X
    Categories: EspecialidadesInformaçõesPsiquiatria

Desabafar (des)gostos para a tela

O TESTEMUNHO DE SÓNIA ISIDORO, 27 ANOS, VÍTIMA DE DEPRESSÃO E DE ANOREXIA

Sónia Isidoro descobriu ter dotes artísticos durante o seu processo de reabilitação física e psicológica. Após a descoberta, não parou de dar largas à sua veia de pintora.
«O Jarro», «A Ceifeira», «Mil e Uma Noites», «Erupções», «Dias Felizes», «Deusa dos Sonhos» são apenas seis títulos das 20 telas de Sónia Isidoro, pintadas nas sessões de Terapia Ocupacional, durante 2004 e 2005, e expostas para venda em Janeiro último, no átrio principal do Hospital de Nossa Senhora do Rosário (Barreiro).
A autodidacta só vendeu um quadro. Porém, não foi a venda das obras o objectivo principal da iniciativa. Além de servir para sensibilizar médicos, utentes e visitantes para a problemática da Saúde Mental, contribuiu igualmente para o ainda decorrente processo de reabilitação da autora das obras.
Todavia, antes de se tornar na protagonista da exposição, percorreu um longo e difícil caminho…

Um dia de cada vez

Sónia Isidoro nasceu em Lisboa há 27 anos, vive com os pais no Barreiro e há um ano que frequenta o Hospital de Dia do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Nossa Senhora do Rosário.

«Comecei a ser seguida por uma psicóloga porque tinha uma depressão. Mais tarde, foi ela que detectou indícios de anorexia nervosa», diz esta jovem, continuando:

«Julgava-me gorda e só as outras pessoas é que notavam a minha magreza. Havia alturas em que recuperava peso, mas rapidamente voltava a perdê-lo. Creio que tenho esta patologia desde os meus 13 ou 14 anos e nem sei porque começou.»

Sónia admite que ainda é anoréctica, mas confessa sentir-se mais equilibrada no que diz respeito à alimentação.

Quanto à auto-estima, comenta:

«Embora a exposição e a pintura tenham contribuído para levantar a auto-estima, é complicado porque continuo um pouco em baixo. Estive muito tempo em depressão, por isso tenho a noção de que não é de um dia para o outro que vou ficar com a auto-estima elevada e olhar-me ao espelho e sentir-me bem.»

E continua:

«Mas vou conseguir… tenho de viver um dia de cada vez. Se quem sofre de uma doença como esta quer tudo de uma vez e eleva o ego de repente só porque melhora, e por isso julga que já está muito bem, ao fim de algum tempo volta ao mesmo.»

Desabafar para a tela

«Sinto muita coisa, é uma espécie de fuga a certos pensamentos», menciona Sónia Isidoro, referindo-se à actividade que recentemente descobriu nas sessões de Terapia Ocupacional.

A jovem, que tem como pintora preferida Frida Kahlo, completa:

«Para certas pessoas, a pintura é uma distracção; para mim, é um refúgio de pensamentos negativos, é um modo que encontrei para me controlar, para desabafar. É também uma terapia, iniciada com a terapeuta Ana Marques, que faz parte da minha reabilitação.»

Talvez por serem desabafos é que tenha sido estranho para a Sónia ter exposto «partes de si própria» para anónimos.

«As pinturas são aquilo que sinto, que sou, são também aquilo que digo aos técnicos nas sessões terapêuticas», confessa a autora dos 20 quadros, acrescentando:

«É provável que quem viu as pinturas não fizesse a mínima ideia do significado das mesmas. Viam “coisas” desenhadas, mas eu sei o estado de espírito com que estava, o dia em que pintei determinada tela e a fase do tratamento. Expor os quadros foi como “cuspir” pedaços de mim.»

De facto, a exposição foi mais uma fase da sua reabilitação.

«Levámos a ideia da exposição em conjunto. Depois, o projecto concretizou–se, mas só na altura em que vendeu o primeiro quadro é que a Sónia teve a concretização e a consciência exacta desta iniciativa», explica a Dr.ª Ana Marques, terapeuta ocupacional do Hospital de Nossa Senhora do Rosário (Barreiro).

A este respeito, Sónia comenta:

«Quando vendi o primeiro quadro (“O Jarro”), não fiquei contente com o dinheiro, mas sim porque uma pessoa estranha gostou e deu o devido valor a algo que fiz. Além disso, pela maneira como falou, julgo que compreendeu o meu trabalho e com que objectivos e sentimentos fiz a exposição.»

Como reforça Ana Marques, «o objectivo da exposição era realmente a afirmação pessoal e o reforço da auto-estima da Sónia e posso dizer que isso foi conseguido».

Acordar para a vida

A descoberta de um dom artístico não foi o único benefício para esta utente do Hospital Nossa Senhora do Rosário.

«Quando iniciei o tratamento era um “bicho-do-mato”, não conseguia fazer nada, não via futuro e não me conseguia equilibrar como pessoa», conta Sónia Isidoro.

Acontece que, em pleno século XXI, ainda existem estigmas e preconceitos por parte da sociedade em relação a quem sofre de uma doença do foro psicológico.

«Muitas pessoas pensam que quem tem problemas mentais não tem capacidade para fazer nada. Julgam que estamos perdidos, vêem-nos como uns “coitadinhos” que têm de ser entorpecidos com comprimidos e rotulam-nos como malucos porque vamos ao psiquiatra. Na terapia ocupacional aprendemos que não é bem assim, aprendemos a fugir aos medos, a controlá-los e a combatê-los, a descobrir talentos, a planear o futuro, a comunicar, e constatamos que somos aptos para o mundo escolar ou laboral», desabafa Sónia, prosseguindo:

«Através da terapia ocupacional, descobri facetas que não conhecia, pois, há certos aspectos que só se fica a conhecer se existir alguém que consiga incentivar pela positiva e aqui encontrei muitas pessoas que me ajudaram nesse sentido. Vimos para cá como que adormecidos para a vida, depois começamos a acordar.»

Quando terminou o 12.º ano, a admiradora de Frida Kahlo tirou um curso técnico de Informática. Foi igualmente na terapia ocupacional que descobriu não ser essa a sua vocação.

Apesar de ainda não se sentir preparada para ingressar no mercado de trabalho, revelou que vai procurar emprego nas áreas com as quais mais se identifica.

«Gosto de trabalhar com crianças, de pintura, de artes. Gostava de trabalhar numa galeria de arte, por exemplo», reforça Sónia Isidoro.

Por enquanto, ainda frequenta o Hospital de Dia, essencial para a sua reabilitação, com acompanhamento do psiquiatra, enfermeiro, terapeuta ocupacional e nutricionista. Porém, está para breve o dia em que deixará de ter esta dependência diária para começar a usufruiu de apoio apenas esporadicamente.

No que diz respeito à pintura, Sónia tem a noção clara de que a vida de artista não é fácil, por isso deseja continuar a pintar, mas como actividade lúdica.

O terapeuta ocupacional reabilita o doente para a função

Integração na família, na sociedade, no emprego ou na escola. Esta é a meta dos terapeutas ocupacionais, que actuam ao nível da avaliação (diagnóstico) e ao nível de tratamento dos doentes.

São profissionais de reabilitação que estão integrados numa equipa multidisciplinar. Por exemplo, no Hospital do Barreiro, além da Dr.ª Ana Marques, a equipa é composta por um psiquiatra, um enfermeiro e uma psicóloga clínica. Caso se justifique, os doentes podem também ser acompanhados por outro especialista. Veja-se o caso da Sónia, que recebe apoio de uma nutricionista.

«Avaliamos as capacidades cognitivas, sensoriomotoras e psicossociais, incluindo o desempenho ocupacional no trabalho, na autonomia das actividades quotidianas ou no desempenho escolar», observa Ana Marques, acrescentando:

«Numa fase posterior, reabilitamos o indivíduo para a função, trabalhando as áreas de desempenho avaliadas, através de várias técnicas e actividades. Aliás, as actividades são uma forma de possibilitar a concretização das próprias capacidades, no sentido de melhorar a sua autonomia pessoal, organização e satisfação do seu tempo de lazer e das suas actividades laborais ou produtivas, desenhando-se um programa de tratamento de terapia ocupacional individualizado e específico que responde às necessidades de interesses de cada caso.»

As sessões de terapia ocupacional são, pois, um espaço que possibilita o autoconhecimento e reforço das capacidades. Gradualmente, o doente vai melhorando, através de um processo contínuo em que também estabelece uma relação sólida e de confiança com o terapeuta.

Anorécticos,
os falsos gordos

Geralmente, a anorexia nervosa surge no final da adolescência, um período um tanto ou quanto conturbado, em que inúmeros acontecimentos ocorrem a uma velocidade estonteante,
incidindo predominantemente no sexo feminino.

Trata-se, pois, de um distúrbio alimentar caracterizado pelo baixo peso corporal para a idade e altura. Além do mais, o indivíduo apresenta um medo intenso de ganhar peso, apesar do baixo peso. Ou seja, tem uma imagem distorcida de si próprio e, no caso das mulheres, há uma ausência de período menstrual (amenorreia). Tudo isto resulta na incapacidade para trabalhar, estudar ou de socialização.

A etiologia é quase sempre multifactorial, ou seja, podem ser vários os factores que condicionam o seu aparecimento. Também depende de alguns autores, mas, segundo indica Ana Marques, existem três aspectos principais que induzem ao aparecimento da anorexia nervosa. A saber:
– As sociedades ocidentais determinam como padrão de beleza feminino um corpo magro;
– Conflitos familiares, ou seja, perturbações na comunicação familiar ou por superprotecção, ou devido a uma rigidez ou, ainda, por conflitos não resolvidos no seio da família;
– Existência de uma personalidade caracterizada pela baixa de auto-estima, pensamentos contraditórios e autodepreciativos; por uma necessidade de perfeccionismo muito grande e por dificuldade de adaptação na sociedade.

Quanto ao tratamento, «na fase inicial, é importante o papel da nutricionista, porque enquanto o doente não restaurar o peso e não tomar consciência que está realmente magro e que necessita ganhar peso é impossível trabalhar outras áreas», refere a mesma terapeuta ocupacional.

«Depois de restaurar o peso, o anoréctico é ajudado a alterar os mecanismos de comportamento, pois, vê-se gordo quando está magro. É reconhecido pela maioria dos autores que a abordagem deve ser uma
conjugação do tratamento médico comportamental e psicodinâmico para restaurar o peso e alterar efectivamente o mecanismo de funcionamento psíquico do paciente anoréctico», frisa Ana Marques.

Neste Hospital de Dia, por exemplo, as refeições são tomadas em grupo, junto de outros pacientes que se alimentam naturalmente – o que só por si representa um esforço para o doente anoréctico se alimentar. Aqui é fundamental a intervenção do nutricionista e/ou dietista.

Todavia, segundo informa Ana Marques, «concomitantemente, são utilizadas outras formas de abordagem em grupo, como sejam a psicoterapia de grupo e a terapia ocupacional, em que se incluem as sessões de movimento, relaxamento, treino de aptidões sociais, incidindo nos treinos de afirmação pessoal e controlo de stress, as técnicas criativas ou projectivas, como o desenho e a pintura. Já a psicoterapia individual, feita pelo médico psiquiatra, é introduzida na fase em que o paciente já adquiriu alguma capacidade de crítica para a sua situação».

Medicina & Saúde®

www.jasfarma.pt

admin: