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Solidão abordada por técnicos em Leiria e na Marinha Grande » Cada idoso tem uma história a respeitar

18 Novembro, 2007 0

Valorizar mais a família e preservar a intimidade e especificidade de cada idoso, contrariando o tratamento homogéneo vulgarizado em muitas instituições, é um debate que urge fazer na sociedade portuguesa.

Técnicos ligados à problemática da solidão nesta faixa etária apontaram alguns caminhos, na passada quinta-feira, em seminários realizados em Leiria e na Marinha Grande.

D. Lurdes, como gosta de ser tratada, tem 80 anos e vive sozinha numa casa alugada no centro de Leiria. Apesar de ter sido alvo recente de um assalto e de ter sofrido um acidente (um portão caiu-lhe em cima, danificando-lhe ainda mais a coluna), vê com alguma tristeza a necessidade de ter de se recolher num lar.

Esta é apenas uma das muitas histórias dos quase 80.500 idosos existentes no distrito, o que corresponde a 17.5 por cento do total da população.

“Cada idoso tem um percurso e um projecto de vida que precisa de ser respeitado. Não é por acaso que duas pessoas com a mesma idade têm aspectos diferentes”, defendeu Rosa Martins, coordenadora da Escola Superior de Saúde de Viseu, durante as VII Jornadas dos alunos da Escola Superior de Saúde de Leiria (ESSL).

“Eu gosto de estar no lar, mas não respeitam os meus hábitos. Obrigam-me a ir para a cama às 21 horas, quando estava habituado a ir dormir à meia-noite. E a tomar banho às 7:30 horas da manhã, quando o fazia sempre à noite”.

Este depoimento de um idoso, foi recolhido recentemente por Rosa Martins. “Se um idoso é mais reivindicativo, é logo visto como uma pessoa rebelde e complicada de feitio. Tem de pensar-se isto de outra forma.”

Porque se tem falado muito de idosos, esta docente considera haver um “ruído” muito grande em seu redor, quando estes estão em silêncio. “Está na altura de se dar a palavra aos mais velhos, para se saber se são felizes e onde gostam de estar. Não pode ser o grupo mais novo a impor.”

“Os idosos ocupam o terceiro balcão da sala de espectáculos da vida. A plateia é preenchida pelos adultos e pelos vindouros. A sociedade actual promove a juventude e os valores materiais e a imagem dos mais velhos está a ser desvalorizada. Enclausuram-se à força, independentemente dos seus hábitos, quando poderiam substituir os filhos na educação e sustento dos netos.

A demissão da família, corresponde à perda do espírito afectivo e à morte social do idoso”, acrescenta Susana Silva, enfermeira do Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar de Coimbra.

Não é só a institucionalização que se torna incompatível com os modos de vida e independência dos idosos. “A hospitalização, a que frequentemente recorrem apenas por uma questão social, acentua a desfamiliarização. Até porque nos hospitais ainda se vê a família como pessoas estranhas ao serviço”, continua Susana Silva.

Como quer que a trate?

“A própria morte está a sair da família para as instituições, que também não estão preparadas para a acolher”, refere António Lopes, professor na ESSL.

Autor do estudo “Morrer com dignidade”, realizado em 2003/2004, relatou aos futuros enfermeiros, presentes nas jornadas, uma experiência hospitalar que diz o ter marcado para sempre.

“Normalmente o idoso quer viver e morrer na sua casa.

E o apoio domiciliário ajuda a atender a este pedido”, corroborou Alcina Loureiro, responsável do Centro Distrital de Segurança Social (CDSS), durante o seminário sobre “Envelhecimento e cidadania”. Uma iniciativa que decorreu na Marinha Grande, organizado pela Santa Casa da Misericórdia local.

Num serviço de turno, enquanto enfermeiro, António Lopes encontrou uma senhora de 99 anos, em fase terminal, e perguntou-lhe como queria que a tratasse. “Quero que me trate bem”, respondeu.

António Lopes insistiu: Não, como quer que a chame? “Quero que me trate por menina Teresinha”, disse.

“Será que me pode pintar as unhas?”, pediu ainda. Como sempre usou as unhas pintadas, era assim que queria receber a família e as visitas. “Pormenores que parecem supérfulos, mas que para a idosa eram importantes.

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