Prof. Ricardo Seabra Gomes, coordenador nacional para as doenças cardiovasculares: «Gostaria de ser um provedor do cidadão e poder contribuir para a coordenação e racionalização dos recursos»
Acaba de tomar posse como responsável pela liderança da estratégia do Ministério da Saúde para as doenças cardio e cerebrovasculares. Ricardo Seabra Gomes vai começar por «promover a actualização das redes de referenciação nacionais», ou seja, fazer com que os doentes, sobretudo os que têm maior risco, possam chegar mais rápida e adequadamente aos locais certos.
«Considero a possibilidade de as redes de referenciação terem por base, essencialmente, critérios clínicos de base científica e não dependerem, exclusivamente, de aspectos administrativos e regionais.
Há que melhorar as condições de referenciação, não só de episódios agudos, como de situações electivas, diagnósticas ou terapêuticas, como forma de reduzir a mortalidade», avança o Prof. Ricardo Seabra Gomes, novo coordenador nacional paras as doenças cardiovasculares.
Mas o que quer isto dizer? Imagine-se o caso de um doente que se dirige a um centro de saúde com uma dor que possa ser indicativa de poder vir a ter um enfarte. «O médico do centro de saúde tem de o referenciar a um hospital especializado e não pode estar na dependência de uma consulta que se marca para daqui a seis meses», diz Seabra Gomes, acrescentando:
«Defendo que, nos hospitais especializados, seja promovido o acesso mais rápido possível, no máximo uma semana, a consultas de referência com hipótese diagnóstica de cardiopatia isquémica ou outra manifestação vascular, nomeadamente cerebral, colocada pelo clínico geral. As redes de referenciação devem ter em atenção o doente e o benefício para o doente (onde é que pode ser melhor atendido), e esse é, sobretudo, um grande desafio organizacional.»
Isto é, Ricardo Seabra Gomes acredita que «nós, o ministério, deve dizer aos doentes o que fazer». Sem criar falsas expectativas, «o objectivo é que o doente seja mais rapidamente diagnosticado e que tenha rapidamente acesso ao tratamento, que sofra menos e, finalmente, que tenha maior sobrevivência».
Esta é apenas uma das medidas que o responsável considera essenciais nesta área, e é também a primeira meta sobre a qual se quer debruçar. No horizonte estão muitos outros objectivos, todos definidos no Programa Nacional de Prevenção e Controlo das Doenças Cardiovasculares (PNP-CDCV), do qual Ricardo Seabra Gomes passou também a ser coordenador científico e executivo.
No que respeita à doença isquémica cardíaca, «é preciso fazer diminuir a mortalidade antes dos 65 anos e aumentar a percentagem de internamentos através da Via Verde Coronária de episódios agudos. Temos de baixar a percentagem de letalidade intra-hospitalar e é necessário fazer crescer a percentagem de referenciação após um episódio agudo a unidades de reabilitação», adianta Seabra Gomes.
Já no que toca aos acidentes vasculares cerebrais (AVC), este documento também tem metas bem definidas, como baixar a taxa de mortalidade antes dos 65 anos (recorde-se que o AVC é a principal causa de morte em Portugal), aumentar a percentagem de internamentos pela Via Verde AVC, reduzir a letalidade intra-hospitalar e aumentar, tal como se pretende com a doença cardíaca isquémica, a referenciação a unidades de reabilitação.
A execução desta função por Seabra Gomes – uma coordenação que se estende a todo o sistema de saúde, público e privado –, passa também por outras vertentes, como a de melhorar o conhecimento epidemiológico e estatístico, promover a prevenção, sobretudo secundária, e, também, promover a realização de registos clínicos nacionais, tendencialmente obrigatórios, para avaliação das práticas clínicas e dos ganhos em saúde.

