Existe uma relação muito íntima entre a obstipação e o consumo de fibras na alimentação. De facto, sabe-se que uma alimentação pobre em fibras e rica em gordura é uma das causas mais frequentes, se não mesmo a principal, da prisão de ventre.
A obstipação é considerada uma doença que deriva de hábitos de um quotidiano agitado que retira tempo a tudo, adiando ao máximo até o momento de evacuar as fezes. E devido a uma dieta alimentar em que as fibras foram relegadas para segundo plano.
É mais frequente no mundo ocidental, que em regiões menos desenvolvidas, e atinge duas vezes mais as mulheres do que os homens, até porque a obstipação é frequente durante a gravidez. Além disso, incide sobretudo nas faixas etárias mais avançadas, o que a torna um problema muito comum aos idosos.
Falamos em obstipação, de uma forma geral, quando a dificuldade em evacuar se prolonga por vários dias, quando as fezes são duras e secas, exigindo um grande esforço para a sua expulsão. Não é, contudo, possível estabelecer um padrão, pois tanto a frequência das evacuações como a consistência das fezes variam de indivíduo para indivíduo.
Deste modo, a obstipação assume, por assim dizer, um carácter subjectivo, de acordo com os hábitos intestinais de cada indivíduo. O doente queixa-se quando tem a percepção de que esses hábitos se alteraram, quer quanto ao número de vezes em que evacua, quer quanto à dureza das fezes. Pode ainda queixar-se de inflamação na zona do ânus, hemorróidas e fissuras. Qualquer uma destas situações pode ser simultaneamente consequência e causa da prisão de ventre, já que, ao provocarem dor, podem levar o indivíduo a adiar o momento de satisfazer aquela que, afinal, é uma necessidade fisiológica natural. É uma espécie de ciclo vicioso, porque as fezes acabam por permanecer ainda mais tempo no intestino, perdem água e tornam-se ainda mais duras.
Na maioria das vezes, a obstipação é uma disfunção intestinal benigna, ou seja, não corresponde a qualquer lesão no intestino. Trata-se, sim, de um problema funcional, na medida em que o processo de defecação não funciona normalmente. Em parte, isso deve-se à própria posição erecta do homem, que dificulta a progressão do conteúdo do cólon. Uma dificuldade que se justifica pelo facto de este órgão do aparelho digestivo apresentar a forma de um “U” invertido.
Não é grave mas é frequente
Raramente a obstipação é um problema de saúde grave, apesar de muito frequente. E na verdade é cada vez mais comum, sobretudo nas sociedades modernas em que a falta de tempo é crónica. É que a maioria dos casos de prisão de ventre é originada pelo hábito de não obedecer à vontade de defecar. E porquê? Porque, devido à intensidade das rotinas diárias, muitas vezes pura e simplesmente não há tempo. Há sempre tarefas a desempenhar, que adiam o mais possível o momento de ir à casa de banho.
A correria começa logo cedo, em casa. Toma-se o pequeno-almoço a correr e ignora-se uma regra essencial para um funcionamento saudável dos intestinos: libertar as fezes, obedecendo a um movimento natural do organismo, o chamado reflexo gastrocólico.
Ao longo do dia, a situação repete-se, e tantas vezes é só à noite, já em casa, que se satisfaz a necessidade orgânica de defecar. Há outra razão que contribui para este adiamento: as deficientes condições higiénicas de muitos sanitários públicos, nas escolas e nos locais de trabalho.
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Frequentados por muitas pessoas, limpos menos vezes do que seria desejável, são pouco convidativos. Com o tempo, esta supressão da vontade de defecar acaba por se tornar crónica. O organismo habitua-se e elimina o reflexo natural de libertar as fezes. Uma vez ou outra adia-se o momento, sem que isso prejudique a evacuação. Mas quando o adiamento se torna uma rotina, dá lugar à prisão de ventre.
Outro factor responsável pela obstipação é a dieta das sociedades ocidentais, altamente nutritivas mas pobres em fibras, com uma percentagem insuficiente de resíduos. Isto significa que os alimentos acabam por ser digeridos e absorvidos na quase totalidade, pouco sobrando para desencadear os mecanismos reflexos necessários à propulsão do conteúdo intestinal.
São as fibras, contidas nos legumes e outros vegetais (que devem ser consumidos de preferência crus) e nos cereais integrais, que favorecem esses reflexos, proporcionando um bom funcionamento dos intestinos.
A idade conta
A obstipação prevalece nas faixas etárias mais avançadas. Nelas existe uma diminuição natural do poder de expulsão das fezes, pelo facto de os músculos envolvidos estarem debilitados. Além disso, é frequente que os idosos mantenham hábitos alimentares deficientes, quer porque a falta de dentes já não lhes permite mastigar determinados alimentos, quer por falta de interesse na própria comida. Do mesmo modo, ingerem poucos líquidos e, muito provavelmente porque vivem sós, acabam por fazer refeições irregulares.
O elevado consumo de medicamentos, característico nestas idades, pode contribuir também para a prisão de ventre, o que é agravado pelo facto de muitas vezes os idosos estarem acamados durante períodos longos.
É verdade que, por vezes, as queixas de prisão de ventre feitas pelos idosos são fictícias. Este é um problema que os preocupa e que, mesmo que não seja real, os leva a recorrer demasiado a laxantes. Com isso, o intestino acaba por ser tornar preguiçoso e só funciona com “ajuda”.
Também as grávidas são “vítimas” comuns da prisão de ventre, em parte pela acção das hormonas sobre os músculos. Durante a gestação, poderão surgir alterações nos hábitos gastro-intestinais, devido a uma adaptação do organismo à nova condição da mulher. Os vómitos e enjoos matinais são a face mais visível dessas alterações, mas pode igualmente ocorrer diarreia ou obstipação.
A “culpa” é das hormonas, neste caso da progesterona, que actua sobre os chamados músculos lisos, relaxando-os. Nos intestinos, a consequência é uma diminuição dos movimentos peristálticos, os que agem sobre os resíduos alimentares que vão ser expulsos na forma de fezes.
O aumento do volume uterino e a pressão que exerce sobre a parte inferior do abdómen podem contribuir igualmente para este problema, sendo certo que as mulheres que antes de engravidar já eram propensas têm mais probabilidade de agora se queixarem de prisão de ventre.
Fibras e água
O objectivo do tratamento é restabelecer o normal funcionamento do intestino, o que pode ser atingido através de medidas dietéticas e da utilização de medicamentos laxantes.
A maioria dos doentes, aliás, responde bem à simples alteração dos hábitos alimentares, raramente se tornando necessário recorrer aos laxantes. A excepção a esta regra são as pessoas idosas, pois o ritmo intestinal de muitas delas já está dependente de laxantes.
No campo da dieta alimentar, há que aumentar o consumo de substâncias não digeríveis – pão integral, frutas e legumes crus, por exemplo, além da ingestão diárias de muitos líquidos, com um copo suplementar de água de manhã e à noite.
No sentido de regularizar o ritmo intestinal, deve-se reservar cerca de dez minutos por dia para treinar os músculos que entram no processo de expulsão das fezes. Deve sentar-se na sanita, de joelhos erguidos, e tentar provocar a evacuação. Um gesto a repetir vários dias seguidos até que o intestino retome a normalidade.
Porém, pode ser necessário recorrer a laxantes, mas sempre em doses reduzidas, apenas as indispensáveis para produzir uma evacuação normal. É importante evitar a dependência, pelo que, assim que o intestino recuperar o seu ritmo, deve ser suspenso o uso dos laxantes.
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São três os tipos principais de laxantes: por aumento do volume fecal (expansores de volume), estimulantes ou irritantes do intestino (de contacto) e amolecedores das fezes e agentes de secreção (osmóticos).
Existe um outro grupo, os emolientes, que tem mecanismo de acção sobreponível aos de contacto. Vejamos como funciona cada um. Os laxantes por aumento do volume fecal são constituídos por fibras capazes de absorver água e aumentar o conteúdo intestinal. E embora sejam apelidados de laxantes, na verdade o que são é fibras não digeríveis que provocam a evacuação de fezes moles e sólidas. Como efeito secundário, pode ocorrer uma sensação de distensão abdominal ou a formação de gases, mas tendem a dissipar-se ao longo do tratamento.
Já os estimulantes ou irritantes do intestino são laxantes que actuam sobre os movimentos do intestino, facilitando a passagem da massa fecal.
Devido à sua acção rápida, são usados habitualmente em situações em que a obstipação decorre de stress ou de alterações à rotina, como uma viagem, ou em situações em que a pessoa não pode fazer força para evacuar, como no caso das grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz.
Finalmente, os amolecedores de fezes são os mais adequados para pessoas idosas ou acamadas. Em cerca de dois dias, estes laxantes aumentam o peso, volume e teor da água nas fezes, de que resultam fezes mais moles e, portanto, mais fáceis de evacuar para as pessoas naquelas circunstâncias.
Independentemente do tipo, os laxantes devem ser usados por curtos períodos de tempo, pelo que se o problema persistir deve ser consultado um médico. Devem ser o último e não o primeiro recurso perante um episódio de prisão de ventre.
Educar o intestino é uma alternativa recomendada e que passa, nomeadamente, por ir à casa de banho sempre na mesma altura do dia. A seguir ao pequeno-almoço é o ideal, pois o funcionamento intestinal aumenta ao acordar. Igualmente importante é respeitar a vontade de ir à casa de banho, evitando adiá-la.
Ainda no campo dos conselhos, beber água, muita água, e aumentar o consumo de alimentos ricos em fibras é a melhor receita. Frutas, legumes e cereais integrais serão os seus melhores aliados no combate e na prevenção da prisão de ventre.
Casos mais ligeiros
Na maioria das vezes, a obstipação é uma disfunção intestinal temporária, bastando algumas medidas dietéticas simples e ajustar hábitos de vida para o trânsito intestinal voltar ao normal.
No topo dessas medidas encontra-se a ingestão de alimentos ricos em fibras, entre eles fruta, legumes e cereais integrais.
É que as fibras fazem aumentar o volume das fezes e retêm uma certa quantidade de água nos intestinos, o que estimula as contracções musculares que conduzem a sua expulsão.
Além disso, a água amolece as fezes, pelo que a ingestão diária de líquidos é igualmente recomendada.
Há, portanto, que aumentar o consumo dos alimentos que podem fornecer a quantidade de fibras necessárias, incluindo, por exemplo, arroz integral, aveia e trigo na alimentação.
No início, o organismo pode reagir a este acréscimo de ingestão de fibras, através de uma sensação de enfartamento, de espasmos abdominais ou de flatulência (gases). No entanto, acaba por se acomodar e estes sintomas vão desaparecendo.
O melhor é introduzir as fibras gradualmente na alimentação, para que não haja grande desconforto. A pouco e pouco, graças às fibras e à água, a pessoa vai-se libertando da prisão de ventre.
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
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