como um carcinogéneo do grupo I (como o tabaco).
Alimentos promotores da carcinogé-nese em indivíduos com h. Pylori
Apesar da presença de H. pylori em 70 a 90% dos indivíduos afectados por cancro do estômago, a infecção por esta bactéria não é condição única para o desenvolvimento de cancro.
Um caso interessante de analisar é o continente africano onde a H. pylori está presente em 90% da população, mas os casos de cancro no estômago são muito raros.
Estes dados permitem-nos pensar que existem outros factores que podem actuar de forma sinérgica com a H. pylori. Entre os alimentos que se acredita estarem envolvidos na promoção da carcinogénese do estômago em indivíduos com esta bactéria estão as carnes vermelhas e processadas e também alimentos salgados ou o consumo do próprio sal.
Um estudo [2] promovido pelo EPIC (European Prospective Investigation Into Câncer and Nutrition) tentou relacionar o consumo total de carne, assim como de carne processada (salsichas, bacon…) e carne vermelha, com o risco de cancro do estômago.
Os resultados mostraram que quanto maior o consumo de carne vermelha, processada ou o consumo total, maior era o risco de desenvolvimento de cancro do estômago.
Os pacientes que estavam infectados por H. pylori apresentaram uma maior proporção de adenocarcinomas em todos os casos. Isto comprova, mais uma vez, que há uma relação próxima entre a H. pylori e o desenvolvimento de cancro.
Os mecanismos envolvidos na relação entre o consumo de carne, infecção por H. pylori e o risco de cancro do estômago ainda não são completamente conhecidos. No entanto, sabe-se que a carne vermelha é uma fonte de ferro e tem sido sugerido que esse elemento seja um factor de crescimento essencial para a H. pylori.
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Afastar o sal da alimentação
Alguns estudos [3] demonstraram que o risco de cancro pode aumentar com um grande consumo de alguma comida preservada em sal ou por consumo de sal per se. Uma grande concentração de sal no estômago destrói a barreira mucosal e leva a inflamação e danos como a erosão e degeneração do tecido epitelial.
A OMS concluiu já, que a comida conservada em salga e o sal aumentam o risco de cancro do estômago.
Quando administrado sozinho, o sal não apresenta carcinogenecidade, mas quando administrado juntamente com carcinogéneos, promove a acção destes. Se para além destes factores, houver também infecção por H. pylori, o número de adenocarcinomas registados sofre um enorme aumento.
A prevalência de cancro entre os indivíduos que consomem mais de 10 gramas de sal por dia é significativamente maior do que a dos que consomem uma menor quantidade de sal. A maior incidência regista-se em indivíduos que, para além de apresentarem um grande consumo de sal, estavam também infectados com H. pylori.
Consumo de frutas e vegetais
É reconhecido o valor fundamental do consumo de frutas e vegetais para a saúde humana. Muitos estudos têm demonstrado que estes alimentos têm propriedades protectoras contra variadas doenças. Um desses estudos, publicado em 1997, concluiu que o consumo de frutas e vegetais tem um efeito protector contra o cancro do estômago.
A protecção deve-se ao alto conteúdo em antioxidantes presentes nestes alimentos. Os antioxidantes têm a capacidade de neutralizar os danos no DNA provocados por radicais livres que são produzidos quando existe infecção por H. pylori.
Um elevado consumo de ácido ascórbico (vitamina C) está inversamente associado ao risco de cancro. Resultados semelhantes foram obtidos para o consumo de ?-caroteno. A relação entre o consumo de antioxidantes e a diminuição do risco de cancro é particularmente significativa para os indivíduos infectados por H. pylori.
Um estudo realizado em Portugal [4] com pacientes do Hospital de São João e do IPO no Porto mostrou também uma associação inversa entre o consumo de fruta e vegetais e o risco de desenvolver cancro do estômago.
A dieta mediterrânica é muito rica nestes alimentos, pelo que poderá ser um dos grandes alicerces para um combate eficaz ao cancro do estômago.
Em conclusão, o aumento do risco de cancro do estômago em indivíduos infectados pela H. pylori é maior quando os níveis de consumo de antioxidantes na dieta são menores.
André Santos | licenciado em Bioquímica
Referências bibliográficas:
>[1] Inflammation, atrophy, and gastric cancer James G. Fox and Timothy C. Wang The Journal of Clinical Investigation Volume 117 Number 1 January 2007
>[2] Meat, Fish, and Colorectal Cancer Risk: The European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition Teresa Norat et al Journal of the National Cancer Institute, Vol. 97, No. 12, June 15, 2005
>[3] A prospective study of dietary salt intake and gastric cancer incidence in a defined Japanese population: The Hisayama study Kentaro Shikata et al Int. J. Cancer: 119, 196-201 (2006)
>[4] Antioxidant Vitamins and Risk of Gastric Cancer: A Case-Control Study in Portugal Nuno Lunet, Carmen Valbuena, Fátima Carneiro, Carlos Lopes, and Henrique Barros NUTRITION AND CANCER, 55(1), 71-77
Parece existir uma íntima relação entre a infecção por H. pylori e o desenvolvimento de adenocarcinomas no estômago.
Os estudos consultados evidenciaram que a dieta tem um papel fundamental tanto na potenciação como na prevenção deste tipo de cancro.
O consumo de carne, especialmente carne vermelha e processada, assim como de sal são um factor acrescido de risco, que quando somado à infecção por H. pylori, podem levar a carcinogénese.
Por outro lado, alimentos ricos em antioxidantes como os vegetais ou frutas (principalmente frescas), já provaram ser eficazes na prevenção do cancro do estômago.
Sendo Portugal tão afectado por esta doença, torna-se cada vez mais imperioso, tomar consciência dos cuidados a ter ao nível de uma dieta equilibrada, usufruindo da grande variedade de vegetais e frutas existente no nosso país.
Prevalência do cancro do estômago
O cancro do estômago é o quarto tipo de doença oncológica mais prevalente e a segunda maior causa de morte relacionada com o cancro em todo o mundo [1]. É estimado que ocorrem 650.000 mortes e 880.000 novos casos deste tipo de cancro por ano, sendo que dois terços ocorrem em países em desenvolvimento.
Portugal está entre os dez países com maior número de cancros do estômago e, infelizmente, o número de casos não tem diminuído significativamente nos últimos anos.
O Japão, Chile e Portugal são alguns dos países onde a incidência da patologia é maior. Isto porque há, em média nestes países, 29 mortes por cada 100 000 pessoas em cada ano.Em contraste, nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, há apenas cerca de três mortes em 100 000 pessoas por ano devido ao cancro do estômago.
Esta doença oncológica afecta mais homens que mulheres e tende a surgir após a quinta década de vida.
Helicobacter pylori
A H. pylori vive no estômago humano, mais concretamente na camada mucosa, estando muitas vezes associada ao aparecimento de úlceras estomacais e gastrite.
A incidência de infecção por esta bactéria é bastante maior nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos, provavelmente devido às piores condições sanitárias e de higiene. Surpreendentemente, em Portugal, a percentagem de infecção é semelhante à dos países em desenvolvimento.
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Associação entre h. Pylori e cancro do estômago
O cancro do estômago está frequentemente associado à infecção por H. pylori (70-90%), sendo que se determinou que a presença desta bactéria confere um aumento de seis vezes no risco de contrair esta patologia.
A título de exemplo, o Japão, que é o país com maior incidência de cancro do estômago, é também um dos países em que a infecção por H. pylori é maior.
Tendo em conta os estudos epidemiológicos que mostram a associação entre a H. pylori e o cancro do estômago, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerou a H. pylori como um carcinogéneo do grupo I (como o tabaco).
Alimentos promotores da carcinogé-nese em indivíduos com h. Pylori
Apesar da presença de H. pylori em 70 a 90% dos indivíduos afectados por cancro do estômago, a infecção por esta bactéria não é condição única para o desenvolvimento de cancro.
Um caso interessante de analisar é o continente africano onde a H. pylori está presente em 90% da população, mas os casos de cancro no estômago são muito raros.
Estes dados permitem-nos pensar que existem outros factores que podem actuar de forma sinérgica com a H. pylori. Entre os alimentos que se acredita estarem envolvidos na promoção da carcinogénese do estômago em indivíduos com esta bactéria estão as carnes vermelhas e processadas e também alimentos salgados ou o consumo do próprio sal.
Um estudo [2] promovido pelo EPIC (European Prospective Investigation Into Câncer and Nutrition) tentou relacionar o consumo total de carne, assim como de carne processada (salsichas, bacon…) e carne vermelha, com o risco de cancro do estômago.
Os resultados mostraram que quanto maior o consumo de carne vermelha, processada ou o consumo total, maior era o risco de desenvolvimento de cancro do estômago.
Os pacientes que estavam infectados por H. pylori apresentaram uma maior proporção de adenocarcinomas em todos os casos. Isto comprova, mais uma vez, que há uma relação próxima entre a H. pylori e o desenvolvimento de cancro.
Os mecanismos envolvidos na relação entre o consumo de carne, infecção por H. pylori e o risco de cancro do estômago ainda não são completamente conhecidos. No entanto, sabe-se que a carne vermelha é uma fonte de ferro e tem sido sugerido que esse elemento seja um factor de crescimento essencial para a H. pylori.
[Continua na página seguinte]
Afastar o sal da alimentação
Alguns estudos [3] demonstraram que o risco de cancro pode aumentar com um grande consumo de alguma comida preservada em sal ou por consumo de sal per se. Uma grande concentração de sal no estômago destrói a barreira mucosal e leva a inflamação e danos como a erosão e degeneração do tecido epitelial.
A OMS concluiu já, que a comida conservada em salga e o sal aumentam o risco de cancro do estômago.
Quando administrado sozinho, o sal não apresenta carcinogenecidade, mas quando administrado juntamente com carcinogéneos, promove a acção destes. Se para além destes factores, houver também infecção por H. pylori, o número de adenocarcinomas registados sofre um enorme aumento.
A prevalência de cancro entre os indivíduos que consomem mais de 10 gramas de sal por dia é significativamente maior do que a dos que consomem uma menor quantidade de sal. A maior incidência regista-se em indivíduos que, para além de apresentarem um grande consumo de sal, estavam também infectados com H. pylori.
Consumo de frutas e vegetais
É reconhecido o valor fundamental do consumo de frutas e vegetais para a saúde humana. Muitos estudos têm demonstrado que estes alimentos têm propriedades protectoras contra variadas doenças. Um desses estudos, publicado em 1997, concluiu que o consumo de frutas e vegetais tem um efeito protector contra o cancro do estômago.
A protecção deve-se ao alto conteúdo em antioxidantes presentes nestes alimentos. Os antioxidantes têm a capacidade de neutralizar os danos no DNA provocados por radicais livres que são produzidos quando existe infecção por H. pylori.
Um elevado consumo de ácido ascórbico (vitamina C) está inversamente associado ao risco de cancro. Resultados semelhantes foram obtidos para o consumo de ?-caroteno. A relação entre o consumo de antioxidantes e a diminuição do risco de cancro é particularmente significativa para os indivíduos infectados por H. pylori.
Um estudo realizado em Portugal [4] com pacientes do Hospital de São João e do IPO no Porto mostrou também uma associação inversa entre o consumo de fruta e vegetais e o risco de desenvolver cancro do estômago.
A dieta mediterrânica é muito rica nestes alimentos, pelo que poderá ser um dos grandes alicerces para um combate eficaz ao cancro do estômago.
Em conclusão, o aumento do risco de cancro do estômago em indivíduos infectados pela H. pylori é maior quando os níveis de consumo de antioxidantes na dieta são menores.
André Santos | licenciado em Bioquímica
Referências bibliográficas:
>[1] Inflammation, atrophy, and gastric cancer James G. Fox and Timothy C. Wang The Journal of Clinical Investigation Volume 117 Number 1 January 2007
>[2] Meat, Fish, and Colorectal Cancer Risk: The European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition Teresa Norat et al Journal of the National Cancer Institute, Vol. 97, No. 12, June 15, 2005
>[3] A prospective study of dietary salt intake and gastric cancer incidence in a defined Japanese population: The Hisayama study Kentaro Shikata et al Int. J. Cancer: 119, 196-201 (2006)
>[4] Antioxidant Vitamins and Risk of Gastric Cancer: A Case-Control Study in Portugal Nuno Lunet, Carmen Valbuena, Fátima Carneiro, Carlos Lopes, and Henrique Barros NUTRITION AND CANCER, 55(1), 71-77