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Irei sofrer da Doença de Alzheimer?

Actualmente, a doença de Alzheimer afecta 26 milhões de pessoas em todo o mundo. Em 2050, prevê-se que o número de pessoas afectadas será de 106 milhões. Ainda não existe cura para esta doença. No entanto, há vários medicamentos novos em desenvolvimento. A eficácia destes medicamentos é tanto maior quanto mais precocemente se detecta a doença e se inicia o tratamento.

O que é a Doença de Alzheimer?

A doença de Alzheimer é uma doença do cérebro, cujos principais sintomas são a perda da memória e do raciocínio. A doença é causada por uma deterioração progressiva das células cerebrais, que acabam por morrer.

No cérebro de um doente de Alzheimer, as células acumulam, progressiva e irreversivelmente, umas estruturas anormais. Estas estruturas, denominadas placas amilóides, interferem com o funcionamento normal das células conduzindo à sua morte.

Distinguem-se duas formas da doença. A forma esporádica, muito mais frequente, manifesta-se em pessoas com mais de 60-65 anos de idade. A forma familiar, rara, surge mais precocemente entre os 30 e os 60 anos.

 

A doença é hereditária?

A grande maioria dos casos de doença de Alzheimer não são hereditários. A doença surge esporadicamente em pessoas com mais de 60-65 anos de idade, sem nenhuma relação familiar aparente. No entanto, 5 a 7% dos doentes de Alzheimer herdam a doença dos seus pais.

Estes doentes sofrem de uma forma particular da doença denominada doença de Alzheimer familiar. A doença de Alzheimer familiar é causada por mutações em determinados genes e transmite-se de pais para filhos.

O filho ou filha de uma pessoa com a doença tem 50% de probabilidade de herdar o gene mutado e, portanto, vir a sofrer da mesma doença. A doença de Alzheimer familiar caracteriza-se por afectar indivíduos mais jovens.

O aparecimento de sintomas de perda da memória e do raciocínio numa pessoa com menos de 55-60 anos e com casos semelhantes na família levanta a suspeita de doença de Alzheimer familiar.

O diagnóstico é confirmado por um teste genético que identifica a mutação causadora da doença naquela família. Os filhos desta pessoa, ainda sem sintomas, podem decidir fazer o teste. No caso de possuírem a mutação, é quase certo que vão desenvolver a doença.

A decisão de fazer ou não fazer o teste preditivo (isto é, quando a pessoa ainda não tem sintomas) é uma opção individual que exige aconselhamento e acompanhamento médico. O resultado do teste é sempre confidencial e nunca pode dar origem a atitudes discriminatórias (por exemplo, por parte das companhias seguradoras).

Ter susceptibilidade ou predisposição genética para uma doença significa que se herdou dos pais um risco aumentado de desenvolver essa doença. Existem na população normal inúmeras variantes genéticas, denominadas polimorfismos, que podem aumentar a predisposição para certas doenças. Ao contrário das mutações patogénicas, muito mais raras, os polimorfismos não são determinísticos para o desenvolvimento de uma doença.

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Serei portador de um gene de risco?

Na grande maioria (cerca de 95%) dos doentes de Alzheimer, a doença surge depois dos 60-65 anos de idade e não existem outros casos na família. Nestes doentes, não se detectam mutações nos genes causadores da doença de Alzheimer familiar. Há, no entanto, um outro grupo de genes que podem aumentar a susceptibilidade à doença.

Destes, o mais conhecido é o gene da apolipoproteína E ou gene APOE, localizado no cromossoma 19. Na população normal, o gene APOE revela algumas diferenças, denominadas polimorfismos.

Uma variante em particular, denominada APOE ε4, está associada a um maior risco para desenvolver a doença de Alzheimer. Múltiplos estudos revelam que cerca de metade das pessoas com doença de Alzheimer não familiar possuem a variante APOE ε4.

Quando uma pessoa herda, do pai ou da mãe, a variante APOE ε4 o risco de vir a desenvolver a doença de Alzheimer é três vezes maior. No caso de herdar a variante tanto do pai como da mãe, o risco de desenvolver a doença tornase 10 vezes maior. No entanto, nem todas as pessoas com a doença de Alzheimer possuem a variante APOE ε4.

Por outro lado, muitas pessoas com esta variante nunca desenvolvem a doença. Por esta razão, no estado actual dos conhecimentos, os testes ao gene APOE são feitos apenas num contexto de investigação.

A comunidade médica e científica não recomenda fazer o teste APOE a uma pessoa saudável, pois o resultado do teste não permite dizer com segurança se aquela pessoa vai ter ou não doença de Alzheimer. Esta posição é, no entanto, controversa. Várias pessoas reclamam o direito de poder saber se são ou não portadoras de um risco aumentado para a doença.

 

Como se detecta precocemente a doença?

Apesar de não haver, ainda, cura para a doença de Alzheimer, existem vários medicamentos em desenvolvimento com o objectivo de travar ou atrasar a progressão da doença. É opinião consensual que estes novos medicamentos serão tanto mais eficazes quanto mais precocemente for detectada a doença e iniciado o tratamento.

Neste sentido, estão em curso inúmeros estudos para descobrir novos métodos de diagnosticar a doença assim que surgem os primeiros sinais de lapsos de memória. Muito recentemente foi demonstrado que é possível diagnosticar precocemente a doença de Alzheimer através de um teste molecular que quantifica três biomarcadores no líquido cefalo-raquideano.

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O teste é feito mediante uma punção lombar para recolha do líquido cefalo-raquideano. No laboratório são determinados os níveis de três proteínas envolvidas na patogénese da doença de Alzheimer: o péptido amilóide beta 42, a proteína tau total e a proteína tau fosforilada. As pessoas com níveis baixos de péptido amilóide beta 42 e níveis elevados de proteína tau têm um elevada probabilidade de vir a desenvolver doença de Alzheimer.

Vários estudos internacionais com muitas centenas de doentes e voluntários saudáveis demonstram que o teste consegue detectar as pessoas que ainda só manifestam ligeiros distúrbios de memória mas vão evoluir para a doença em 87 por cento dos casos. O teste consegue ainda excluir as pessoas que manifestam ligeiros distúrbios de memória mas não são doentes de Alzheimer em 95 por cento dos casos.

Este teste já se encontra disponível na prática clínica.

 

O peso dos genes

Entre 100 doentes de Alzheimer, 5 a 7 sofrem de uma forma hereditária da doença e começam a manifestar os sintomas entre os 30 e os 60 anos de idade. A doença de Alzheimer familiar é causada por mutações em determinados genes.

Actualmente são conhecidas mutações no gene da proteína precursora do amilóide, APP (localizado no cromossoma 21), no gene da presenilina 1 (localizado no cromossoma 14) e no gene da presenilina 2 (localizado no cromossoma 1).

A doença de Alzheimer familiar é uma doença hereditária dominante, ou seja, quando uma pessoa herda um destes genes mutados do pai ou da mãe é quase certo que vai desenvolver a doença.

 

Professora Doutora Maria Carmo-Fonseca
Directora do Instituto de Medicina Molecular
e da GenoMed-Diagnósticos de Medicina Molecular SA

FARMÁCIA SAÚDE – ANF

www.anf.pt

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