Portugal está a um passo de cumprir o seu primeiro objectivo ao tornar-se auto-suficiente em componentes de glóbulos vermelhos. Para isso, é preciso que a dádiva continue a crescer e que as fileiras de dadores voluntários não fiquem mais magras: as 350 mil unidades de sangue por ano só serão alcançadas se mais portugueses colocarem as suas veias à disposição do próximo.
Portugal quase auto-suficiente em glóbulos vermelhos
No próximo ano, no máximo em 2006, os doentes, dentro das fronteiras lusas, poderão ser atendidos sem esperas, sem ser necessário estabelecer prioridades ou «fazer ginástica» para receber sangue alheio. Isto porque Portugal atingirá a sua primeira meta de auto-suficiência em componentes eritrocitários (glóbulos vermelhos). Ou seja, o número de dádivas de sangue vai crescer o suficiente para que todos aqueles que necessitam o recebam.
Conseguir a auto-suficiência significa alcançar o número de dádivas para satisfazer anualmente as necessidades nacionais em componentes terapêuticos de sangue. Isto está calculado, aproximadamente, em 350 mil unidades de concentrados eritrocitários, acrescentando uma reserva estratégica de mais 30 mil unidades e o aproveitamento do plasma para produção de medicamentos de si derivados.
O crescimento da dádiva tem sido tão sustentado que o Instituto Português do Sangue (IPS) se atreve a prever que, dentro em breve, também vai ser possível criar uma reserva estratégica de sangue. Estas cerca de 30 mil unidades extra vão servir para, por exemplo, fazer frente a grandes acidentes de viação ou catástrofes naturais.
Os números falam por si: em mais de uma década o País cresceu faseadamente 100 mil unidades. E os louros desta quase–conquista da auto-suficiência revertem, em grande parte, para quem estende o braço e dá o seu sangue.
O que os move?
«É uma partilha de saúde com quem a perdeu, com quem está em grande aflição e dificuldade», avança, em jeito de explicação, o Dr. Almeida Gonçalves, director do IPS.
Em Portugal, existem cerca de 600 organizações de dadores, que vão desde estruturas muito incipientes (por exemplo, um líder numa empresa, que sensibiliza os seus colegas e arranja 30 ou 40 voluntários para dar sangue num dia), até associações muito organizadas, com estatutos, bases programáticas, tudo com registos notariais, com assembleias-gerais, corpos directivos, órgãos fiscalizadores.
Mas, afinal, o que faz aumentar o número de dadores e o que leva os que já existem a manter a camisola vestida?
«Tem-se falado muito em dádiva de sangue, fizeram-se muitas campanhas a nível nacional. Isto entra pelos olhos e pelos ouvidos dos portugueses, vai amadurecendo, as pessoas vão adquirindo uma cultura de dádiva. Temos uma base cada vez maior de dádivas e dadores», argumenta Almeida Gonçalves.
Há uma outra entidade, para além do IPS, das associações e dos dadores individualizados que, em Portugal, também tem muita responsabilidade no fomento da dádiva: a Igreja Católica.
«Tem tido um papel determinante, com uma intensa e maior participação nas zonas Norte e Centro do País, onde é fortemente estimuladora da dádiva, incentivando as pessoas a fazerem-na. O apelo é, mais ou menos, qualquer coisa como: se querem ser solidários, ajudem o próximo e se puderem façam-no através da dádiva de sangue. Esta é uma mensagem muito forte dada pela Igreja Católica. É passada nas missas, nas eucaristias, nos núcleos de acção católica. E isto funciona bem», lembra o director do IPS.
Todavia, não se pense que, por estarmos quase a alcançar a auto-suficiência, as dádivas futuras são dispensáveis. Pelo contrário. O IPS, por exemplo, tem a árdua (ou talvez não) tarefa de manter as pessoas na dádiva.
«Em Portugal, é muito fácil trazer as pessoas a fazer uma dádiva. É mais difícil mantê-las a doar o seu sangue com regularidade. É aqui que é preciso continuar a trabalhar, criar, como dizia, uma cultura de dádiva. Não pode ser uma só vez ou com grande irregularidade», diz Almeida Gonçalves.
Sangue europeu
À frente do IPS há 12 anos, Almeida Gonçalves está à-vontade para dizer que muito se tem feito nesta área, não só para incrementar a dádiva de sangue dos portugueses, mas também, nos bastidores, para garantir a segurança e a qualidade desta matéria-prima.
«O sangue em Portugal é tão seguro como noutras partes do mundo. Só não podemos falar em segurança absoluta porque ela não existe em Medicina. Além de que temos sempre encostadas ao pescoço, quais espadas, as novas doenças emergentes. E os vírus também se modificam», sublinha o responsável do IPS. Em matéria de segurança e qualidade, aliás, esta entidade fez grandes avanços nos últimos anos, de forma a atingir níveis de excelência e a preparar-se para a uniformização em matéria de processamento de sangue no espaço da União Europeia (UE).
Neste momento está a ser transposto para a legislação nacional o texto da Directiva do Parlamento Europeu e do Conselho 2002/98/CE, de 27 de Janeiro de 2003. O objectivo é que todo o sangue que circula e é recolhido no espaço comum seja tratado da mesma maneira, «para que toda a gente que está em trânsito ou que vive fora do seu país, na UE, tenha a mesma qualidade e a mesma segurança transfusional que tem no seu próprio país», sublinha Almeida Gonçalves, acrescentando:
«Estamos a mudar a Lei Orgânica do Instituto, que data de 1990. Vem separar os serviços centrais do IPS dos Centros Regionais de Sangue (CRS) de Lisboa, Porto e Coimbra, de maneira a criar aqui um Instituto e uns subinstitutos. Eles vão ter autonomia e responsabilização próprias, o que não acontecia rigorosamente até hoje.»
Na prática, com esta nova Lei Orgânica, os serviços centrais do IPS vão passar a ser uma Autoridade Competente, «estrutura que fiscaliza, coordena, licencia, audita e controla toda a qualidade do sangue nos CRS ou nos hospitais que ainda colhem sangue e deixarão de o fazer. É uma entidade que tem de ser independente das estruturas colhedoras para que tenha a isenção e o distanciamento necessários, a fim de que aquilo que preconiza, ou manda cumprir, possa estar independente», garante Almeida Gonçalves.
É também a Autoridade Competente que vai informar, nos comités da Comissão Europeia, da aplicação da Directiva, sobre a forma como a transposição e o cumprimento destas normas vão acontecendo em Portugal.
«Vai haver um acompanhamento muito próximo da evolução nesta matéria em cada Estado-Membro», garante o líder do IPS.
O objectivo, já se sabe, é que todos se rejam pela mesma bitola e que a qualidade e segurança do sangue doado em todo o espaço europeu estejam asseguradas.
Informações sobre a dádiva de sangue
O que são os grupos sanguíneos, quem pode receber sangue de quem? Como se compõe o sangue e que componentes podem ser utilizados? Descubra estas e muitas outras respostas a questões que eventualmente assaltam quem não está habituado a dar sangue.
O que é o sangue?
É um tecido constituído por várias células sanguíneas, suspensas num líquido que se chama plasma. O plasma é constituído por água, sais minerais, moléculas hidrossolúveis, como por exemplo a glucose e proteínas. As células sanguíneas são os glóbulos vermelhos ou eritrócitos, os glóbulos brancos ou leucócitos e as plaquetas. É a medula óssea que se encarrega da sua produção, sendo constantemente renovadas.
O sangue tem funções muito importantes e complexas entre as quais o transporte de oxigénio, nutrientes, hormonas, dióxido de carbono e outros produtos do catabolismo.
Os glóbulos vermelhos, que transportam o oxigénio, têm a particularidade de ser elásticos e deformáveis, permitindo assim um fluxo normal dentro dos vasos sanguíneos. Têm na sua membrana exterior elementos que são específicos para cada indivíduo, são herdados de pais para filhos e permitem diferenciar as células de uma pessoa das de outra pessoa – são os grupos sanguíneos. Os mais importantes na transfusão sanguínea são o sistema ABO e Rh.
Os glóbulos brancos podem ser classificados de acordo com as diferentes morfologias e funções – granulócitos, neutrófilos, eosinófilos, monócitos e linfócitos. Têm um papel muito importante na defesa do organismo contra os vários agentes infecciosos.
As plaquetas são as células mais pequenas do sangue, tendo cerca de 1/3 do diâmetro dos glóbulos vermelhos. São elas que actuam de imediato quando há uma hemorragia, formando o rolhão plaquetário que vai parar a hemorragia, tendo um papel muito importante na coagulação sanguínea.
Para que é necessário o sangue?
O sangue é necessário todos os dias para os doentes com anemia, doentes que vão ser submetidos a cirurgia, acidentados com hemorragias, doentes oncológicos que fazem tratamento com quimioterapia, transplantados, entre outros.
Todas estas situações necessitam de fazer tratamento com componentes sanguíneos. Enquanto um doente com anemia pode necessitar de uma ou duas unidades de sangue, um transplantado de fígado pode precisar de mais de 20 unidades de sangue e um doente com leucemia pode necessitar de mais de 100 unidades de componentes sanguíneos.
Quem pode dar sangue?
Todo aquele que tiver entre 18 e 65 anos, for saudável e, em consciência, não tiver comportamentos de risco. Não é possível fazer a primeira dádiva depois dos 60 anos. O homem pode dar quatro vezes por ano (de três em três meses) e a mulher menos uma vez, de quatro em quatro meses. É preciso ter um peso vizinho dos 50 kg.
Quando alguém se apresenta para fazer uma dádiva de sangue, é sempre realizado um exame médico. «Seja a primeira ou a vigésima vez que a pessoa dá sangue, em qualquer parte do País, todos passam pelo exame médico. Consiste em ver a tensão, auscultar e conversar com o dador. A primeira coisa a ter em atenção é a saúde deste, saber se está em condições para fazer a dádiva», salienta o director do IPS. Faz-se, ainda, uma análise rápida à hemoglobina do dador para despistar possíveis anemias ocultas. O segundo passo é perceber se o dador não tem nada que possa prejudicar o receptor. Esta percepção adquire-se através de uma conversa para perceber que estilo de vida é que tem, se é saudável, se tem comportamentos de risco, para poder ser aceite ou não para a doação.
Dar sangue não engorda, não enfraquece e não causa habituação.
Quanto sangue é retirado numa dádiva? Uma unidade de sangue total representa 450 ml. Cada indivíduo tem em circulação 5 a 6 litros de sangue, dependendo da superfície corporal. O sangue doado é rapidamente reposto pelo organismo. A unidade de sangue, depois de colhida, vai ser separada nos seus constituintes: glóbulos vermelhos, plasma e plaquetas ou crioprecipitado, conforme a opção.
Assim, uma dádiva de sangue pode beneficiar pelo menos três doentes. Não existe qualquer possibilidade de contrair doenças através da dádiva de sangue. Todo o material utilizado é estéril e descartável, usado uma única vez.
Existem muitas pessoas a dar sangue. O meu será preciso? É verdade, mas a procura de sangue, componentes sanguíneos e derivados não pára de aumentar graças aos progressos da ciência médica e ao avanço tecnológico, que permitem novas intervenções terapêuticas e tornam possível assistir cada vez mais pessoas.
As necessidades terapêuticas dos doentes exigem cada vez mais dadores. Mesmo o facto de já terem surgido no mercado substitutos artificiais para as transfusões de sangue, em determinado tipo de pacientes, não fazem diminuir a necessidade de haver dadores de sangue vivo. Apesar da entrada em cena destas moléculas produzidas pela biotecnologia, «vamos continuar a precisar, e muito, dos dadores de sangue. Não há nenhuma possibilidade séria, credível, que faça pensar o contrário», garante Almeida Gonçalves.
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