Portugal não se afasta significativamente dos seus parceiros da União Europeia no que toca à incidência e prevalência de doenças respiratórias profissionais.
Ao contrário do que acontece com as lesões musculares ou esqueléticas relacionadas com o trabalho (sobretudo devido ao tipo de trabalho particularmente repetitivo e cadenciado que se pratica na maior parte das linhas de montagem a nível industrial), persiste um desconhecimento generalizado que nos coloca perante uma realidade algo desconhecida. Apesar de possuírem uma elevada repercussão na qualidade de vida dos trabalhadores, estamos perante um grupo de doenças respiratórias que se encontram subavaliadas.
Entre as doenças profissionais respiratórias mais notificadas como tendo a sua origem/agravamento na actividade profissional ou no ambiente em que esta é desenvolvida, destacam-se a asma ocupacional, as pneumonites de hipersensibilidade e as pneumoconioses.
A asma ocupacional é cada vez mais reconhecida como uma importante causa de doença profissional e de incapacidade para o trabalho. Os seus números têm vindo a aumentar a nível internacional, com particular impacto nos países mais industrializados. Trata-se de uma doença caracterizada por limitação variável do fluxo aéreo ou hiper-reactividade brônquica que tem origem nas condições de trabalho não favoráveis. A asma ocupacional pode persistir até mesmo vários anos após a remoção da exposição ao agente causal, principalmente quando o paciente teve sintomas por um longo período antes da cessação da exposição.
Face a esta realidade é fundamental que exista um sistema de vigilância nos locais de trabalho, assegurado por médicos do trabalho e por técnicos de higiene e segurança, de modo a promover a melhoria das condições de trabalho pela eliminação de substâncias nocivas e pela implementação de sistemas de ventilação que permitam aumentar a qualidade do ar.
Uma outra patologia que não deve ser ignorada é a pneumonite de hipersensibilidade. Trata-se de uma patologia que faz parte de um grupo de doenças pulmonares que resultam da inalação repetida de certos antigénios dispersos num determinado ambiente. Não se trata de uma doença uniforme, mas sim de uma síndrome complexa caracterizada por diferentes intensidades de resposta a diferentes antigénios, levando a uma imunopatologia com apresentação clínica variável.
As pneumoconioses, das quais a de maior impacto em Portugal continua a ser a silicose, são processos patológicos do pulmão que resultam da acumulação de partículas inorgânicas minerais em meio ocupacional. Os trabalhos de maior risco são desenvolvidos em ambientes como minas e pedreiras, cerâmicas, decapagens com jacto de areia, abertura de poços e galerias e construção civil. No caso concreto da silicose, estamos perante uma doença pulmonar causada por inalação de sílica ou de poeiras minerais que contenham silicatos, substância presente em grande parte das indústrias que abrangem as mais variadas profissões. Clinicamente, a doença apresenta formas e graus de gravidade diferentes, dependendo da intensidade e duração da exposição, da natureza e características das partículas de sílica inaladas, da presença ou não de materiais orgânicos ou inorgânicos na poeira e da associação com outras doenças como a tuberculose e a artrite reumatóide.
Reconhecer a atribuição de incapacidades
Em Portugal, é ao Centro Nacional de Protecção contra os Riscos Profissionais que compete o reconhecimento e a atribuição de incapacidades resultantes de doença profissional. Consideram-se doenças profissionais todas aquelas cuja origem esteja relacionada com a actividade ou o ambiente em que a mesma se desenvolve. Apesar do esforço que tem vindo a ser desenvolvido no sentido de identificar determinadas patologias, nem sempre existe uma associação directa da causa/efeito. Em termos futuros, preconiza-se um esforço global de melhoria contínua das condições de saúde e segurança no trabalho de forma a minimizar o risco e impacto das doenças profissionais em Portugal, nomeadamente na sua vertente respiratória.
Dr. António Jorge Ferreira, Centro de Pneumologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra
Jornal do Centro de Saúde
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