O coração humano está situado no peito, por detrás do esterno. É, por assim dizer, um músculo oco que bombeia o sangue através dos vasos sanguíneos. O coração é assim responsável pelo fornecimento de oxigénio e nutrientes a todo o corpo. Em cada batimento cardíaco, o sangue é bombeado, antes de mais, das aurículas para os ventrículos. Os ventrículos contraem-se depois e forçam o sangue a passar para os vasos sanguíneos. A partir do lado direito do coração, o sangue chega aos pulmões e a partir do lado esquerdo, é enviado para todo o corpo.
O coração contrai-se mais de 100.000 vezes por dia, de modo a manter a circulação sanguínea. Para assegurar um funcionamento regular e sem problemas, o coração possui um centro de controlo conhecido como nódulo sinusal ou sinoauricular, que actua como um gerador de impulsos e está localizado na aurícula direita.
O lado direito do coração recebe sangue não oxigenado do organismo, enviando-o depois para os pulmões para ser enriquecido com oxigénio (ilustrado pelas setas azuis).
O lado esquerdo do coração recebe sangue oxigenado dos pulmões, enviando-o depois para o resto do organismo, onde o oxigénio será distribuído pelos outros órgãos e cérebro (ilustrado pelas setas vermelhas).
A doença cardiovascular
A doença cardiovascular é a primeira causa de morte entre os homens e mulheres e é responsável por cerca de metade de todas as mortes ocorridas na Europa. Estima-se que causa todos os anos 4.35 milhões de mortes nos 52 Estados membros da Região Europeia da OMS. Em Portugal morrem todos os anos 40 mil pessoas devido a doença cardiovascular.
Calcula-se que a doença cardiovascular custe à economia europeia 169 mil milhões de euros por ano, ou seja, cerca de 372 euros per capita. A perda de produtividade devida à mortalidade e morbilidade da doença cardiovascular custa à União Europeia mais de 35 mil milhões de euros.
Entre as doenças do coração podemos encontrar a insuficiência cardíaca, as doenças da artérias coronárias, o enfarte do miocárdio e as pertubações do ritmo cardíaco (arritmias).
Insuficiência cardíaca
A insuficiência cardíaca traduz uma incapacidade de bombear sangue. O motor cardíaco deixou de ter a potência necessária para fornecer o sangue de que o corpo necessita. Todos os anos, só na Europa, são diagnosticados mais de 600.000 novos casos de insuficiência cardíaca.
Estes são alguns sinais desta patologia:
• Falta de ar durante o exercício ou mesmo em repouso;
• Cansaço rápido e fraqueza generalizada;
• Retenção de líquidos nas pernas (edema);
• Aumento da actividade urinária;
• Batimentos cardíacos excessivamente rápidos ou alteração do ritmo cardíaco.
Para o tratamento de formas específicas de insuficiência cardíaca, pode ser utilizado um estimulador especial, que fornece ao coração uma actividade organizada e assim aumenta a capacidade de bombear. Esta forma de tratamento é complementar aos processos farmacológicos e cirúrgicos.
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Doenças das artérias coronárias
As artérias coronárias alimentam o músculo cardíaco de oxigénio e nutrientes. Na doença coronária estes vasos acumulam depósitos que podem diminuir o fluxo para o músculo cardíaco em situação de esforço. Assim, com o exercício ou numa situação de excitação, pode ocorrer uma dor pré cordial (no peito, com possível irradiação para o braço, pescoço ou costas), conhecida como Angina de peito. Os vasos podem estar obstruídos com depósitos de gordura ao ponto de praticamente impedirem o fluxo sanguíneo, aparecendo a dor mesmo em situações de esforço ligeiro.
Enfarte do miocárdio
Em caso de ocorrência de um enfarte do miocárdio estamos normalmente na presença de doença coronária e um ou mais vasos sanguíneos ficam de repente totalmente obstruídos. Os sintomas são dores agudas na zona do peito, que podem espalhar-se até ao braço esquerdo, pescoço, estômago, costas ou ombro direito. Muitos doentes sobrevivem a um enfarte do miocárdio através da administração rápida de primeiros socorros qualificados. As possíveis consequências de um enfarte do miocárdio incluem arritmias cardíacas e insuficiência cardíaca.
Arritmias
Várias doenças ou alterações no coração podem conduzir a uma perturbação no ritmo cardíaco. Esta perturbação pode ocorrer sob a forma de um ritmo excessivamente lento, da ausência ocasional de um ou mais batimentos ou de um número excessivo de batimentos rápidos por minuto.
Uma arritmia é um problema relacionado com o ritmo dos batimentos cardíacos. Se o ritmo cardíaco for demasiado lento (inferior a 50/60 batimentos por minuto), é designado como bradicardia, se por outro lado o coração bater de forma muito rápida (mais de 100 batimentos por minuto), estamos perante uma taquicardia. Quando existe um impedimento á normal progressão dos estímulos cardíacos dentro do coração estamos em presença de um bloqueio que em certas situações pode levar à falta de um ou mais batimentos cardíacos.
Em qualquer uma destas situações, quando o coração bate de forma irregular, o bombeamento de sangue para as várias partes do corpo, pode não ser conseguido, colocando em perigo órgãos vitais como o cérebro, os pulmões, entre outros.
Por outro lado, as arritmias podem estar localizadas nas aurículas ou nos ventrículos do coração.
A fibrilhação auricular é a arritmia cardíaca mais frequente e caracteriza-se por ser um batimento irregular nas aurículas. As pessoas com fibrilhação auricular têm um batimento das aurículas várias vezes superior ao do resto do coração, o que leva a uma corrente sanguínea irregular e à formação ocasional de coágulos sanguíneos, que podem viajar até ao cérebro.
A sua prevalência aumenta com a idade, sendo maior nos doentes com insuficiência cardíaca ou doença valvular cardíaca. Estima-se que a sua prevalência é de 0.4% da população global e de 10 a 20% da população idosa. É a causa mais frequente de internamento hospitalar por pertubações do ritmo cardíaco e a mortalidade nos indíviduos com fibrilhação auricular é cerca do dobro da dos indivíduos com ritmo sinusal normal. A presença de fibrilhação auricular está também ligada à ocorrência de acidentes vasculares cerebrais (AVC).
A fibrilhação ventricular é uma situação patológica caracterizada no ECG por um traçado irregular, de amplitude variada e ondas grosseiras. O prognóstico é muito mais grave do que na fibrilhação auricular já que a contracção dos ventrículos é ineficaz levando à morte em poucos segundos se não for rapidamente corrigida. É responsável por 90% das paragens cardio-respiratórias em ambiente extra-hospitalar.
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O que causa uma arritmia?
Uma arritmia pode ocorrer sempre que o sinal eléctrico que controla o batimento cardíaco é atrasado ou bloqueado. Isto acontece por exemplo quando o centro de controlo que produz estes sinais não funciona correctamente, ou quando o sinal eléctrico não faz o seu percurso normal. Há ainda uma outra forma de arritmia, que ocorre sempre que uma outra parte do coração começa a produzir sinais eléctricos, para além dos já produzidos pelo nódulo sinusal.
Fumar, stress, bebidas alcoólicas, vida sedentária, drogas, toma incorrecta de alguns medicamentos, e excesso de cafeína podem causar arritmias em algumas pessoas.
Por outro lado, são normalmente os enfartes, a hipertensão, as doenças das artérias coronárias, a diabetes bem como o hipo e hipertiroidismo os principais factores de risco das arritmias cardíacas.
Qual a população de risco?
As arritmias mais sérias surgem com mais frequência nos adultos a partir dos 60 anos. Isto porque os adultos com esta idade são particularmente afectados por uma série de doenças cardiovasculares e até por outras doenças que são propícias ao aparecimento de arritmias.
Quais são os sinais ou sintomas das arritmias?
Palpitações, batimento cardíaco muito rápido ou muito lento (irregular), fadiga, vertigens, tonturas, transpiração irregular, cansaço, falta de ar, dor de peito e ansiedade são alguns dos sintomas que podem esta associados a arritmias. Outras manifestações mais graves são a síncope (perda súbita dos sentidos) ou até a morte súbita.
Diagnóstico das arritmias
O exame mais usual para diagnosticar as arritmias é o electrocardiograma. Este é um teste relativamente simples, que detecta e regista a actividade eléctrica do coração. O electrocardiograma mostra com precisão a frequência dos batimentos cardíacos, a sua regularidade ou irregularidade, ao mesmo tempo que fornece informação sobre a força e o timing dos sinais eléctricos, bem como a forma como efectuam a trajectória eléctrica pelas várias cavidades do coração.
Para além do ECG são instrumentos fundamentais de diagnóstico a história familiar e o exame físico.
O diagnóstico preciso e a orientação terapêutica adequada das arritmias cardíacas frequentemente exige o recurso a outros exames complementares (análises, ecocardiografia, Holter, teste de Tilt etc.) que devem ser orientados por um médico especialista nesta área das doenças cardiovasculares.
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Como tratar as arritmias?
Tratamento farmacológico
Se bem que existam medicamentos com propriedades antiarrítmicas específicas a terapêutica farmacológica destina-se principalmente à correcção e controlo das doenças cardiovasculares habitualmente associadas a arritmias cardíacas. Isto é, o doente deve ter o colesterol e a pressão arterial controladas, tratar a isquemia miocárdica, ter a função tirodeia normalizada etc.
No mesmo sentido devem ser feitos todos os esforços para promover uma vida saudável com uma alimentação equilibrada, a ausência de tabaco, a prática de exercício físico regular, o controle do peso e a ingestão excessiva de álcool ou cafeína.
Pacemaker cardíaco
Um pacemaker é implantado para ajudar o coração a manter um ritmo regular.
O sistema é constituído por um gerador de impulsos (pacemaker) cardíaco e por um ou dois fios flexíveis e finos (conhecidos como eléctrocateteres) que ligam o pacemaker ao coração.
O pacemaker regista continuamente informações sobre o ritmo cardíaco, verificando em particular se o coração está a bater de forma regular ou demasiado lenta. Se o coração estiver a bater com demasiada lentidão, o pacemaker cardíaco emite pequenos estímulos eléctricos, transmitidos ao coração através dos eléctrocateteres, e que fazem com que o coração se contraia com a frequência mais adequada.
A implantação de um pacemaker cardíaco exige uma pequena cirurgia que é normalmente realizada com anestesia local. Através de uma pequena incisão na pele, abaixo da clavícula, o médico introduz cuidadosamente o electrocateter no coração, através de uma veia. O procedimento é controlado através de raios X. Depois de avaliar a melhor localização, a ponta do electrocateter é fixada na parede do coração. Segue-se o mesmo procedimento para um segundo electrocateter se necessário. Os electrocateteres são então ligados ao pacemaker e fixados. Finalmente, é formada uma pequena bolsa debaixo da pele na área do músculo peitoral para alojar o pacemaker, sendo esta fechada com uma sutura.
Se tiver um pacemaker deve:
• Comparecer às consultas de acompanhamento
• Seguir as instruções do seu médico em relação à dieta alimentar, medicação e actividade física
• Assegurar-se de que não desloca o pacemaker sob a pele
• Impedir a proximidade de ímans em relação ao seu pacemaker cardíaco
• Consultar o seu médico antes de começar a praticar novos desportos e informá-lo de quaisquer alterações na sua vida, viagens longas ou planos para mudar a casa
• Informar todos os profissionas de saúdes que o tratarem de que tem um pacemaker cardíaco.
• Discutir as questões relativas ao pacemaker ou tratamento com o seu médico
• Trazer sempre consigo o cartão de identificação do seu pacemaker cardíaco.
Cardioversor Desfibrilhador Implantável (CDI)
O CDI é semelhante a um pacemaker cardíaco. O sistema é também composto por dois componentes: o gerador de impulsos e os electrocateteres. Mas para além das funções habituais dos pacemakers (o tratamento dos ritmos cardíacos lentos ou bloqueios) os CDI são capazes de tratar adequadamente as arritmias cardíacas rápidas, particularmente a fibrilhação ventricular sendo a única terapêutica verdadeiramente eficaz para evitar a morte súbita em grupos específicos de doentes com risco elevado de ter este tipo de arritmias.
O gerador de impulsos existente nos dias de hoje é um dispositivo muito pequeno e que funciona como um sofisticado computador. Ao longo do dia, vai recolhendo informação sobre o ritmo cardíaco a partir dos eletrocateteres inseridos no coração. Mais especificamente, avalia se os batimentos são demasiado rápidos ou lentos e se o coração bate com regularidade ou não. No caso de haver desvios da normalidade, estes são registados na forma de um electrograma (EGM). Estes dados contêm informação valiosa para o médico e podem ser lidos com a ajuda do dispositivo programável, que permite ao médico reprogramar o CDI em caso de necessidade.
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Em certo tipo de arritmias o CDI começa por emitir pequenas séries de impulsos de estimulação ao coração. Esta estimulação interrompe os episódios de taquicardia em mais de 90% dos casos. Os impulsos não provocam dor e a maioria dos doentes nem sequer os sente.
Caso não consiga fazer parar a taquicardia com estimulação repetida, o CDI emite um impulso eléctrico intenso, designado choque eléctrico. Este choque eléctrico está associado, tanto quanto possível, ao ritmo cardíaco, e designa-se cardioversão.
Na ocorrência de fibrilhação ventricular, o CDI vai detectar rapidamente o início desta arritmia e em poucos segundos aplicar um ou mais choques não sincronizados (desfibrilhação) com vista a retomar o ritmo cardíaco normal.
Necessita de um CDI?
Os médicos aconselham o implante de um desfibrilhador em determinados grupos de risco, tais como:
• Doentes em que já ocorreu um episódio de fibrilhação ventricular ou de paragem cardíaca e que necessitaram de reanimação;
• Doentes que perderam os sentidos devido a arritmia ventricular documentada;
• Doentes que perderam os sentidos por motivos desconhecidos, que sofrem de insuficiência cardíaca e podem vir a ter taquicardia ventricular;
• Doentes com risco acrescido de desenvolverem arritmias que colocam a vida em risco por motivos de doença familiar, hereditária ou que tenham história de enfarte do miocárdio do qual resultou compromisso grave da função cardíaca.
Perguntas e Respostas
Consegue sentir-se o dispositivo depois de implantado?
Dificilmente. Em virtude da sua dimensão e peso reduzido, os dispositivos mais modernos quase não se sentem. Assim que a ferida resultante da operação tiver cicatrizado, a maioria dos doentes aceita o pacemaker ou o CDI como algo natural.
Posso praticar desporto ou executar alguma actividade física?
O pacemaker/CDI é um dispositivo muito robusto e não restringe a sua esfera de actividades. Pelo contrário, poderá voltar a fazer coisas que antes seriam impensáveis devido à sua doença. Pode, por exemplo, fazer caminhadas, andar de bicicleta e praticar natação. A sua vida sexual também não tem de se alterar. As suas únicas preocupações devem ser as actividades desportivas que envolvam traumatismos directos sobra a zona onde está colocado o dispositivo.
O dispositivo é visível por baixo da roupa?
Não. Com o passar do tempo, estes dispositivos foram-se tornando tão pequenos que são implantados numa pequena bolsa de pele na zona do tórax.
Posso viajar sem problemas?
Sim! O seu pacemaker/CDI deve proporcionar-lhe a maior mobilidade possível. Pode igualmente viajar para o estrangeiro, mas deve informar o seu médico acerca dos seus planos. Ele poderá fornecer-lhe contactos úteis do seu país de destino, caso surja uma situação de emergência. Deve levar sempre consigo o seu cartão de portador de pacemaker/CDI, que deve guardar, para sua segurança, junto do passaporte. Deve apresentá-lo no controlo de segurança do aeroporto identificando-se como portador de um dispositivo.
Posso engravidar apesar de ser portadora de um pacemaker/CDI?
Sim. As doentes com pacemakers/CDIs têm tido uma gravidez normal e deram à luz crianças perfeitamente saudáveis. No entanto, deve falar com o seu médico acerca de uma possível gravidez no contexto da sua doença cardíaca.
Hill & Knowlton
www.hillandknowlton.com