95% dos doentes com tuberculose podem ser tratados com sucesso
Hoje, o medo e a morte associados à tuberculose (TB) são uma sombra comparando com tempos idos. Os agradecimentos são dirigidos à evolução verificada na Medicina e às medidas adoptadas para combater esta doença infecciosa que, todavia, ainda existe e não deve ser descurada.
Decorria o ano de 1862 quando foi construído o primeiro sanatório para tratamento da tuberculose em Portugal. Situava-se no Funchal, na Ilha da Madeira.
Anos volvidos, em 1899, a rainha D. Amélia patrocinou uma fundação que detinha uma rede de hospitais e sanatórios, em todo o País, onde os doentes e os respectivos familiares eram acolhidos. Em 1946, a fundação tornou-se num instituto público.
Desde então, a luta contra esta doença beneficiou sempre de apoio político, social e público, assim como de financiamentos destinados à terapêutica. É, inclusive, uma patologia recordada anualmente no Dia Internacional de Luta Contra a Tuberculose (24 de Março) e no Dia Mundial da Tuberculose (25 de Março).
A infecção provocada pela tuberculose já não assume as mesmas proporções de outrora. Nem tão pouco a mortalidade se aproxima de tempos idos. Quando comparada com outras patologias, como a SIDA por exemplo, é facilmente combatida. Não deve, contudo, ser descurada, pois ainda representa um perigo para a saúde.
A doença dos pulmões
«A tuberculose é uma doença infecciosa que atinge preferencialmente os pulmões (TB pulmonar). Mas num terço dos casos pode também afectar outros órgãos (TB extrapulmonar)», indica o Dr. João Costeira, pneumologista do Hospital Pulido Valente.
«Normalmente, desenvolve-se por duas etapas, sendo a primeira o contacto entre o bacilo de Koch (agente que provoca a infecção) e o hospedeiro. Na segunda fase poderá dar -se a evolução para doença, o que só acontece em 10% dos casos», acrescenta o especialista.
É o normal contacto entre as pessoas o principal responsável pela transmissão do bacilo. Ao falar ou ao tossir o doen-te expele partículas para o ambiente circundante. O receptor, ao inspirar o ar, pode ser contagiado e, posteriormente, se desenvolver a doença (TB), transmitir aos demais a infecção.
A tuberculose pulmonar manifesta-se através da tosse, regra geral associada a expectoração com vestígios de sangue ou não, emagrecimento, cansaço, febre e sudação nocturna. A sintomatologia da tuberculose extrapulmonar depende bastante dos órgãos afectados.
«Há factores que podem contribuir para aumentar o risco de contrair esta doença, que estão relacionados com o hospedeiro e o seu contexto sociofamiliar», refere João Costeira, enumerando os principais grupos de risco:
«Indivíduos que estão em contacto com os doentes (familiares, profissionais de saúde), toxicodependentes, seropositivos ou doentes com SIDA, imigrantes oriundos de zonas com elevada prevalência de TB e reclusos.»
95% dos casos são tratáveis
Quando se foi afectado por esta doença infecciosa nada mais resta que aderir ao tratamento.
«Actualmente a tuberculose é tratável em 95% dos casos. A terapêutica é feita com antibacilares e para ser eficaz, os fármacos devem ser tomados num regime apropriado e deve haver uma boa adesão por parte do doente», revela o pneumologista, sublinhando que «há uma certa dificuldade no tratamento dos idosos e dos doentes com SIDA».
O abandono do tratamento ou a toma irregular da medicação está na origem do insucesso da cura. Além do mais, estas são também as duas principais causas do desenvolvimento da tuberculose multirresistente.
Relativamente a este tipo de TB, João Costeira explica que «é motivado por bacilos que ganharam resistências a, pelo menos, dois dos principais antibacilares».
Numa situação normal a duração do tratamento é de aproximadamente 6 meses. Dependendo da gravidade clínica da doença, o paciente pode fazer a vida normalmente. Mas, nos primeiros meses é aconselhável que fique resguardado para limitar os contactos interpessoais.
Todavia, o período do tratamento pode estende-se até 2 anos se o doente abandonar a medicação e desenvolver a TB multirresistente. Nestes casos há indicação para isolamento dos indivíduos.
Porto é a região com maior incidência
A nível mundial, Portugal encontra-se numa posição confortável quando comparado com países onde a prevalência de TB é maior. É o caso de África ou do Sudoeste Asiático. O mesmo não se pode afirmar a nível da União Europeia.
De acordo com os dados mais recentes, em 2004, a taxa de incidência de TB no nosso País era de 33,4% por 100 mil habitantes. Surge, assim, em quarto lugar depois da Lituânia (79%), Letónia (73%) e Estónia (42%). Valores muito superiores à média da taxa da UE (18,4%).
Por ordem crescente, Porto (52,9%), Lisboa (46,9%) e Setúbal (37,1%) são as três regiões portuguesas com maior prevalência de tuberculose, por 100 mil habitantes. João Costeira explica a razão: «São os distritos com mais população e onde se concentram os grupos de risco. Além disso, são as regiões onde mais facilmente os doentes abandonam o tratamento, sobretudo Lisboa.»
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