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Manter a vida de um coração fraco

1 Março, 2005 0

Este é um projecto pioneiro em Portugal: a Unidade de Tratamento de Insuficiência Cardíaca Avançada já funciona há mais de um ano no Serviço de Cardiologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Além de procurar recuperar doentes com insuficiência cardíaca grave, esta unidade também serve de suporte aos programa de transplantes dos HUC.

José Miguel trabalhou na indústria de cristais de Alcobaça, mas diz que está reformado aos 54 anos porque o coração não dá para mais. Para pagar as despesas, vende cautelas de lotaria.

Há cerca de uma década, começou por sentir um cansaço inusitado e reparou que o coração batia desordenado.

«Fui ao médico em Alcobaça. Na altura, receitou-me um tratamento à base de comprimidos, mas numa recaída emagreci dez quilos», conta.

Do peso normal, 62 quilos, José Miguel vê agora a balança marcar 51. Confessa que andou «anos à deriva». Vícios antigos como beber ou fumar ajudaram a tornar mais grave esta doença.

Agora, com insuficiência cardíaca, tenta largar «hábitos difíceis de curar, pois, a vida de cauteleiro tem muito destas coisas. Entra-se muito nas tascas. Na parte da tarde como um petisco e atrás vêm uns copitos», diz.

A relação de José Miguel com a UTICA – a sigla que designa a Unidade de Tratamento de Insuficiência Cardíaca Avançada dos HUC de Coimbra – ultrapassa largamente os sete dias que este homem esteve internado, momentos em que diz ter sido «bem tratado».

Estava melhor no momento em que conversámos, frequenta as consultas de rotina, cumpre a terapêutica, submete-se a electrocardiogramas, ecocardiogramas, enfim, o que for preciso. No entanto, admite que mudar práticas altamente prejudiciais como fumar é tarefa árdua. Para tal, é fundamental todo o ensino e apoio dispensados pela consulta de insuficiência cardíaca. Para ele e para qualquer outro doente deste género.

«Que hei-de fazer? Mas pelo menos já não entro em noitadas, até altas horas. Retirei-me dessas noites de fim-de-semana em que frequentava discotecas. Isso acabou», ri-se.

UTICA já funciona
há quase dois anos

Exemplos de insuficiência cardíaca como a de José Miguel não faltam. São eles que chegam, um pouco de todo o país, aos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), são encaminhados para a Cardiologia e, quando é grave, para a UTICA.

Trata-se de um projecto pioneiro no País, que engloba uma Unidade Médica Intensiva para doentes com insuficiência cardíaca grave, Hospital de Dia e Consulta Externa Diferenciada. Insere-se numa lógica de interacção com outros serviços hospitalares e tem como objectivo último apoiar e disponibilizar os melhores recursos terapêuticos para estes doentes em diferentes níveis de intervenção como ambulatório e internamento. O mês de Dezembro marcou o segundo ano de funcionamento.

«Aqui são tratados doentes em fase de agudização cardíaca ou que estejam em períodos de agravamento da doença. Os objectivos são vários: optimizar o tratamento médico, permitir uma avaliação mais concreta dos doentes em fase de pré-transplante cardíaco ou ainda para dar o melhor tratamento possível àqueles que já não têm condições para receber um coração novo», refere o director do Serviço de Cardiologia dos HUC, Prof. Luís Providência, acerca da Unidade Médica Intensiva.

Atravessa-se uma porta, entra-se num corredor longo, andam-se uns metros e à esquerda há uma entre várias salas que concentra atenções especiais. Essa circunstância é notória pelo burburinho gerado. Entram uns, saem outros. Médicos, enfermeiros, auxiliares, todos com uma tarefa definida. Lá dentro, os equipamentos de monitorização concentram-se em torno de cinco camas. São poucas, mas o suficiente, numa sala que também não é um exemplo de espaço amplo.

Esta unidade está equipada com o mais moderno material para monitorização invasiva e não invasiva, permitindo oferecer cuidados altamente diferenciados aos doentes com insuficiência cardíaca grave descompensada ou insuficiência cardíaca aguda. Estão constantemente disponíveis um intensificador de imagem, um ecocardiógrafo portátil, um ventilador e um doseador de gases no sangue.

O mecenato desempenhou um papel fundamental na montagem desta unidade. «Tudo o que aqui está foi conseguido através da apoio de patrocinadores privados, de vários quadrantes, quer regionais, quer nacionais», lembra Luís Providência.

Espaço gerido quase ao centímetro

Ali a disposição de pessoas e materiais a cada centímetro parece ter uma gestão meticulosa.

É possível circular entre as camas, de doente em doente, como é tão necessário, porque «não podemos correr o risco haver distracções», afirma Luís Providência. Afinal, são pessoas com insuficiência cardíaca grave, umas melhor, outras pior.

A vigilância é por isso apertada e, entre uma e outra cama, consultando gráficos nos ecrãs, observando doente a doente, a Dr.ª Fátima Franco, responsável clínica, desvenda as preocupações com que se debate no dia-a-dia. No limite,«manter vivos os doentes», nem mais, nem menos.

De outro modo, «sem este tipo de assistência, doentes com grave compromisso cardíaco não têm grandes probabilidades de sobrevivência. Acolhemos aqui, entre outros casos, doentes que estão na lista de espera por um transplante cardíaco, até ao surgimento de um dador compatível, que nem sempre existe».

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