“Começa a Primavera e sinto logo comichões no nariz. E parece que estou sempre constipado! Estas alergias perseguem-me!”. Certamente que frases como estas fazem parte do seu dia-a-dia ou do quotidiano de amigos e familiares. A mudança de estação provoca um misto de sentimentos. A chegada do sol, dos dias maiores e mais convidativos são normalmente bem recebidos… Mas os sucessivos espirros que parecem não parar e os incómodos que os pólenes provocam deixam qualquer um à beira de um ataque de nervos. Nesta edição, explicamos-lhe como pode prevenir, tratar e lidar com as queixas respiratórias típicas destes meses primaveris.
O aumento da temperatura verificado com a chegada da Primavera constitui um estímulo à reprodução de plantas que se faz, na maioria dos casos, através da libertação de pólenes transportados pelo vento. Na realidade, “este pico polínico pode provocar, nos doentes com alergias aos pólenes, queixas de rinite alérgica (prurido nasal, espirros, secreção nasal aquosa, obstrução nasal), conjuntivite alérgica (prurido dos olhos, lacrimejo) e asma (episódios de falta de ar, tosse, “chiadeira” no peito) “, explica o Dr. Miguel Paiva, imunoalergologista do Hospital Dona Estefânia.
Por outro lado, o aumento da temperatura e da humidade estimulam o aumento de ácaros no pó doméstico podendo desencadear sintomas semelhantes em doentes sensibilizados a estes alergénios. Digamos que as alergias não “gostam” das mudanças repentinas de temperatura…
Na Primavera, o aumento de queixas relacionadas com alergias respiratórias, como a rinite alérgica ou a asma, é notório. Daí que as conversas típicas relacionadas com o tempo e com as queixas que chegam com a nova estação do ano não façam parte do queixume popular sendo mesmo importantes de valorizar.
Não ignore os sinais!
Os sintomas referidos atrás são frequentemente subvalorizados. “Particularmente, no caso da rinite alérgica, que atinge cerca de 30% da população portuguesa, é frequente o diagnóstico ser efectuado muitos anos após o início das queixas que, em muitos casos, afectam seriamente a qualidade de vida destas pessoas, implicando custos indirectos elevadíssimos (diminuição da produtividade e abstenção laboral)”, destaca Miguel Paiva. Uma vez que os tais sinais de alarme nem sempre são tidos como importantes, saiba que, “é importante procurar ajuda especializada no caso de crianças e adultos que estão sempre constipados apesar de não terem febre ou que relacionam as suas queixas com determinadas situações (por exemplo, ‘constipam-se’ mais na Primavera ou quando ‘limpam o pó’) “, sublinha Miguel Paiva.
Qualquer pessoa pode desenvolver uma doença alérgica em qualquer fase da sua vida. “No entanto, particularmente as alergias respiratórias, iniciam-se predominantemente na criança ou adulto jovem. As pessoas com pais e/ou irmãos com história de doença alérgica respiratória (rinite ou asma) têm maior probabilidade de vir a desenvolver estas patologias”, destaca o imunoalergologista.
É possível prevenir?
Esta é uma questão complexa e que a própria comunidade científica ainda não consegue esclarecer por completo. Aliás, existe neste momento muita controvérsia sobre como prevenir o aparecimento das doenças alérgicas. “O aleitamento materno exclusivo durante os primeiros 4-6 meses constitui a principal medida de prevenção primária (prevenção do aparecimento de alergia), parecendo diminuir a incidência de eczema atópico e alergia respiratória nos primeiros anos de vida; também é importante evitar a exposição ao fumo de tabaco durante a gravidez e a infância”, defende Miguel Paiva.
As principais medidas de prevenção adoptadas no âmbito da doença alérgica destinam-se, sobretudo, à diminuição da exposição a alergénios em pessoas que já apresentam alergia. “No caso das doenças alérgica respiratórias, deve ser evitada, também, a exposição a agentes irritativos que podem desencadear crises alérgicas (como seja, o fumo de tabaco).
Quando procurar ajuda médica?
Todas as pessoas que apresentem sintomas respiratórios recorrentes e persistentes, ou que, apesar de ocorrerem de forma esporádica, interferem com o seu bem-estar, devem procurar ajuda especializada. “Numa primeira fase, os doentes poderão consultar o seu médico assistente que, posteriormente, os poderá encaminhar para uma consulta de alergologia. Casos de maior gravidade poderão justificar uma avaliação inicial em consulta desta especialidade”, aconselha Miguel Paiva.
O diagnóstico das alergias respiratórias é fundamentalmente clínico. Isto significa que se baseia na sintomatologia apresentada e na observação do doente. O diagnóstico pode ainda ser suportado com o recurso a testes cutâneos e/ou através de análises laboratoriais. “No caso da asma dever-se-ão efectuar, também, provas de função respiratória que ajudam no diagnóstico e na monitorização do doente ao longo do tempo”, acrescenta o imunoalergologista.
E depois do diagnóstico?
De acordo com a frequência dos sintomas e a sua gravidade, o doente poderá efectuar medicação para controlo da doença ou apenas para o tratamento de crises agudas.
“Em casos devidamente seleccionados pelo imunoalergologista, poderá ser prescrita imunoterapia específica que consiste num tratamento que visa curar ou, pelo menos, diminuir a alergia do doente a um determinado alergénio (mais frequentemente a ácaros ou a pólenes) e que tem duração habitual entre três a cinco anos”, diz-nos Miguel Paiva.
Os fármacos actualmente utilizados no tratamento da rinite alérgica e da asma permitem um adequado controlo da doença na maioria dos casos e são bem tolerados por parte dos doentes. “Frequentemente, os doentes demonstram algum receio em serem medicados com alguns destes fármacos (como por exemplo, os corticóides inalados). No entanto, nas doses habitualmente prescritas, estes fármacos têm-se demonstrado seguros mesmo quando utilizados diariamente durante anos”, tranquiliza o imunoalergologista.
A má adesão terapêutica constitui uma das razões para que muitos dos doentes com rinite alérgica e/ou asma não estejam controlados. “Deve por isso ser combatida através da educação e sensibilização dos doentes para a importância do seguimento do plano terapêutico prescrito pelo seu médico”, defende Miguel Paiva.
Alergia, rinite alérgica e sinusite: doenças que se confundem entre si
Miguel Paiva explica cada uma das patologias desmistificando a ideia de que todas elas constituem apenas uma doença, o que é errado.
– Alergia é um termo genérico que define uma reacção exagerada a uma substância do meio ambiente normalmente tolerada pela população (como por exemplo, a urticária após a ingestão de leite ou a rinite alérgica provocada por exposição a pólenes).
– A rinite alérgica constitui uma forma de doença alérgica caracterizada por uma inflamação da mucosa nasal (revestimento interno do nariz) que condiciona os sintomas já referidos.
– A sinusite é uma inflamação que ocorre nos seios perinasais, umas cavidades existentes nalguns ossos da face e crânio que comunicam com as fossas nasais através de pequenos orifícios (ostium) e que geralmente são preenchidas por ar. Quando esses orifícios ficam obstruídos em situações de inflamação da mucosa nasal (por exemplo, uma infecção ou, frequentemente, no contexto de rinite alérgica não tratada) esses seios enchem-se de secreções, provocando os típicos sintomas de sinusite: dor de cabeça, tosse, secreções amareladas ou esverdeadas (purulentas), obstrução nasal e, por vezes, febre.
Medidas a ter em atenção no interior dos edifícios
– É importante aspirar o chão e colchão uma a duas vezes por semana com aspiradores com filtro HEPA;
– Remover objectos que acumulem muito pó na sua superfície, sobretudo nos quartos de dormir (carpetes, tapetes, peluches, livros expostos);
– A roupa da cama de algodão deverá ser lavada a 60ºC (temperatura que extermina os ácaros) e deve evitar-se lençóis de flanela e cobertores de lã;
– Adquira uma cobertura de colchão anti-ácaros;
– Controle a humidade relativa < 50% (arejar os quartos 1h por dia, desumidificador).
Os doentes alérgicos aos pólenes deverão ter os seguintes cuidados
– Evitar espaços verdes durante a estação polínica, sobretudo em dias quentes e secos e nas horas de maior calor;
– Circular de automóvel com os vidros fechados e nos doentes que conduzem motos usar capacete com viseira;
– Ter as janelas de casa fechada durante a estação polínica, sobretudo durante o dia;
– Uso de óculos de sol, particularmente nos doentes com queixas de conjuntivite alérgica;
– Consultar semanalmente o boletim polínico da sua região (ex: no sítio da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, em www.spaic.pt) de forma a terem conhecimento das épocas do ano em que os pólenes aos quais são alérgicas se encontram aumentados na atmosfera.
Jornal do Centro de Saúde
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