Stress » do normal à patologia
Apesar de o ser humano ter muitos automatismos de resposta, não deixa de se deparar, diariamente, com situações que lhe provocam stress. Seja o trânsito excessivo que atrasa a hora de chegada ao trabalho, o falecimento súbito de um ente querido ou a falta de água quando chega a casa, todos estamos sujeitos a elas.
«O stress é inerente à espécie humana, e a outras espécies, e só deixa de existir quando o indivíduo morre. É um elemento com o qual tem de se aprender a viver», diz o Prof. Adriano Vaz Serra, director da Clínica Psiquiátrica dos Hospitais da Universidade de Coimbra, que tem vindo, exaustivamente, a investigar o fenómeno do stress.
Mas é, talvez, no mundo do trabalho que as repercussões do stress mais se fazem sentir. «Um indivíduo que no local de trabalho se sinta em stress costuma mostrar-se insatisfeito com o desempenho das tarefas que tem de cumprir, revela uma baixa adesão aos objectivos organizacionais – provocando atrasos de produção –, está mais propenso a acidentes com máquinas e a ausentar-se do emprego por razões médicas», exemplifica o psiquiatra.
Além do mais, o stress provocado por questões laborais pode dar origem a mudanças de emprego ou a reformas antecipadas.
Normalmente, a família, a vida social e os aspectos de natureza económica também sofrem o impacto negativo do stress, já para não falar em como pode constituir um factor precipitante de doenças cardiovasculares – hipertensão, enfarte do miocárdio e arritmias cardíacas –, doenças respiratórias e do aparelho digestivo, bem como fragilizar o sistema imunitário.
«Os acontecimentos que, em geral, induzem o stress ocorrem, algumas vezes, sem serem esperados, como uma fatalidade em relação à qual a pessoa não tem de imediato um controlo directo», comenta Vaz Serra. «Outras vezes correspondem a acontecimentos determinados pelo comportamento do indivíduo que, pelas atitudes que toma e maneiras de reagir, dá origem a situações graves».
Quando são os indivíduos que, pelo seu comportamento ou atitude, causam situações de stress, então, refere o especialista, «é provável que o facto esteja relacionado com predisposições pessoais susceptíveis de serem influenciadas por factores de natureza genética».
De acordo com a definição do nosso entrevistado, «um indivíduo sente-se em stress quando julga que não tem aptidões e recursos (pessoais ou sociais) para superar o grau de exigência de uma determinada circunstância que considera importante».
Assim, devido a este facto, o ser humano desenvolve a percepção de não ter controlo sobre essa circunstância e começa a sentir-se vulnerável em relação à ocorrência em causa.
Como explica o psiquiatra, «a percepção de não ter controlo sobre determinada situação pode ser “real” – o indivíduo não tem, de facto, capacidade para ultrapassar as dificuldades que encontra –, ou ser apenas uma “crença” – o indivíduo tem aptidões e recursos suficientes mas, interiormente, acredita que não lhe permitem superar com êxito o confronto com a situação».
Nem sempre é prejudicial
As circunstâncias que provocam stress podem ser de natureza física, psicológica ou social.
Segundo Adriano Vaz Serra, «o barulho ou o calor excessivos são exemplos do primeiro tipo. A existência de conflitos conjugais, ou o receio de falar com estranhos podem originar o segundo tipo. Uma situação de desemprego ou um vencimento pobre, que não dê para cobrir as necessidades pessoais, exemplificam o stress de natureza social».

