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Evite o enfarte e o AVC » Artérias doentes » “Sobreviver não basta. É preciso viver!”

Estão a pedir-me umas palavras sobre o tema da doença coronária “14 de Fevereiro, dia nacional do doente coronário” e “dia da insuficiência cardíaca”.

A esse respeito gostaria de dizer que é muito importante haver um “dia da doença coronária”, para se explicar o que é, e para se recordar que a doença coronária faz parte de uma doença vascular generalizada que pode obstruir as artérias, e pode obstruir preferencialmente os vasos coronários, transformando uma doença silenciosa numa doença clínica.

Obviamente essa doença vascular atingiu outros vasos também, seja a grande aorta, sejam as artérias que vão para o cérebro, sejam os vasos que vão para os membros inferiores – é a aterosclerose!

Foi por isso muito ignorante aquele doente que tivemos no Instituto que dizia para a médica que o tinha mandado operar às coronárias (que lhe estavam a provocar dor anginosa) e ele dizia: pronto, agora já não me importo, já posso fumar e fazer a vida que gosto, já fui operado, não sinto nada, e já sei que se sentir vocês arranjam-me outra vez as artérias e vou-me embora de novo. Isto demonstra um desconhecimento total do que é o problema da aterosclerose: é uma doença de todo o sistema vascular, no seu lado arterial, e que pode causar um sem número de manifestações clínicas, seja a doença coronária, seja a doença vascular cerebral que também está lá mas ainda não provocou sintomas, mas podem aparecer pouco depois de um by-pass coronário e provocar um AVC.

“Pronto, agora já não me importo, já posso fumar e fazer a vida que gosto, já fui operado, não sinto nada, e já sei que se sentir vocês arranjam-me outra vez as artérias e vou-me embora de novo”, disse-me um dia um doente. Isto demonstra um desconhecimento total do que é o problema da aterosclerose.

O doente precisa de estar bem informado, para não se esquecer de seguidamente fazer a prevenção secundária e terciária da doença aterosclerótica, pois é candidato a ter novo enfarte do miocárdio ou um AVC: quem já teve enfarte ou trombose cerebral significa que tem as artérias doentes, tão doentes que uma delas obstruiu, e portanto é candidato a obstruir de novo outra artéria coronária, ou a trombosar outra artéria do cérebro.

E se a morte coronária é “limpa” isto é, pode nem causar dor, a pessoa pode morrer subitamente, ou ter um enfarte e morrer dias, meses ou anos depois, fazendo até lá vida normal.

A morte por AVC é muitas vezes deprimente, quando não mata logo, ou seja, se uma pessoa com um enfarte do miocárdio pode ter uma vida com actividade mais ou menos limitada, mas com um intelecto bom, uma pessoa com trombose cerebral, ficar muitas vezes com intelecto diminuído, com deficiências motoras ou da fala, e tudo isso é extremamente deprimente para o doente e para a família, e até para nós que o tratamos, independentemente de podermos conseguir pequenas melhorias, pequenas conquistas que poderão ir gradualmente ampliando as possibilidades motoras ou psíquicas da pessoa que sobreviveu.

Mas sobreviver não basta, é preciso viver, e um doente vascular cerebral, infelizmente, pode ficar grandemente diminuído e sem gosto algum pela vida que está a viver.

Insuficiência cardíaca: o “fim da picada”

Passemos então à insuficiência cardíaca. O que é? É hoje posta mais em destaque porque estão a sobreviver mais doentes com insuficiência cardíaca. Há muitas mais soluções terapêuticas e os múltiplos estudos clínicos que têm sido feitos têm trazido cada vez melhores medicamentos, permitindo assim aos doentes em insuficiência cardíaca sobreviver, e com intelecto bom, ainda que com grandes limitações físicas: são sobrevivências cada vez maiores e com menor sofrimento.

Todavia não nos esqueçamos da afirmação tantas vezes repetida: a insuficiência cardíaca é uma doença “maligna” que leva à morte em menos anos que muitas doenças cancerosas. É uma doença grave, que tem agora mais possibilidades terapêuticas, podendo permitir um prolongamento maior da vida do doente com muito menos sintomas que antigamente.

Todavia, o que eu quero acentuar hoje, junto de vós todos, é que a insuficiência cardíaca “é o fim da picada”, quer dizer é o términus da grande maioria das doenças cardíacas.

Daí a importância de haver dias dedicados a estas doenças, para recordar a importância delas, para fazer sentir aos governantes a importância de ajudar à sua terapêutica polimedicamentosa e de mais apoios, assim como a importância dos cuidados domiciliários e até alimentares dos doentes que já não são auto-suficientes, etc.

Carro avariado vai para a garagem ou para a sucata e compra-se outro. Mas doente avariado enche os nossos hospitais, sofre “estupidamente” e vem a morrer precocemente de doenças perfeitamente evitáveis, quer por hipertensão, quer por hipercolestolémia, ou por hiperglicemia.

Os utentes ou clientes só nos procuram para uma primeira revisão aos quarenta ou cinquenta anos, enquanto que com o seu carro, aos dez ou vinte mil quilómetros, já fizeram revisões completas.

Carro avariado vai para a garagem ou para a sucata e compra-se outro, mas doente avariado enche os nossos hospitais, sofre “estupidamente” e vem a morrer precocemente de doenças perfeitamente evitáveis, quer por hipertensão (medir a tensão, controlo do peso, controlo do sal e até do álcool), quer por hipercolestolémia, ou por hiperglicémia, doenças silenciosas descobertas a tempo com simples análises de sangue e não só, grandemente evitáveis pelo estilo de vida e passíveis das mais eficazes terapêuticas (quando descobertas precocemente), quer o fumo do tabaco, de que todos, até nós médicos, temos informação total que preferimos ignorar e do qual se dizia num Congresso da Organização Mundial de Saúde em Madrid, há uma vintena de anos, “pare de fumar” é o conselho mais importante que um médico pode dar, em toda a sua vida, a um seu doente, e que maior influência poderá ter na duração da sua vida e na qualidade dessa vida!

Faça um check-up cardiovascular precoce

Portanto, meus queridos amigos, lutem pelo check-up cardiovascular precoce, defendam um mínimo de atitudes e comportamentos mais saudáveis no que respeita à alimentação, actividade física ou desporto (com novo check-up ao reiniciá-lo após anos de inércia), identifiquem a tríade, tabaco, álcool e droga (e depois sida) e defendam os exames pré matrimoniais para bem das crianças que vão nascer, aconselhando os futuros mãe e pai a evitarem o tabaco e o álcool desde antes da concepção! E, por fim, chamem à vossa consulta todos os familiares saudáveis (dos doentes que vos apareçam com doença coronária ou insuficiência cardíaca em idade precoce (com menos de 60 ou 65 anos, homens ou mulheres). E não esperem que vos agradeçam suficientemente… porque não sabem o que fazem!

Professor Fernando de Pádua
Presidente do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva

Jornal do Centro de Saúde

www.cscarnaxide.min-saude.pt/jornal/

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