Perda total do olfacto » Cheiros e sabores inodoros
Atenção redobrada
São raros os casos clínicos de pessoas que nascem sem olfacto. Daí que, como esclarece o especialista do Hospital de Santa Maria, «não é fácil fazer um diagnóstico exacto do problema». O motivo é simples, «a via olfactiva é extensa e complexa, podendo a malformação congénita verificar-se a vários níveis, mesmo a nível celular», explica.
Amélia Moreira, 52 anos, não se lembra de algum dia ter tido olfacto. A única lembrança que tem de «cheirar» foi-lhe concedida através de um livro, O Perfume, de Patrick Süskind. Porém, no seu dia-a-dia, não são os livros que a ajudam a identificar os líquidos com que trabalha.
«Distingo o álcool, o éter e a água oxigenada pelo tacto», explica a técnica de Radiologia. As certezas são dadas pelos doentes: «Costumo dizer qual é o líquido e os doentes confirmam dizendo que sim, pois cheira». Sujeita a uma intervenção cirúrgica para raspar uns pólipos que obstruíam a cavidade que faz a ligação entre a boca e o nariz, nem assim conseguiu recuperar o olfacto.
Alberto Santos avalia que o tratamento não resulta em todos os casos porque «tudo depende da causa e do tempo que o sistema esteve sem funcionar». De qualquer forma, o clínico elucida que é essencial fazer uma avaliação completa de cada caso, sendo a história clínica do doente essencial para se poderem definir os exames complementares de diagnóstico a realizar.
«Antes de mais, temos de observar o nariz. Se a pessoa estiver constipada, é natural que os receptores, que se encontram no seu interior, fiquem escondidos, não conseguindo entrar em contacto com as partículas odoríferas, daí não sentirem o cheiro. Pode ainda dar-se o caso de o doente sofrer de uma rinite crónica e/ou a existência de pólipos que escondem os receptores. Neste caso, há que tratar a rinite de forma a que os receptores voltem a ficar expostos».
Diagnóstico reservado
De uma forma geral, a hiposmia e a anosmia são sintomas de doenças como a rinite, os pólipos nasais, ou até mesmo a consequência de uma virose, de um traumatismo craniano ou facial.
Para o médico, nem sempre é fácil identificar a causa exacta da anosmia, daí que, excluídas as hipóteses mais comuns, o passo seguinte consista em despistar doenças graves, como tumores cerebrais ou doenças degenerativas. Nestes casos, mais uma vez, conhecer a história clínica dos doentes é essencial.
«É despropositado e perigoso falar a um leigo que a perda de olfacto pode levar a um diagnóstico de tumor, da doença de Alzheimer ou Parkinson, pois estes casos são muito raros, sendo ainda mais raro que a perda de olfacto se apresente como o primeiro sintoma deste tipo de doenças. Por outro lado, e devido à sua gravidade, estas causas são sempre excluídas durante a investigação clínica», remata o clínico.

