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Porque falha o coração?

O coração, como qualquer músculo do nosso corpo, também pode sucumbir ao cansaço. Não raro, fruto dos estilos de vida desadequados, as artérias podem ficar total ou parcialmente entupidas, o que limita o fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco. Esta situação obriga a um trabalho redobrado do coração, para fazer chegar o sangue a todo o organismo, provocando uma falência gradual deste órgão essencial à vida.

Hoje em dia, em resultado do desenvolvimento das sociedades, os hábitos de vida alteraram-se completamente. O andar a pé deu lugar às viagens de carro, as comidas caseiras foram substituídas pelo fast-food e o stresse surge como algo imperioso, numa altura em que tempo comanda os ritmos diários. Tudo em nome de um estilo de vida mais frenético. Por todos estes motivos, os números das doenças cardiovasculares engrossam por todo o mundo. Em Portugal, a patologia de foro cardiovascular é a causa número um de mortalidade, chegando mesmo a ultrapassar as doenças oncológicas. Mas, para se compreender este fenómeno, temos de perceber as suas causas. “Em circunstâncias normais, as artérias (vasos sanguíneos) apresenta paredes lisas, que permitem a livre passagem do sangue”, afirma a Dr.ª Quitéria Rato, cardiologista do Hospital de S. Bernardo, em Setúbal. Porém, com o decorrer dos anos, como consequência dos maus hábitos de vida, as artérias começam a ficar “sujas”, devido à acumulação de colesterol [gordura] que se deposita no interior das suas paredes, provocando o espessamento destes vasos. Resultado? “Se os níveis de colesterol no sangue forem elevados ou uma exposição permanente das artérias a outros factores de risco cardiovascular, essas placas podem aumentar e obstruir o fluxo sanguíneo, diminuindo o fornecimento de oxigénio aos tecidos”, explica a cardiologista. No leque de factores de risco modificáveis encontra-se o colesterol elevado, a hipertensão arterial, o tabagismo, a diabetes, a obesidade, o sedentarismo e o stresse. Contudo, como indica a especialista, existem “factores de risco que são independentes da vontade do indivíduo”, nomeadamente a idade, o sexo e os antecedentes familiares de doença cardiovascular. Perante uma exposição permanente aos diversos factores de risco, “as artérias são ‘agredidas’ de uma forma mais intensa, havendo uma formação acelerada de placas ateroscleróticas”. Neste sentido, a cardiologista diz que “é indiscutível uma abordagem global e precoce do risco cardiovascular”, de modo a conseguir um controlo eficaz dos factores de risco modificáveis, já que não existe a possibilidade de “alterar a herança genética”. Assim, como adianta, “é preciso investir na saúde, alterando comportamentos alimentares e estilos de vida, para, assim, ser possível colher bons frutos desse investimento no futuro”. Para isso, é necessário apostar precocemente em medidas preventivas, para que não se pague a factura mais tarde. Um dos primeiros passos para a adopção de uma vida mais saudável pode começar à mesa, já que uma alimentação desregrada e hipercalórica se constitui como um dos factores de risco com mais peso para as doenças cardiovasculares. Esta situação, conjugada com o sedentarismo e a inactividade física, pode potenciar o aparecimento de outros factores de risco, particularmente a hipertensão arterial (HTA), a obesidade, e diabetes mellitus e o colesterol elevado. Assim, para contrariar esta tendência em crescendo nas sociedades actuais, está preconizado que todos os indivíduos devem realizar, diariamente, uma actividade física, com uma duração mínima de 30 minutos. A par de todos estes factores de risco, encontra-se, ainda, o tabagismo. Segundo a cardiologista, os hábitos tabágicos “estão relacionados com cerca de 50% das causas de morte evitáveis, metade das quais devido à aterosclerose”. Estas estatísticas tornam-se ainda mais alarmantes se consideramos que quem fuma mais do que um maço por dia tem um risco quatro vezes superior de enfarte do que quem não fuma. O consumo de cinco cigarros por dia eleva em 40% este risco. Por esta razão, a cardiologista indica que “a cessação do tabagismo é, isoladamente, a medida preventiva mais importante para as doenças cardiovasculares”.

Quando o coração começa a falhar A doença coronária surge, por norma, na sequência de lesões ateroscleróticas, que, com o passar do tempo, podem obstruir as artérias que conduzem o sangue ao coração. E o que é a aterosclerose? “É uma manifestação clínica que resulta do depósito de gordura no lúmen [parede] das artérias e que as torna mais espessas e estreitas”, explica o Dr. Carlos Aguiar, cardiologista do Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide. Assim, e devido a este “afunilamento” das artérias, o fluxo de sangue vai sendo cada vez mais reduzido, impedindo, desta forma, que o coração receba os nutrientes e oxigénio para continuar a funcionar. Perante uma actividade física mais brusca ou um stresse emocional intenso, é exigido um esforço redobrado ao coração. Contudo, em virtude do estreitamento das artérias, há uma interrupção súbita do fluxo sanguíneo na artéria e, por falta de alimento, o coração entra em sofrimento, vulgo isquemia. “Nesta situação, geralmente sente-se uma pressão na parte central do peito, um aperto ou um ardor, que, por norma, cessa, quando se diminui o esforço físico que despoletou este bloqueio”, adianta o cardiologista. Da isquemia “resulta a angina do peito: um sintoma benigno e transitório que faz suspeitar da existência de doença coronária”. O risco mais elevado surge quando as placas de gordura (ateroma) se misturam com a circulação sanguínea, dando origem a um coágulo que obstrui, total ou parcialmente, a artéria. Apesar de uma haver uma capa fibrosa a barrar este contacto, face a uma situação de stresse exacerbado ou um esforço físico aumentado, esta “cápsula rompe-se e, se houver uma coagulação muito activa, podem-se formar os chamados trombos (coágulos)”, sublinha o cardiologista. Nestes casos, existe o perigo iminente de o coágulo entupir a artéria, dando origem a um enfarte agudo do miocárdio. Significa isto que o coração, após a obstrução da artéria, deixa de ser irrigado e, por conseguinte, não recebe o oxigénio e nutrientes para se manter em funcionamento. “Um enfarte agudo do miocárdio [músculo cardíaco] é uma manifestação clínica, potencialmente fatal e com compromisso de vida, exigindo hospitalização e cuidados intensivos nas 12 primeiras horas”, completa Carlos Aguiar. Depois de consecutivas agressões, o coração começa a dar sinais do seu enfraquecimento. Deste cansaço resulta um bombeamento insuficiente ou uma recepção deficiente do sangue. “A falência do coração traduz-se, assim, numa diminuição da irrigação a outros órgãos, provocando fadiga muscular, cansaço físico e diminuição da diurese [urinar], falta de ar, em virtude do esvaziamento inadequado do sangue”, fundamenta a Prof.ª Dulce Brito, consultora de Cardiologia do Hospital de Santa Maria e Secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Após um enfarte agudo do miocárdio, em resultado da obstrução das artérias, parte do tecido cardíaco pode sucumbir à morte, deixando de funcionar. “O restante músculo cardíaco sobrevivente tentará, posteriormente, adaptar-se a esta nova realidade, que se designa por insuficiência cardíaca crónica.” Uma das situações que está na génese deste problema pode ser, ainda, a hipertensão arterial, que, quando não tratada, exerce uma “sobrecarrega diária no músculo cardíaco, fragilizando-o depois de algum tempo”.

Mas, contrariamente ao que se julga, o coração não pára. Apenas deixa de funcionar na íntegra, porque parte do músculo deixa de funcionar. Para compensar a zona lesada, o coração é obrigado a trabalhar com mais intensidade, motivo pelo qual aumenta de volume e se dilata. Contudo, a especialista adianta que estas situações têm tratamento farmacológico que permitirão prolongar a vida do doente. Mas, sublinha, “os medicamentos não bastam, pelo que é necessário aprender novos hábitos de vida”. Cardiologia de intervenção Até há uns anos atrás, as lesões nas artérias coronárias eram tratadas com recurso ao by-pass. A possibilidade que havia era retirar fragmentos de uma veia da perna ou artérias do corpo e implantá-las na zona danificada. Actualmente, com o desenvolvimento da Cardiologia de intervenção, já é possível tratar os doentes com meios mais sofisticados. “Hoje em dia, com o tratamento farmacológica e mecânico abriu-se um novo caminho à intervenção percutânea das artérias. Através do uso de trombolíticos ou da angioplastia já é possível actuar, com maior rapidez, no campo da prevenção e tratamento do enfarte agudo do miocárdio”, salienta o Dr. Pedro Farto e Abreu, director da Unidade de Cardiologia de Intervenção do Hospital Fernando da Fonseca (Amadora/Sintra). Para minorar a extensão do enfarte agudo do miocárdio, que resulta da obstrução de uma artéria, pode-se optar pela administração de trombolíticos: fármacos que, em 70 a 80% dos casos, desentopem a artéria afectada, desfazendo o trombo que se forma no seu interior, de modo a retomar a normal circulação sanguínea. O especialista indica que existe, também, um procedimento mecânico: a angioplastia coronária. “Esta intervenção consiste na colocação de um introdutor na artéria femural [na virilha], através da qual é introduzido um cateter, que se desloca até à artéria afectada do coração. Através do cateter, introduz-se um fio guia e, por meio deste, vai ser colocado um balão com um stent”, continua a especialista. O stent, surgido há cerca de 20 anos, é uma pequena prótese, semelhante a mola de uma caneta, que se coloca no interior da artéria e restitui o diâmetro normal das mesmas. “O balão, quando está na zona da lesão, insufla, o stent sai e fica junto à artéria”, fundamenta Pedro Farto e Abreu. Após a aplicação desta técnica, retira-se o balão. O cardiologista explica que através deste mecanismo de intervenção, é “possível tratar milhões de doentes em todo o mundo de uma forma eficaz”. Doenças Cardiovasculares em números Segundo dados de 2005, nesse ano faleceram 107.839 portugueses, sendo que, do total de óbitos, 36.723 deveram-se a causa cardiovascular, o equivalente a 34%. De acordo com os dados obtidos, esta foi a primeira causa de mortalidade, ultrapassando as doenças oncológicas, com 22.724 mortes. Estas informações indicam que, em média, a cada 14 minutos, morre uma pessoa por causa cardiovascular. A maior parte dos óbitos por causa cardiovascular devem-se ao acidente vascular cerebral (15.668), seguido pelo enfarte agudo do miocárdio, com 8059 mortes. No mesmo período, registaram-se, ainda, 11.670 internamentos hospitalares, devido ao enfarte agudo do miocárdio.

Conselhos para um coração são – A alimentação deve ser equilibrada e variada, tendo em conta as recomendações da Nova Roda dos Alimentos; – Consumo adequado de alimentos hortícolas e frutos (43% da ingestão diária), devido à sua riqueza em fibras alimentares, vitaminas (especialmente vitamina C e beta carotenos-9 e minerais com selénio: o potencial antioxidante desempenha um papel importante na prevenção da aterosclerose; – Restringir a ingestão de calorias totais, adequando o consumo energético às necessidades reais e à actividade; – Limitar o consumo de gorduras, colesterol, bebidas alcoólicas, sal e café; – Evitar uma confecção culinária à base de fritos, refogados e partículas queimadas resultantes da confecção dos alimentos, nomeadamente assados e grelhados; – Fazer cinco refeições por dia, distribuindo o consumo alimentar de forma harmoniosa, mastigando calmamente os alimentos ingeridos; – Optar por hábitos de vida mais saudáveis, que envolvem a prática regular de exercício físico, não fumar, ingerir cerca de dois litros de água por dia e libertar-se do stresse e de situações que provocam ansiedade. * Informações cedidas pela Dr.ª Quitéria Rato, cardiologista do Hospital de S. Bernardo, em Setúbal

Jornal do Centro de Saúde

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