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Comichão, inflamação local e escoriações » Os males de uma doença crónica da pele

A dermatite atópica afecta cerca de 10% das crianças portuguesas. Mais conhecida por eczema, é uma doença crónica da pele que tende a desaparecer com a idade. Raras vezes volta, outras vezes dá lugar a doenças alérgicas do foro respiratório.

«É muito raro o aparecimento do eczema atópico na criança mais velha e no adulto», comenta o Prof. Manuel Branco Ferreira, imunoalergologista no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e professor da Faculdade de Medicina de Lisboa.

E continua: «Na grande maioria dos casos, surge no primeiro ano de vida, mas a doença é resolvida espontaneamente na adolescência ou na idade adulta, muito embora em 50-70% dos casos haja o aparecimento ulterior de queixas respiratórias de asma e/ou rinite, que coincidem com a melhoria dos sintomas cutâneos.

O eczema atópico persiste, apenas, numa pequena percentagem de adultos.»

Prurido. É este o principal sintoma do eczema, cuja origem se deve à extrema secura da pele que, por sua vez, é causada por uma deficiência desta em determinados ácidos gordos essenciais.

Paralelamente à comichão, segundo indica Manuel Branco Ferreira, «vai ocorrer uma inflamação da pele, que se manifesta através do rubor e tem duas causas: a agressão mecânica e traumática, originada pelo próprio acto de coçar, e a colonização de bactérias, devido ao défice de ácidos gordos essenciais que contrariam a proliferação bacteriana».

A juntar a tudo isto, com os ciclos de prurido e coceira, podem surgir lesões mais ou menos permanentes.

«A pele começa a ficar mais agredida, espessa e seca nas zonas em que há uma maior continuidade da comichão. Por outro lado, às vezes, em fases agudas, as crianças coçam-se tanto que sangram, logo há uma descontinuidade da barreira de defesa e mais depressa se formam feridas que poderão infectar», frisa o imunoalergologista.

Em termos de localização, o eczema, nas crianças mais pequenas (1, 2 anos) será mais frequente na face, na parte detrás dos braços e na parte da frente das pernas. Nos adultos, tende a localizar-se nas pregas de flexão (atrás do joelho, cotovelo, punho, etc.), porque são as zonas mais traumatizadas pelo movimento.

Ácaros, os culpados

Apesar de, muitas vezes, não ser possível encontrar qualquer tipo de sensibilização na dermatite atópica, esta doença é, na maioria dos casos, provocada ou pelo menos agravada por alergénios.

«Em 80 a 90% dos indivíduos com rinite e asma, normalmente, é identificada uma causa alérgica. No eczema atópico essa percentagem baixa para os 40 a 50%», revela Manuel Branco Ferreira, prosseguindo:

«A grande maioria dos alergénios que provocam a dermatite são os ácaros. Tal como nos problemas respiratórios, embora menos frequentemente, podem também causar as crises alérgicas os pólenes, os fungos e os pêlos dos gatos e dos cães.»

Ainda de acordo com o especialista, «existe outro grupo de alergénios que também podem agravar o eczema, nomeadamente os alimentares, do qual se salienta o leite de vaca, o ovo, alguns frutos secos (noz, avelã e amêndoa) e leguminosas (amendoim)».

«É errada a associação que, muitas vezes, é feita entre as crises do eczema e produtos alimentares como o chocolate, a carne de porco ou o morango», continua, «mas algumas substâncias presentes no chocolate, no vinho, no morango ou nos queijos curados, se ingeridas em grande quantidade, podem contribuir para um aumento da comichão, porque têm tiramina e potenciam a libertação de histamina.

Porém, este não é um mecanismo alérgico».

O diagnóstico é essencialmente clínico

Quanto ao diagnóstico, é essencialmente clínico. É, pois, feito pela análise das áreas cutâneas afectadas, pelo aparecimento da comichão, da vermelhidão e da inflamação.

Outro critério que ajuda a diagnosticar a patologia é a existência de familiares com rinite e/ou asma. Pode também ajudar o valor da IgE total – uma análise ao sangue que indica, de uma forma genérica, a predisposição de cada indivíduo para desenvolver alergias.

Já para se descobrir o alergénio ao qual a pessoa é sensível, que provoca uma reacção e que poderá estar na génese da doença, são fundamentais os testes cutâneos e de contacto. Note-se que nos primeiros são colocadas em ambos os antebraços várias gotas de soluções alergénicas, que depois são introduzidas dentro da pele com a ajuda de uma pequena lanceta; nos testes de contacto, é colado nas costas uma espécie de penso previamente embebido no alergénio e que permite a persistência do contacto do alergénio com a pele durante pelo menos 48 horas.

«Caso se faça os testes cutâneos a 100 indivíduos da população em geral, encontra-se cerca de 40% de pessoas com, pelo menos, uma resposta positiva a um dos alergénios. Mas só metade desses 40% é que eventualmente estão afectados por alguma patologia alérgica», observa o imunoalergologista, salientando:

«Os testes mostram a que se é alérgico, mas não é obrigatório que se desenvolva a doença. Por exemplo, se alguém que teve uma reacção positiva ao pêlo do gato, se nunca contactar com gatos, é provável que não venha a desenvolver qualquer doença alérgica.»

Como é sabido, existem três níveis de prevenção: primária, secundária e terciária. A primária é feita quando não há uma doença; a secundária quando há uma predisposição para o seu aparecimento; por fim, a prevenção terciária é aplicada aos portadores da doença e, regra geral, tem um carácter terapêutico.

Aplicada à dermatite atópica, a prevenção primária é injustificável. Já a secundária é dirigida aos indivíduos em risco e a terciária aos doentes.

«Devem fazer prevenção os filhos e irmãos de doentes que tiveram eczema na infância, bem como crianças em cuja família existem casos de alergia respiratória», menciona Manuel Branco Ferreira, enunciando alguns cuidados a ter na exposição ao principal alergénio – os ácaros do pó da casa:

«Evitar a acumulação do pó, usar capas protectoras para colchões e almofadas, manter a pele bem hidratada e, entre outros, usar roupa de algodão e evitar a de fibras, porque o suor faz aumentar a comichão.»

Medidas terapêuticas

O tratamento nos doentes visa prevenir e/ou tratar as crises mais intensas. Segundo aconselha o imunoalergologista, deve ser feito todos os dias, quer tendo os cuidados acima mencionados, quer através do uso de emolientes e hidratantes especiais, que são enriquecidos em determinados ácidos gordos e em ceramidas, que estão em deficiência na pele atópica.

«Idealmente, também o produto de lavagem deve ser especialmente formulado, com uma acção calmante na própria pele», ressalva o médico, continuando:

«Num indivíduo com eczema atópico fazemos uma investigação alergológica no sentido de identificar aquilo a que esteja sensibilizado – ácaros, alimentos ou pêlos de animais –, para que seja evitado o contacto. Depois, e consoante a situação, poderão ser aplicadas várias outras medidas terapêuticas.»

Eczema de contacto

Enquanto que durante muito tempo o eczema atópico foi considerado um eczema endógeno (a causa estaria dentro do organismo, não se encontrava uma causa exterior e não se aceitava que os ácaros tivessem um papel causal), o eczema de contacto sempre foi considerado um eczema exógeno, porque é o contacto com substâncias externas ao organismo que, clara e documentadamente, induz o aparecimento dos sintomas.

De facto, segundo Manuel Branco Ferreira, «o eczema de contacto caracteriza-se por ser uma reacção inflamatória originada pela sensibilização e consequente resposta inflamatória a determinadas substâncias, com as quais a pele contacta ou no seu dia-a-dia ou de vez em quando».

A maior parte dos eczemas de contacto são aos metais, como o níquel ou o crómio, aos químicos que existem nas fragrâncias ou em determinadas tintas e a alguns elementos minerais que existem na natureza.

Curiosamente, pode haver indivíduos alérgicos ao azul, ou seja, ao corante azul de uma peça de roupa. Note-se, aliás, que o azul é mais alergizante que outras cores.

As reacções alérgicas a estas substâncias não são muito diferentes da dermatite atópica, portanto ocorre prurido, vermelhidão e feridas. Já a localização é diferente da do eczema.

«As situações são inúmeras. Pode-se ter o desenho de um colar no pescoço se a alergia for ao material do colar; se for aos perfumes, o eczema aparece na zona onde se coloca (em geral, face e pescoço); se for aos brincos, surge na orelha; se for a uma tinta do cabelo, pode afectar todo o couro cabeludo; se for ao níquel pode, por exemplo, desenhar a marca do botão das calças de ganga no abdómen», diz Manuel Branco Ferreira, salientando que «o eczema de contacto afecta entre 10 a 20% das mulheres, porque usam mais bijutarias».

A localização é o principal factor de diagnóstico. Aliás, o principal meio de diagnóstico é o teste de contacto que após 48 horas indica se há uma reacção a determinada substância, que se manifesta por vermelhidão, borbulhas e comichão nesse local.

«O tratamento será evitar o contacto com aquilo que provoca o eczema de contacto, mas nem sempre é possível, sobretudo por questões profissionais. Nestes casos, tem de se fazer uma terapêutica anti-inflamatória forte, baseada em corticóides e, por vezes, pode até ser necessário usar antibióticos», explica o mesmo imunoalergologista.

Eczema, o número 1
da marcha alérgica

Em Portugal, estima-se que a dermatite atópica afecte 10% das crianças. Embora apenas 1 a 2% sofram de queixas graves, trata-se da doença crónica mais frequente durante o primeiro ano de vida. Aliás, em 80% dos casos manifesta-se nesta tenra idade.

«Quando a doença começa a manifestar-se mais tarde, tende a persistir mais tempo, mas quando aparece mais cedo, normalmente desaparece. Porém, em muitos casos, faz parte de um processo denominado marcha alérgica, ou seja, é o evoluir da doença alérgica ao longo do tempo, que começa como dermatite atópica e depois se “transforma” em rinite ou asma», explica Manuel Branco Ferreira.

Nesta lógica unificadora da doença alérgica com diferentes expressões consoante a idade, é comum indivíduos com rinite na idade adulta terem tido antecedentes pessoais de eczema atópico na infância.

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