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Infertilidade: um obstáculo à felicidade familiar » Dr. Pedro Sá e Melo

Infertilidade

A infertilidade é uma realidade presente no nosso país. Trata-se de uma doença que afecta um grande número da população portuguesa e da qual poucos estão conscientes ou devidamente informados.

Muitas são as questões que se levantam relativamente ao tema infertilidade: “Quais os sintomas?”, “Quando devo procurar ajuda?”, “Qual o primeiro passo a tomar para a resolução do problema?”, “Quais os efeitos secundários?”, “Há riscos?”…

O casal que não esteja de completo bem-estar familiar ou pessoal, ou seja, que não esteja bem de saúde, deve então procurar ajuda profissional. Ao fim de 12 meses de insucesso na concretização de uma gravidez o casal deverá ponderar sobre as causas que levam a esse insucesso.

Segundo o Dr. Pedro Sá e Melo, obstetra e especialista em infertilidade/inseminação artificial, devemos procurar 2 factores significativos: a qualidade e quantidade de espermatozóides do homem (sendo este o primeiro passo), e na mulher, verificar os aspectos relativos aos ovários (como estão a ser os ciclos menstruais ou se há alguma irregularidade) e a permeabilidade ou impermeabilidade das trompas.

«Todas estas questões são postas de uma forma clara e são avaliadas, em termos de observação e informação clínica, com elementos de análise (por exemplo ecografias), e, por último, a verificação da permeabilidade das trompas», afirmou o Dr. Sá e Melo explicando ainda que «as trompas estão permeáveis, permitindo que, após as relações sexuais, os espermatozóides progridam e permaneçam nas trompas até os ovários libertarem o óvulo, para este poder ser fecundado». Para que tal aconteça é necessário saber até que ponto as trompas estão permeáveis.

Um factor importante

Uma questão relevante, e que muitos casais esquecem, diz respeito ao peso psicológico que este problema acarreta. É certo que o dia-a-dia da pessoa, a rotina, o estado emocional de cada um, influencia o processo de fertilidade. O problema é saber quanto é que isso é importante para o progresso do casal. Este caso põe-se quando o casal, tendo tudo a seu favor para que o processo de procriação seja um sucesso, ou seja, que o homem possui espermatozóides de boa qualidade e em abundância e que a mulher tem trompas permeáveis e os seus ciclos menstruais são regulares, então, nesta situação, há que valorizar a condição psicológica.

Mas não é só nesta fase inicial do processo que se deve ter em atenção este factor. O Dr. Pedro Sá e Melo aconselha o acompanhamento especializado no que concerne à infertilidade e afirma que considera «o problema psicológico um problema real. Se existe esse problema real, este deve ter um acompanhamento diferenciado por um psicólogo que tenha experiência no campo».

Segundo a sua experiência, nas questões mais definitivas do casal, em que a mulher não tem óvulos capazes de serem fecundados ou o homem não tem espermatozóides activos, então, se esse casal quiser ter uma criança, só há uma possibilidade: obter um dador. «Nestes casos em que se interpõe um dador fazemos questão que o casal seja avaliado psicologicamente», adverte.

O facto de o casal poder trabalhar o sim ou o não desta questão com uma pessoa qualificada que analisa com ele os prós e os contras da sua decisão em função de fazer ou não fazer, em função do sucesso ou insucesso, em função de dizer ou não e como dizer à criança nascida, são questões que devem ser previamente abordadas e estudadas pelo casal, no sentido de, quando os problemas surgirem já haverá resposta para eles. Assim, o casal terá fácil solução, que ambos trabalharam, no sentido de estar à vontade quando essas questões forem abordadas.

Tratamentos

Existem vários tratamentos para a infertilidade, adequados a cada tipo de caso. Nenhum é mais comum que o outro.

Tratamento de Hormonas

É usado quando a infertilidade for o resultado da imaturidade dos óvulos ou de dificuldades na ovulação. Trata-se de uma estimulação hormonal.

Inseminação artificial

Neste caso, há uma selecção de espermatozóides, na qual só os melhores vão ser injectados para a fecundação dos óvulos que se vai dar de forma biologicamente natural nas trompas.

Fertilização in vitro

Este método requer que os óvulos sejam extraídos do ovário, após estimulação hormonal, e são fertilizados no laboratório. Uma vez fecundado, o óvulo será transferido para o útero da mulher.

Microfertilização ou microinjecção

Quando existe um problema mais significativo por parte do homem, e porque há um receio de que as condições in vitro habituais na proveta possam não acontecer, a proposta é de microinjectar um único espermatozóide em cada um dos óvulos. Desta forma, é garantida a fecundação do óvulo.

Criopreservação ou congelamento de embriões e esperma

Este método pode ser usado se durante o tratamento se obtiverem vários embriões viáveis que poderão ser congelados para serem posteriormente transferidos para o útero.

Este tratamento possibilita o aumento de êxito dos tratamentos iniciais e pode ainda ser usado para a preservação de espermatozóides de uso futuro.

Todas estas variantes laboratoriais pressupõem estimulação ovárica, pulsão dos ovários com colheita de óvulos e inseminação artificial dentro do laboratório, no sentido de obter a fecundação desses óvulos.

Riscos

«Não há nada em vida que não seja feita com risco. Viver é um risco», afirma Dr. Pedro Sá e Melo.

O primeiro risco que o casal corre é o de o tratamento não ter sucesso. «Riscos específicos da saúde da mulher ou do homem não são mais do que aqueles que são esperados».

Muitos dos tratamentos são à base de comprimidos e injecções para estimulação e funcionamento dos ovários. Um dos riscos é de que esse funcionamento seja exagerado.

«Além de ser um risco, acaba também por oferecer ao casal mais hipóteses de poder ter um filho», esclarece o obstetra.

Todos os casais desejam ter UM filho e quando o casal faz um destes tratamentos corre o risco de ter uma gravidez múltipla.

«O que nós gostaríamos era de poder proporcionar ao casal um filho tantas as vezes as que o casal quiser. Porquê? Porque no aspecto humano é essa a regra (ter um filho de cada vez)».

O casal desejoso de ter um filho, quando obtém sucesso no tratamento, se recebe a notícia de que vai ter gémeos, genericamente aceita bem. «O que já não aceita tão bem é nos casos de trigémeos ou mais».

A estimulação dos ovários cria alguns riscos de gravidez múltipla e «por isso tentamos eliminar essa hipótese».

Mito: a pílula

Muitas jovens pensam que tomar a pílula regularmente e durante muitos anos pode vir a causar problemas de infertilidade.

O Dr. Pedro Sá e Melo esclarece que esta afirmação não passa de um mito: «não há nenhuma relação entre a utilização de anovulatórios e a infertilidade».

Isso também se aplica à suposição feita há alguns anos atrás de que se a mulher tomasse a pílula durante 2 ou 3 meses seguidos que esta ficaria superfértil. «É completamente falso», adverte.

A pílula, portanto, nem condiciona a fertilização como também não a melhora.

Este contraceptivo faz, pura e simplesmente, aquilo que deve fazer: controlar a sua biologia condicionando a sua contracepção. Não obtém um processo biológico de infertilidade.

Risco para a infertilidade

A interrupção involuntária da gravidez pode trazer riscos de infertilidade ou de difícil fecundação numa próxima tentativa de gravidez. Tudo depende do método de interrupção da mesma.

Se houver métodos terapêuticos que utilizem comprimidos, que accionem hormonas, que actuem sobre o útero, que desencadeiem contracções e expulsem o conteúdo, o risco será mais baixo do que se, pelo contrário, fizer uma técnica de dilatação do cólon com raspagem do útero.

«Porque enquanto que na primeira hipótese a própria contractilidade do útero expulsou o conteúdo, ou seja, não houve a intervenção de bactérias e risco de infecção ascendente, nomeadamente para as trompas, na segunda, além de se recorrer à intervenção cirúrgica da vagina para o útero, correndo o risco de levar bactérias que existem normalmente na vagina, mas que não existem dentro do útero, corre-se o risco de ficar com pequenas cicatrizes anómalas que podem criar uma inadaptação da cavidade uterina para receber embriões».

O risco existe, embora dependa da técnica usada, depende do tempo da gravidez e depende do método usado para esvaziar o útero.

Quanto mais precoce for a gravidez interrompida menos provável será o risco de sucesso. Ou seja, quanto mais tardia for a interrupção mais riscos haverá numa segunda ou futura gravidez.

A solução para minimizar o problema da infertilidade está em «convencer os casais a terem filhos mais cedo», alerta o Dr. Sá e Melo, afirmando ainda que «o que acontece em contraponto a esta situação são as carreiras profissionais».

É um facto que os portugueses, hoje em dia, dão mais importância à carreira profissional e por isso mesmo têm filhos mais tardiamente. Este dado poderá fazer com que a taxa de infertilidade progrida, no nosso país.

«A idade do primeiro filho, em Portugal, aumentou extraordinariamente». Este retardar do primeiro filho naturalmente que criou uma situação de diminuição da probabilidade de conseguir uma gravidez.

A questão fulcral está na idade da mulher: dez anos antes da sua menopausa, esta já terá graves dificuldades de resposta dos ovários. O problema é saber quando se dá a menopausa numa determinada mulher.

Há uma diferença biológica muito importante entre a mulher e o homem. Enquanto que no homem, a todos os segundos está uma célula a desenvolver-se para produzir espermatozóides, na mulher o número máximo de óvulos disponível é obtido quando esta ainda estava dentro da mãe, naqueles que seriam os ovários do feto feminino, ou seja, cerca de 7 a 8 milhões.

Quando a “mulher” nasce, já só tem ¼ daquilo que tinha inicialmente (2 milhões). Mais tarde, na puberdade, quando se dá a primeira menstruação, já só tem 300 a 400 mil para gastar nos 300 a 400 ciclos menstruais. Ou seja, em cada mês a mulher perde cerca de 1000 óvulos.

A mulher tem um capital de óvulos muito mais baixo do que o homem tem de espermatozóides.

A cada dia, a cada minuto, a cada segundo, o homem produz espermatozóides, enquanto que a mulher esgota as suas reservas de óvulos muito mais rapidamente do que o parceiro masculino. Daí que a atenção quanto a este assunto recaia, sobretudo, sobre a mulher.

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