Hipertensão arterial, colesterol, tabagismo e dietas hipercalóricas: saiba como proteger o seu coração dos factores de risco cardiovasculares. As dicas são dadas por quatro especialistas da Fundação Portuguesa de Cardiologia, instituição que está em plena comemoração do 25.º aniversário.
«A hipertensão arterial é o problema de saúde pública número um», avança o Prof. Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC). A prová–lo estão as estimativas do Banco Mundial e da Organização Mundial de Saúde, «que prevêem que no ano de 2020 as doenças cardiovasculares continuem a ser a principal causa de morte e incapacidade a nível mundial», fundamenta o cardiologista. Em Portugal, existem 400 mil hipertensos, sendo que apenas 11% do total de doentes tratados estão controlados.
Considera-se que um indivíduo é hipertenso quando tem uma pressão arterial repetidamente superior ou igual a 140 mgHg para a sistólica e/ou 90 mgHg para a diastólica.
«No entanto, para certos doentes, como os diabéticos, renais ou com doença cardiovascular, recomenda-se que devam ter valores mais baixos», explica o especialista, fundamentando:
«Está bem provado que o risco cardiovascular aumenta à medida que os níveis de pressão arterial são mais elevados».
Por outro lado, os grandes estudos de tratamento da hipertensão arterial comprovam ser possível reduzir o risco de acidente vascular cerebral em mais de 40%, de insuficiência cardíaca em 50% e de enfarte do miocárdio em 26%.
Os riscos associados à hipertensão arterial são claros, provocando lesões nos órgãos-alvo, ou seja, «no cérebro, no coração e no rim».
Por exemplo, um acidente vascular cerebral (AVC), hoje a principal causa de morte e incapacidade em Portugal, ocorre quando uma das artérias que levam o sangue ao cérebro bloqueia, quer devido à formação de um coágulo quer a ruptura arterial, deixando o cérebro de receber o fluxo de que necessita.
«As células nervosas da área afectada deixam de funcionar, podendo morrer em poucos minutos», diz Manuel Carrageta, continuando:
«As partes do corpo comandadas por aquelas células ficam paralisadas total ou parcialmente, muitas vezes para o resto da vida.»
De acordo com o cardiologista, «cerca de 70% dos AVC são devidos à hipertensão arterial», sendo este um problema largamente evitável. Daí que considere que a prevenção e o controlo desta «constitui um desafio de saúde pública que deve ser enfrentado com o maior vigor pela comunidade médica e pelo Serviço Nacional de Saúde».
Controlar ou, idealmente, evitar a hipertensão arterial implica grande empenho e motivação por parte do doente. Isto porque terão de ser introduzidas alterações no estilo de vida, que implicam «perder o excesso de peso, reduzir o consumo de álcool e de sal e praticar regularmente actividade física, bem como, em muitos casos, fazer medicação diária, durante muitos anos», refere o especialista.
Existem razões para se pensar que o sal desempenha um papel especial neste grande problema de saúde pública, dado que o consumo médio por dia, em Portugal, é de cerca de 18 grama, bastante superior aos valores consumidos nos restantes países da União Europeia.
«Bastaria reduzir o consumo diário de sal em 3 grama para ocorrer uma descida de cerca de 10 mm/Hg da pressão arterial, que se traduziria numa redução na incidência de AVC de 22% e de doença coronária de 16%», avança Manuel Carrageta.
OMS: colesterol mata seis milhões de pessoas todos os anos
De acordo com a Fundação Portuguesa de Cardiologia, cerca de 60% dos portugueses têm colesterol em excesso, acima dos valores recomendados pelas organizações científicas europeias e norte-americanas, os 190 mm/dl. Cerca de 68% têm valores iguais ou superiores a 190 mg/dl e um grupo de 24% apresenta números superiores a 240 mg/dl.
Para o presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose, Dr. Pedro Marques da Silva, «qualquer indivíduo com 30 anos deve conhecer o seu perfil lipídico, onde estão incluídos os valores de colesterol». Isto porque o risco de desenvolver uma doença coronária vai aumentando à medida que os valores de colesterol aumentam no sangue.
Contudo, frisa Pedro Marques da Silva, «convém não esquecer que o ambiente sociocultural e económico mudou, o sedentarismo é cada vez mais marcante e o contacto com novas etnias e hábitos de vida é maior», factores que promovem o aumento da incidência de factores de risco para a doença cardiovascular, tais como o colesterol.
Este é um produto natural, produzido pelo organismo. Trata-se de uma gordura que entra na membrana de todas as células do corpo, para além de ser um elemento fundamental para a produção de determinadas hormonas ou da formação dos sais biliares.
Existem dois tipos de colesterol: o HDL, ou bom e o LDL, ou mau. O primeiro tem um papel de limpeza, retirando a gordura das paredes das artérias. O segundo é, precisamente, o que se deposita no interior dos vasos, conduzindo à aterosclerose.
«Quando em quantidade excessiva o colesterol torna-se um potencial risco para a saúde», avança Pedro Marques da Silva, «podendo ser responsável pelo aparecimento de doenças cardiovasculares, como enfarte do miocárdio, angina de peito e acidente vascular cerebral, entre outros».
Isto acontece porque, quando os níveis de colesterol estão demasiado altos, acelera-se o processo de desenvolvimento dos depósitos de gordura nas paredes das artérias.
Este mecanismo vai dar origem a placas de gordura no interior das artérias, placas estas que, gradualmente, vão obstruindo estes canais, lenta e progressivamente, tornando cada vez mais difícil a passagem do sangue. A este fenómeno chama-se aterosclerose.
Pedro Marques da Silva aconselha a tomar medidas, começando por uma dieta equilibrada:
«Deve dar-se preferência às gorduras monoinsaturadas, em detrimento das gorduras polinsaturadas.»
Por exemplo, os molhos, a manteiga e o sal podem ser substituídos por ervas aromáticas, especiarias e sumo de limão, assim como iogurtes e queijos magros podem substituir cremes ácidos e a maionese.
Os métodos de confecção mais recomendados são o cozido, grelhado e assado, em vez dos fritos. No contexto da alimentação, Pedro Marques da Silva fala da «acessibilidade» do cidadão à saúde:
«Quando um médico ou o sistema de saúde fala na importância de comer peixe em relação à carne, o preço do peixe sobe de imediato, tornando-o inacessível a uma importante camada da população.»
Porque é que o tabaco faz mal?
Fumar eleva a tensão arterial e aumenta a frequência cardíaca. Também promove o aumento da adesividade das plaquetas e do número de glóbulos vermelhos e, por consequência, o sangue torna-se mais viscoso. Todas estas alterações vão promover a deterioração do estado da saúde do fumador, que passa a andar mais cansado, além de se habilitar a sofrer um enfarte ou um acidente vascular cerebral.
«Os cinco a seis litros de sangue que temos a circular no corpo passam a ter de movimentar-se em menos espaço, porque as artérias ficam mais estreitas devido à acumulação de placas de aterosclerose no interior das artérias», explica o Dr. Luís Negrão, médico de Saúde Pública da FPC.
Por outro lado, «o monóxido de carbono é um gás que ocupa teimosamente o lugar do oxigénio nos glóbulos vermelhos, agarra-se mais rapidamente à molécula de hemoglobina», avança o especialista.
«Isso quer dizer que a capacidade de transporte de oxigénio fica diminuída», chegando assim a sensação de cansaço típica dos fumadores. Então, o organismo aumenta a produção de glóbulos vermelhos para compensar esta lacuna. Assim, «passam a existir mais glóbulos vermelhos, o que vai aumentar a viscosidade do sangue», reforça Luís Negrão.
Os membros inferiores também podem ser afectados pelo consumo de tabaco, nomeadamente, devido à insuficiência arterial, que pode levar à gangrena e amputação de membros. Tudo isto devido aos valores de colesterol que os fumadores apresentam – o total muito elevado, o HDL (que limpa a gordura que se acumula na parede das artérias) muito baixo –, que levam à formação de uma placa aterosclerótica.
«Quando a gordura se deposita no interior das artérias dos membros inferiores, temos a claudicação intermitente. Quando ocorre nas artérias do coração dá origem ao enfarte do miocárdio ou angina de peito. Numa terceira hipótese, quando o colesterol se deposita nas artérias cerebrais, pode conduzir ao acidente vascular cerebral», esclarece Luís Negrão.
Também o aparelho respiratório é afectado pelo consumo de tabaco. Uma das consequências que podem surgir é o enfisema pulmonar, fenómeno que contribui para aumentar o cansaço.
«O fumador produz mais muco do que os não fumadores e, para além disso, é mais incapaz de o expelir, o ar não é renovado, os alvéolos ficam dilatados, não funcionam, e o ar que está dentro dos pulmões não é completamente renovado. Estes indivíduos ficam sem capacidade de fazer chegar o oxigénio aos glóbulos vermelhos e, logo, cansam-se com facilidade», concretiza o especialista.
Mais mulheres fumadoras
De acordo com o último Inquérito Nacional de Saúde de 1998/1999, 19% dos portugueses são fumadores. O mesmo trabalho mostrou que para cada um dos grupos etários situados entre os 15 e os 45 anos, «a percentagem de fumadoras é maior do que a percentagem de fumadores», diz Luís Negrão.
Quanto aos indivíduos que nunca fumaram nem experimentaram, são mais os rapazes do que as raparigas.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, «as despesas dos agregados familiares em Portugal relativamente ao tabaco tem vindo a aumentar e quanto maior for o nível de escolaridade dos indivíduos, menor os consumos das famílias em tabaco», remata Luís Negrão.
50% dos portugueses com excesso de peso
Má dieta despoleta factores de risco
A dieta pode ser determinante na prevenção de doenças cardiovasculares. Isto porque, «uma má alimentação pode desencadear vários factores de risco para a doença cardiovascular. O peso aumenta, pode chegar-se à obesidade e aumentam os valores de colesterol e da pressão arterial», esclarece a Dr.ª Elsa Feliciano, assessora de Nutrição da Fundação Portuguesa de Cardiologia.
De acordo com os estudos mais recentes, cerca de 50% dos portugueses tem excesso de peso e, destes, cerca de 15% é obeso. A explicação para estes números está, diz Elsa Feliciano, nas «profundas alterações que se registaram na dieta e na prática de exercício físico nos últimos 25 anos em Portugal».
Por exemplo, os horários para comer mudaram, perdendo-se as merendas e as ceias para se caminhar claramente para apenas três refeições por dia, sendo o jantar a refeição a que se come mais.
«As pequenas refeições são muito importantes, na medida em que funcionam como controladoras do apetite para as refeições principais», explica Elsa Feliciano, acrescentando:
«Além do mais, hoje em dia substitui-se com muita facilidade alimentos conhecidos por novos produtos, publicitados pela indústria alimentar, sem se conhecer bem as suas características.»
Esta facilidade em experimentar o que é novo leva a que se coma, todos os dias, alimentos de que o organismo não necessita.
«Há trocas que não são benéficas como, por exemplo, substituir pão por bolachas de água e sal ou pães de leite, alimentos com mais calorias», salienta a nossa interlocutora.
Respeitar a Roda dos Alimentos
«Quando queremos emagrecer não devemos tirar fatias à roda dos alimentos», avisa a nutricionista, frisando a necessidade de comer um pouco de tudo, sempre com moderação. Aliás, é este o segredo para uma alimentação saudável: dosear bem os vários alimentos, fazendo uma dieta diversificada e equilibrada.
«Não há alimentos proibidos, é preciso é saber doseá-los», reforça Elsa Feliciano.
Na opinião da especialista, outro factor importante é a água: «deve beber-se muita água, com ou sem sede». As necessidades de água podem variar entre 1,5 e 3 litros por dia.
Quanto aos pais, Elsa Feliciano aconselha a que estes tentem estar a par do que os filhos comem quando não estão com eles.
«Enquanto estão no jardim-de-infância, é muito fácil controlar o que comem. Mas quando passam a ter mais autonomia, tudo muda. Muitas vezes, o dinheiro da refeição é gasto em doces ou outros alimentos que não são benéficos para a saúde», alerta a especialista.
É imperativo fazer um jantar saudável, por ser uma forma de contornar as avarias feitas durante o dia.
Segundo Elsa Feliciano, «é determinante incentivar os mais pequenos a comer sopa e a fazer várias refeições por dia».
Conselhos a reter
1. Consumir diariamente produtos hortícolas e fruta (sob a forma de sopa, saladas ou acompanhamento do prato principal);
2. Consumir, nas várias refeições do dia, farináceos (pão nas refeições intermédias, arroz, massa, feijão ou grão nas refeições principais);
3. Comer mais peixe do que carne (uma pequena quantidade de carne por cada refeição é suficiente);
4. Cuidado na selecção das gorduras ingeridas;
5. Fazer cinco a seis refeições por dia.
O que comer
e em que proporções?
A Nova Roda dos Alimentos é composta por sete grupos de alimentos, todos com diferentes dimensões, os quais indicam a proporção de peso com que cada um deles deve estar presente na alimentação diária:
• Cereais e derivados, tubérculos – 28%
• Hortícolas – 23%
• Fruta – 20%
• Lacticínios – 18%
• Carnes, pescados e ovos – 5%
• Leguminosas – 4%
• Gorduras e óleos – 2%
Rosalina Grilo
Medicina & Saúde®
www.jasfarma.pt