Vulgarmente conhecida como prisão de ventre, a obstipação resulta numa situação incomodativa, geradora de mal-estar.
A obstipação é uma situação que, em boa parte dos doentes, ocorre desde a infância, e se vai (ou não) agravando com a idade. É mais comum nas mulheres por várias razões, como a maternidade, um tipo de vida mais sedentário… ou a mulher se queixa mais…
Há sintomas acompanhantes da obstipação, que diferem de doente para doente e que podem ser traumatizantes, sobretudo quando surge uma constante sensação de peso no abdómen.
«A designação de obstipação será a dificuldade ou a não passagem de fezes durante algum tempo», indica o Dr. António Marques, gastrenterologista do Hospital de Santa Maria.
No entanto, o médico ressalva que «é uma definição extremamente variável, pois o ritmo do trânsito intestinal varia de pessoa para pessoa por diversas razões: os intestinos não são todos iguais, o estilo de vida de cada um é muito variável, como o são as diferenças na alimentação, etc.».
Existem, pois, condicionantes com implicação directa ou indirecta na funcionalidade do intestino. E porque não é um órgão isolado, torna-se muito dependente de tudo o que vai acontecendo ao longo do dia.
Assim, e de acordo com António Marques, não se pode definir obstipação, de forma igual para todos os obstipados. E devem-se considerar duas situações distintas.
«Uma situação ocorre quando, habitualmente, não se tem vontade de evacuar, podendo permanecer-se muitos dias sem o fazer. Ao fim de algum tempo, resulta um certo inchaço, uma sensação de peso no abdómen e mal-estar. Neste caso, o doente tem de recorrer a algo que o ajude a evacuar», diz o gastrenterologista, continuando:
«A outra situação acontece quando se tem um trânsito intestinal irregular, mas que a partir de determinada altura se dá uma modificação: o doente fica mais dias sem evacuar ou sofre uma alteração no tipo das fezes (mais duras ou mais fina) e isto implica pesquisarmos o porquê dessa alteração.»
Uma «laxante» solução
Apesar de a prisão de ventre não matar, mói. E de que maneira… para certos indivíduos!
Para que um eventual constante atazanar não prejudique o bem-estar, urge não deixar que o problema atinja as piores consequências. Encaixa-se nestas consequências a intolerabilidade para trabalhar ou dialogar, pois se a qualidade de vida é afectada e se o doente não se sente bem a nível físico, dificilmente sentir-se–á melhor para algumas tarefas do quotidiano.
Como nem todas as obstipações são iguais e as queixas são diferentes, também nem todas as formas de as resolver são iguais.
«Não deve cada um resolver o problema por si, pois há pequenas variações pontuais. É necessário medicar uma pessoa que tem constantemente dores ao fim de três dias sem evacuar, por exemplo. Noutros casos, temos de fazer exames clínicos para perceber se existe alguma anomalia dentro do próprio intestino. Queixas mais prolongadas, sobretudo nas pessoas mais idosas, podem esconder outras patologias», adverte António Marques.
Para quem somente sofre de obstipação, o tratamento passa essencialmente pelo uso de algum tipo de laxantes. Porém, antes de uma eventual automedicação, é aconselhável consultar o médico assistente.
«Para algumas pessoas, recorrer aos laxantes pode ser uma questão psicológica», comenta o especialista, exemplificando:
«Se um indivíduo que, regra geral, evacua de forma regular, num determinado dia não o consegue pode ficar preocupado e, por isso, querer tomar um laxante para provocar a evacuação.»
Mais vale prevenir…
Na perspectiva deste gastrenterologista, além de se tratar é fundamental prevenir a obstipação.
«Quando se tem vontade de evacuar não se deve esperar. Às vezes, não é possível – porque, por exemplo, se está numa reunião ou com um trabalho a decorrer –, mas assim que se volte a ter vontade não se deve evitar. O intestino não tem raciocínio próprio e se se puder resolver o problema de imediato é melhor para o intestino, porque se facilita o seu funcionamento, e, claro, para o bem-estar da pessoa», menciona António Marques, referindo-se a uma das muitas medidas preventivas da obstipação.
E aponta outras duas: «A quantidade de líquidos ingeridos durante o dia também é muito importante, assim como a maneira como se fazem as refeições e o tipo de alimentos ingeridos. Hoje em dia, as pessoas comem à pressa, sendo-lhes fácil ingerir comidas mais secas, provocando uma variação no funcionamento dos intestinos. Principalmente, aqueles que têm um intestino irregular, devem comer sentados e calmamente (pelo menos, ao jantar) para compensar a correria durante o dia.»
Ter uma alimentação rica e variada é outro imperativo. A consequência, como não poderia deixar de ser, será o normal funcionamento do intestino.
Ainda no que diz respeito à prevenção, há outros dois aspectos a interiorizar. Eles são o combate ao sedentarismo e, claro, ter uma actividade física regular.
«É importante fazer-se o esforço de andar um pouco a pé após o almoço e o jantar», aconselha António Marques, que não resistiu em salientar outra útil sugestão:
«Quem está obstipado deve beber um copo de água (sem estar fria ou quente) logo de manhã. Esta é uma medida óptima para lubrificar o intestino.»
O especialista conclui que «a forma como o doente aceita, ou não, o seu intestino e se habitua a conviver com ele é muito importante. Mas a obstipação não deixa de ser uma doença. Como tal, tem de fazer a sua prevenção e, quando necessário, deve fazer tratamento. É também importante não esquecer que à obstipação recente pode estar associado um acontecimento complicado».
Gases e obstipação
Beber líquidos é uma medida preventiva para a obstipação. Porém, nem todos os líquidos são aconselháveis.
«São de evitar os gasosos. Se, por um lado, dão uma sensação de plenitude e de ajuda numa digestão mais difícil, por outro lado, pode levar a uma acumulação de gases – o organismo absorve mal o gás», diz António Marques.
Abdómen distendido, sensação de enfartamento, dores e mal-estar é o que resulta da acumulação de gases, em especial se aliada a um trânsito intestinal lento ou a um intestino que funciona de uma forma obstipada. Estes sintomas acentuam quando as pessoas não expelem os gases porque não lhes é oportuno.
«Se as pessoas percebem que, na sua alimentação habitual, existem alimentos susceptíveis de provocar gases devem evitá-los», adverte o especialista.
O gastrenterologista não arrisca, porém, em afirmar que alimentos possam contribuir para a acumulação de gases, pois é muito variável de pessoa para pessoa.
Contudo, indica que «a maior parte das situações deve-se à grande quantidade de alimentos ingeridos – tente-se fazer várias pequenas refeições ao longo do dia – ao facto de se beber pouca água e de se comer pouca fruta e hortaliças. Há alimentos mais propensos que outros, tais como o pão em excesso, alguns produtos lácteos, as refeições pesadas, as frutas secas, o abuso dos molhos ou os enchidos».
António Marques avança outro conselho, que atenua a acumulação de gases, ao mesmo tempo que contribui para o melhor funcionamento do intestino:
«Deve-se variar o tipo de alimentos ao longo das semanas ou dos dias. Por exemplo, em vez de todos os dias se comer os mesmos flocos ao pequeno–almoço, deve-se comer, num dia duas torradas com manteiga e um copo de leite e num outro dia fruta e um iogurte. Assim como se devem variar as refeições principais, nos seus constituintes».
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