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Por um coração mais são

Conhece o seu risco? Porque o bater do coração depende de uma vida saudável, siga à risca os conselhos da Fundação Portuguesa de Cardiologia.

Os números são alarmantes, mas não é demais lembrar que, segundo os cálculos da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2025, cerca mil e quinhentos milhões de pessoas em todo o mundo, acima dos 25 anos, vão sofrer de hipertensão. E, neste capítulo, as estatísticas demonstram que Portugal não se encontra na melhor posição do ranking. Segundo o Prof. Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia (FCP), “este é um dos maiores problemas de saúde pública em Portugal”.

Devido a este “assassino silencioso”, o nosso país continua a registar a mais elevada taxa de mortalidade da Europa por acidente vascular cerebral (AVC). “Anualmente, ocorrem cerca de 20 mil mortes devido ao flagelo dos AVC. Tem de ser salientado que mais de metade dos hipertensos não estão diagnosticados e apenas 11% estão controlados”, diz o responsável da FPC.

A nível mundial, a hipertensão é responsável por 14% da mortalidade. Mas existem, ainda, os custos sociais e em saúde. É, por isso, que este ano a World Heart Federation, ao assinalar o dia Mundial do Coração, colocou a tónica neste problema. “Como se trata de uma patologia assintomática, os doentes podem viver anos sem saberem que são hipertensos. É preciso reconhecer a importância do maior facto de risco cardiovascular existente”, reforça Manuel Carrageta.

Contudo, o presidente da FPC indica que não basta estar atento a um factor de risco isoladamente. “Há um risco global, integrado, que depende da conjugação de vários factores, nomeadamente a obesidade, o tabagismo, o colesterol, a hipertensão e a idade.” Para reduzir o risco cardiovascular, a solução passa por “agir concertadamente e adoptar um estilo de vida saudável”.

 

Perigos de alta tensão

A hipertensão, tantas vezes designada por “assassino silencioso”, em geral, não apresenta sintomas. Importa, por isso, explicar quais os factores de risco que elevam a tensão arterial. “A obesidade é um problema que se tem alastrado em todo o mundo”, muito devido “à adopção de uma alimentação desregrada”. Quando se aumenta de peso, há uma tendência para aumentar a pressão arterial. Mas, paralelamente, à questão da obesidade, há ainda factores modificáveis, como a alimentação, o sedentarismo e a poluição atmosférica. Já o aumento da esperança de vida, por sua vez, também vem mostrar a ponta do iceberg: “maior tempo de vida traduz-se no aparecimento de mais hipertensos”.

Para além do factor idade, há que somar os estilos de vida desadequados. Segundo estudos elaborados em África, no seio de populações que viviam no mato, constatou-se que, após migração para as grandes cidades, ao final de uns meses havia registo de aumento da pressão arterial. Esta explicação reside, segundo Manuel Carrageta, na alimentação. “Uma dieta pobre em produtos hortícolas e fruta exerce uma acção negativa sobre a pressão arterial”. Existe, ainda, o problema do sal, que deverá consumido até seis gramas por dia. Só em Portugal, esta ingestão excede no triplo o recomendado.

“Cerca de 70% do sal ingerido deve-se ao consumo de alimentos processados e enlatados.” A título de exemplo, o responsável explica que uma batata de tamanho médio tem cinco miligramas de sódio. Mas, quando convertida em produto de pacote, passa a ter 500 miligramas. Em virtude desta ingestão desmesurada de sal, o especialista aconselha o consumo de alimentos frescos, em detrimentos de produtos processados ou enlatados. Em alternativa ao sal, podem ser usados condimentos para temperar a comida. “Há vidas que seriam poupadas, se houvesse uma modificação dos estilos de vida”, completa.

Ausência de sintomas

Não dá sintomas, não provoca dores, mas, com o passar dos anos, a hipertensão vai provocando danos irreversíveis nas artérias. Com a ingestão de “sal e de alimentos muito calóricos”, as artérias vão ficando mais estreitas. É uma situação semelhante ao que acontece com as tubagens e o calcário. Os detritos vão-se acumulando nas paredes das artérias, espessando-as. Resultado: há menos espaço para o sangue fluir e é neste momento que se regista um aumento da pressão sanguínea.

Como existe uma dificuldade de circulação do sangue no interior das artérias, esta pressão “obriga a um esforço redobrado do coração”, que terá de bombear com mais força para que o sangue irrigue todas as zonas do corpo. Acontece que este trabalho excessivo, a longo prazo, “pode conduzir à insuficiência cardíaca. Há, porém, o risco de ocorrência de um acidente vascular cerebral ou enfarte agudo do miocárdio, quando, em virtude de um processo de aterosclerose (acumulação de gordura dentro das artérias), a ligação arterial ao cérebro ou coração fica obstruída, dificultando a passagem sanguínea.

No caso da hipertensão, as artérias mais susceptíveis são as do cérebro. É, por este motivo, que a hipertensão está na base da maioria dos acidentes vasculares cerebrais. “Se fosse uma corrida, diríamos que o colesterol classifica-se em primeiro lugar na modalidade do coração. Ao passo que a hipertensão é campeã na modalidade do cérebro.”

Mas, muito embora possa não ser imediatamente fatal, a hipertensão, por si só, obriga o coração a um trabalho redobrado. “O coração tem de fazer um maior esforço, porque o sangue está sob tensão. Esta situação provoca alterações fisiopatologicas no coração, mais particularmente no ventrículo esquerdo, que espessa as suas paredes e na aurícula esquerda que se dilata.”

 

Regras de ouro do coração
Porque somos aquilo que comemos e fazemos, eis algumas regras para proteger o coração das agressões diárias:
– Deixar de fumar;
– Caminhar cerca de 20 a 30 minutos por dia, em passo rápido;
– Dieta regrada, com baixo consumo de sal;
– Alimentação à base de produtos hortícolas, frutas e com baixo índice de gorduras saturadas. Deve-se apostar em carnes brancas e peixe gordo (como o salmão).

 

Valores a manter

– Para a tensão arterial: consideram-se valores normais os inferiores a 140 mmHg (pressão arterial sistólica) e a 90 (diastólica);

– Colesterol LDL (o “mau colesterol): menos de 190 miligramas por decilitro;

– Triglicéridos: menos de 150 mg/dl

 

Jornal do Centro de Saúde

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