Um estudo português realizado a 100 famílias e 75 psiquiatras portugueses teve como objectivo conhecer a vida social e clínica dos doentes mentais graves – pessoas que sofrem de esquizofrenia e perturbação bipolar.
Os cuidadores, em geral, concordam que o bem-estar e a preservação de uma boa saúde devem ser os objectivos do tratamento. No entanto, os dados do estudo revelam que 40% dos doentes mentais interrompe a sua medicação sem consultar previamente o seu médico.
Questionados os cuidadores formais (psiquiatras) e informais (familiares) de doentes mentais graves portugueses, concluiu-se que a maior preocupação de ambos é o facto de os doentes virem a sofrer de recaídas, sendo sublinhada a importância da manutenção dos doentes em tratamento eficazes, a longo prazo. A maioria está alertada e preocupada com a relação entre a adesão à medicação e a sobrecarga familiar que a doença acarreta.
“A interrupção de um tratamento psiquiátrico, leva ao risco de recaída com um forte impacto negativo no equilíbrio dos doentes, na sua autonomia e no dia-a-dia das suas famílias. Um tratamento bem sucedido melhora a funcionalidade geral diminuindo a sobrecarga da doença na família”, afirma o psiquiatra João Marques Teixeira, Professor na Universidade do Porto e coordenador do estudo em Portugal.
A medicação é outras das preocupações presentes. Para mais de dois terços dos doentes (cerca de 69%) são necessários 2 ou mais anos até ser encontrada a medicação que mais se adequa ao seu perfil.
A importância da acessibilidade aos recursos de reabilitação disponíveis é de extrema importância, uma vez que cerca de 56% das famílias mostra-se preocupada com o futuro dos seus doentes após a morte do cuidador.
O estudo revela também que os familiares de doentes mentais graves gastam em média 265 € mensalmente em tratamentos. As principais fontes destes gastos mensais são, por exemplo, as consultas, internamentos e medicamentos.
Resultados do estudo às famílias:
Tempo para equilíbrio medicamentoso
» 48% dos cuidadores diz que foram necessários 2 ou mais anos até encontrarem a medicação apropriada
» 5% dos cuidadores está ainda à procura de medicação que se adeqúe melhor ao perfil do doente
Efeitos do tratamento
» Um tratamento bem sucedido melhora a funcionalidade geral diminuindo a sobrecarga da doença na família
» Medicação ineficaz, alterada ou descontinuada pode levar ao reaparecimento da insónia, irritabilidade e depressão
» 68% dos cuidadores diz que os seus familiares doentes não descontinuaram a medicação nos últimos 5 anos
Objectivos tratamento
» Bem-estar e a preservação de uma boa saúde devem ser os objectivos do tratamento
» Os médicos devem focar-se mais nos resultados a longo prazo
Custos
» Um custo em média de 263,24€/mês em tratamentos
Enquadramento social
» 56% dos familiares está muito preocupado com o futuro dos seus doentes após falecerem
» 81% dos familiares concorda que o estigma da doença mental pode levar à descontinuação do tratamento
Resultados do estudo aos Médicos Psiquiatras:
Tempo para equilíbrio medicamentoso
» 52% afirma que levou menos de 1 ano e apenas 21% entre 2-5 anos para estabilizar o doente
» 83% afirma que os doentes precisaram entre 2-5 medicamentos até equilibrarem
» Um tratamento eficaz é aquele que: para 95% conduz à melhoria dos sintomas; 88% melhoria na qualidade de vida; 73% melhoria do contacto social; 75% maior autonomia; 76% dormir melhor
Efeitos do tratamento
» Para 85% o tratamento eficaz diminui as tensões na família
» Para 91% o tratamento eficaz diminui os níveis de stress
» Para 85% a mudança de medicação levou a recaída
» 100% afirma que os doentes que interrompem a medicação tiveram recaídas
» Cerca de 50% afirma que até 39% dos doentes interrompem a medicação sem consulta prévia com o médico
Objectivos do tratamento
» 97% dos psiquiatras está muito preocupado com a recaída
» Para 95% a eficácia é o objectivo principal do tratamento
Custos
» Para 27%, as famílias diminuiriam a pressão financeira com a melhoria do doente
Enquadramento social
» 64% afirma que os seus doentes desistem da medicação por pressão dos media, e pelo estigma associado aos doentes mentais
» 72% afirma que menos de 10% dos doentes está envolvido em grupos de apoio social e 43% afirma que esta situação de fraco apoio preocupa os familiares
Sobre o Estudo:
O estudo, denominado “Keeping Care Complete”, é uma iniciativa da Federação Mundial para a Saúde Mental (WFMH), realizado em nove países, que envolveu 1082 famílias e 697 psiquiatras e é o primeiro neste âmbito que discute as experiências e as necessidades dos familiares de pessoas com doenças mentais graves. Em Portugal este estudo tem o patrocínio científico da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM) e o patrocínio institucional da Federação Nacional das Associações de Famílias Pró-Saúde Mental (FNAFSAM) e da Lilly Portugal.
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