O sistema imunológico de uma pessoa afectada por esclerose múltipla em vez de atacar os inimigos do exterior, como os vírus e as bactérias, acaba por se virar contra si mesmo, danificando as suas próprias células e tecidos.
A esclerose múltipla é uma doença crónica e estima-se que existam cerca de cinco mil doentes em Portugal. Atinge pessoas de todas as idades, embora as mulheres sejam mais afectadas do que os homens.
Esta é uma das doenças do sistema nervoso central, uma espécie de computador que recebe os sinais do mundo exterior. É através dele que podemos ouvir, cheirar, ver, saborear e sentir, pois este coordena as nossas actividades conscientes e inconscientes, como andar, falar, pensar e recordar, bem como efectuar determinados gestos, sem que para isso precisemos de pensar neles.
Este “computador” tem dois órgãos principais – o cérebro e a espinal medula, ambos constituídos por células nervosas. Estas células são ligadas entre si e ao resto do corpo por fibras nervosas – os axónios, através dos quais são emitidos sinais eléctricos que permitem a comunicação celular.
Os axónios apresentam uma tonalidade mais clara, pois são envolvidos pela chamada substância branca, ou mielina. Trata-se de uma espécie de envolvimento das fibras nervosas, que facilita a transmissão da informação do cérebro ao resto do corpo ou em sentido inverso. Ora é precisamente na mielina que residem os problemas de quem sofre de esclerose múltipla. É que a doença revela-se através de pequenos focos de inflamação da substância branca, dando lugar ao chamado processo de desmielinização.
A inflamação da mielina conduz a uma obstrução na transmissão dos impulsos nervosos. A transmissão da informação pode mesmo ser bloqueada e, em casos extremos, as fibras nervosas podem ser destruídas.
De causas desconhecidas
Sabe-se que existem factores ambientais que estão associados à doença, na medida em que esta não ocorre com a mesma frequência em todas as partes do mundo. Prevalece sobretudo na Europa, América do Norte e Austrália, afectando em especial pessoas de raça branca. E quando mais afastado do Equador é um país, tanto mais frequente é a doença. Por exemplo, são afectadas mais pessoas em Inglaterra do que na África do Sul.
O que se sabe também é que a hereditariedade influencia a esclerose múltipla. Estudos com gémeos verdadeiros apontam para aí, o mesmo acontecendo com estudos sobre a incidência da doença numa mesma família. O facto de serem afectadas sobretudo pessoas de raça branca também indicia a presença de factores genéticos no desenvolvimento da esclerose múltipla.
Sintomas debilitantes
Já os sintomas são melhor conhecidos, embora dependam da localização da inflamação e do ritmo a que a mielina se vai degradando. Uns são muito comuns, outros mais raros, mas todos contribuem para que o doente vá perdendo o controlo das funções do seu próprio organismo.
Associada claramente à esclerose múltipla é a perda de força muscular nos braços e nas pernas, já que é no sistema nervoso central que se as fibras nervosas que controlam os movimentos. Quando ocorre inflamação, a consequência pode ser uma redução da destreza, o que significa que os dedos deixam de funcionar bem, mas pode ser também um quadro mais grave, de paralisia.
E tanto pode acontecer que esta perda de força muscular seja temporária, recuperando-se depois, como progressiva, sem recuperação. Ainda no que respeita aos movimentos, podem ocorrer dificuldades em manter o equilíbrio ou em coordenar as funções motoras. Isto acontece quando o órgão afectado pela inflamação é o cerebelo, a parte do “computador” que tem a missão de controlar os movimentos e corrigilos, se necessário.
Assim, o doente pode sentir um tremor na mão ao tentar agarrar objectos pequenos, como uma caneta, pode também começar a caminhar como se estivesse embriagado.
É também no sistema nervoso central que se localizam as células que avaliam o tacto, pelo que quando estas células estão inflamadas o resultado pode oscilar entre uma sensação de “encortiçamento” das pernas (como se a pessoa caminhasse sobre algodão), pele irritada, formigueiro ou picadas, até várias zonas do corpo simultaneamente dormentes.
Comuns são ainda perturbações da bexiga e dos intestinos, devido à dificuldade em controlar os músculos respectivos. Assim, os doentes com esclerose múltipla tanto podem sentir dificuldade em urinar ou em esvaziar completamente a bexiga, como sentir uma urgência em urinar, mal dão pelos primeiros sinais de a bexiga estar cheia.
São possíveis também alguns problemas com o controlo dos intestinos, nomeadamente obstipação. Quando isto acontece podem surgir igualmente problemas a nível sexual, tanto para os homens como para as mulheres. Para eles pode ser mais difícil obter ou manter uma erecção; para elas pode ser mais difícil obter um orgasmo, sendo também frequentes dores durante a relação sexual, perda de sensibilidade nos órgãos sexuais ou redução do muco produzido durante o coito.
Aprender a viver com a doença
Os efeitos da esclerose múltipla não são exclusivamente orgânicos, invadindo também a esfera psicológica. Assim, podem surgir problemas com a memória recente, com os doentes a sentirem dificuldade em concentrar-se, o que complica a realização de várias tarefas em simultâneo. O raciocínio e a rapidez na execução de tarefas mentais saem igualmente afectados.
Quanto ao humor, a depressão e uma jovialidade excessiva costumam andar de mãos dadas. Tendo de aprender a lidar com uma doença que acaba por ser incapacitante e danosa da qualidade de vida, o doente cai facilmente em quadros depressivos, que muitas vezes tenta iludir com uma aparente mas despropositada jovialidade.
É entre os 20 e os 40 anos que se manifesta mais frequentemente, mas a doença tanto pode começar na infância como na terceira idade. Não há uma evolução linear da esclerose múltipla, tudo dependendo do ritmo a que a mielina se vai deteriorando, assim como outros factores associados.
Todavia, é possível enquadrar quatro tipos, de acordo com a forma como os sintomas se manifestam. Assim, a esclerose múltipla pode manifestar-se em surtos, através da alternância de períodos de “ataque” e de períodos de recuperação. É assim com 30 a 35 por cento das pessoas afectadas.
Pode igualmente manifestar-se de uma forma progressiva, com agravamento gradual dos sintomas. Se no início se declararem surtos, mas depois as funções se forem perdendo gradualmente, está-se perante uma esclerose múltipla progressiva secundária, presente em cerca de 30 por cento dos doentes. Já se a perda de funções do corpo se manifestar desde o início, a esclerose diz-se progressiva primária e nesta situação encontram-se entre 20 a 30 por cento dos doentes.
Há ainda um quarto tipo, benigno, que se inicia em surtos mas de que não restam praticamente vestígios ao fim de uns 13 a 15 anos. Dez a quinze por cento dos doentes estão nesta situação.
Combater os sintomas
Doença crónica, isto é, de longa duração, a esclerose múltipla não tem cura. Mas tem tratamento, sobre a que se declara por surtos. O tratamento faz-se normalmente com medicamentos à base de corticosteróides, substâncias relacionadas com as hormonas produzidas pelas glândulas supra-renais e que combatem a inflamação, permitindo encurtar os surtos, embora não tenham capacidade de travar a evolução da doença.
Quanto aos interferões, são proteínas libertadas pelo próprio organismo quando ocorre uma inflamação e que tanto podem reduzi-la como acentuá-la. Dos três tipos de interferões, os beta parecem ser os mais eficazes no combate à inflamação dos tecidos nervosos, contribuindo para diminuir o risco de ocorrência de surtos de esclerose.
Para as formas progressivas da doença conhecem-se menos meios de tratamento, sendo usados por vezes medicamentos citostáticos, como os administrados no combate ao cancro. É possível ainda tratar alguns sintomas específicos da doença, como o cansaço, a rigidez muscular, a dificuldade de coordenar os movimentos ou a depressão.
Aceitar o diagnóstico pode ser a fase mais difícil da doença. Daí muitas vezes estes doentes necessitarem do acompanhamento de um psicólogo ou psiquiatra. Com o agravar dos sintomas, uma boa ajuda provém da fisioterapia, que, ao diminuir a tensão muscular, devolve alguma independência aos doentes.
Manter um bom estado geral de saúde é essencial para enfrentar a esclerose. Apesar de alguns sintomas graves, os doentes devem esforçar-se por manter uma vida activa. O que pode ser necessário é abrandar o ritmo de vida, introduzindo períodos de descanso durante o trabalho, praticando uma alimentação equilibrada, evitando excessos no consumo de álcool e tabaco, fazendo exercício físico moderado.
O conselho amigo
Os doentes com esclerose múltipla podem levar uma vida independente e satisfatória, até porque a doença não influencia a esperança de vida. No entanto, a doença pode ser perturbadora das relações familiares, sociais e profissionais, pelo que os doentes devem procurar o apoio e conselhos de quem sabe.
A Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla (SPEM) pode ser contactada pelo telefone 218 650 480 ou pelo endereço electrónico spem@spem.org.
A SPEM integra a Plataforma Saúde em Diálogo, uma associação sem fins lucrativos, constituída por associações de doentes, de promotores e profissionais de saúde e de consumidores, de que faz parte também a Associação Nacional das Farmácias. A Plataforma tem por objectivo afirmar-se como parceiro participante na definição das políticas de saúde através da intervenção junto dosórgãos de decisão.
FARMÁCIA SAÚDE – ANF
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