A sensação de pernas cansadas é muito comum nos dias que correm e, praticamente, todos nós já a experimentámos.O quotidiano frenético, por um lado, e o sedentarismo, por outro, são sintomáticos de um estilo de vida ocidentalizado que pouco contribui para uma vida saudável. Sinais dos tempos modernos…
No entanto, é errado presumir que a sensação de pernas cansadas não passa de um simples estado transitório de fadiga, que se resolve com uma noite bem descansada. Na verdade, é necessário estar atento aos sintomas, porque a persistência dos mesmos pode revelar a presença de uma patologia crónica.
O angiologista e cirurgião vascular Dr. Luís Rosa Dias exerceu no Serviço de Cirurgia Vascular – pioneiro em Portugal – do Hospital de Santa Marta, em Lisboa, e, apesar de estar aposentado, opera no Hospital de S. Luís. Aquele especialista explica o que pode provocar e como prevenir ou atenuar os efeitos desta doença, com especial relevo para o problema das varizes, que lhe está muitas vezes associado.
Da sensação à complicação
A sensação de pernas cansadas pode ser o resultado de um, ou da combinação dos mais variados factores.
Como tal, «a adequação e eficácia do tratamento dependem de um diagnóstico apurado caso a caso. Por exemplo, se o doente, para além de cansaço, se queixa também de dor que o obrigue a parar, é muito provável que estejamos perante um problema das artérias e não das veias», explica Luís Rosa Dias.
No entanto, de acordo com o cirurgião, «cerca de 80% dos casos de pernas cansadas derivam de mau funcionamento do sistema venoso, que poderá, mais tarde, desencadear varizes».
Como seria de esperar, a idade é uma variável que está em jogo, mas Luís Rosa Dias já operou jovens adolescentes com varizes. O sexo feminino é o mais afectado por este problema e «a proporção é de sete mulheres para apenas um homem», observa o médico.
As mulheres em fases de alterações hormonais pronunciadas devem ser mais vigiadas, como é o caso das grávidas e das que se encontram na menopausa.
Na opinião de Luís Rosa Dias, «a pílula já não representa um risco acrescido uma vez que, com o avanço na sua concepção, se tornou mais inócua do que era antigamente».
O aparecimento de varizes é motivado por dificuldades de drenagem sanguínea relacionadas com o estado das veias e com a insuficiência das válvulas existentes no interior das mesmas, afectando sobretudo os membros inferiores. Os sintomas mais frequentes são a sensação de cansaço e peso nas pernas, podendo, ou não, ser acompanhada de alguma dor, o inchaço nos pés, cãibras e comichão.
Existem dois tipos de varizes, as essenciais e as secundárias.
No caso das varizes essenciais, «responsáveis pela maior parte dos casos clínicos, trata-se de um problema de origem hereditária», diz Luís Rosa Dias.
Todavia, a predisposição genética de antecedentes familiares não significa que irá, forçosamente, ter varizes.
Por sua vez, as varizes secundárias são provocadas por tromboflebites e, mais raramente, podem surgir por fístulas arteriovenosas na consequência de hábitos prejudiciais ou, por exemplo, «depois de acidentes que obrigam a pessoa a ficar muito tempo acamada sem tomar as devidas precauções profilácticas», refere o cirurgião.
As varizes afectam, normalmente, as veias superficiais e podem ser tratadas através de terapêutica com medicamentos flebotónicos, da secagem das veias (escleroterapia) e, se for necessário, da sua posterior remoção.
«Nos casos mais graves, operamos e tiramos a veia estragada. Como temos também as veias profundas, não estamos a prejudicar a perna, antes pelo contrário, vamos aliviar o peso que se acumulou naquela zona do corpo», explica Luís Rosa Dias.
Se verificar que tem uma sensação de peso, cansaço, dor e edema nas pernas, não hesite em consultar o médico, porque as consequências da negligência em relação a estes sintomas, embora não aparentando nada de grave, podem trazer sérias complicações.
«Se a pessoa não for tratada, pode originar situações bem mais complicadas, como as flebotromboses (o entupimento das veias com sangue coagulado)», previne o cirurgião, continuando:
«Outra consequência mais grave são as úlceras varicosas, provocadas por varizes não tratadas e que causam um aumento de pressão exercida pelo sangue sobre a pele. Esta, ao estalar, provoca uma chaga que é difícil de tratar, porque só é possível curar a ferida na pele atacando a causa, que é o mau funcionamento do sistema venoso.»
O caso de maior gravidade decorre das flebotromboses: «Quando um trombo de sangue que está preso numa veia se solta pode subir até aos pulmões e, por vezes, resultar numa embolia pulmonar e na morte.»
Conselhos práticos
Para quem já tem varizes e quer controlar o seu reaparecimento, ou para os que têm antecedentes familiares e pretendem prevenir a manifestação dos sintomas, deixamos-lhe alguns conselhos práticos.
– Evite estar muito tempo parado de pé ou sentado sem mexer as pernas (o que acontece também em viagens mais longas). Se a sua profissão obriga a isso, tente compensar com períodos de repouso, ou andando um pouco e seguindo as outras indicações que temos para si.
– Se não puder andar, faça movimentos com os pés, rodando os tornozelos, como se estivesse a fazer o aquecimento para uma prova desportiva. Desta forma, ao contrair os músculos, vai ajudar a circulação do sangue. Andar em bicos dos pés também ajuda.
– Não cruze as pernas quando se senta. Ao fazê-lo, está a aumentar a pressão na perna que fica em baixo.
– O uso de meias elásticas, ou as chamadas meias de descanso, ajudam a prevenir o aparecimento de varizes. Mas tenha atenção às meias demasiado apertadas e evite usá-las nos períodos de calor intenso.
– Descanse com as pernas elevadas, mas não as ponha em cima de almofadas porque, com o peso, as próprias almofadas cedem e comprimem as pernas. Além disso, as almofadas acabarão, eventualmente, por cair ao chão durante a noite. Experimente elevar o colchão, cerca de 20 centímetros, colocando debaixo dele uma manta dobrada. Vai ver que fica mais confortável. É importante que os pés fiquem ligeiramente mais altos do que o coração.
– Promova uma dieta equilibrada, evite os alimentos fritos e a acumulação de gorduras, que podem dificultar a circulação sanguínea. A alimentação saudável diminui também o risco de excesso de peso. Quanto mais peso tiver mais pressão exerce sobre as suas pernas, mais dificuldade sente na locomoção e na prática de exercício físico.
– Se bebe pouca, tenha o cuidado de beber mais água – cerca de 1,5 litros por dia – para tornar o sangue menos denso e, assim, facilitar o seu fluxo no sistema venoso.
– Pratique exercício físico regularmente, mas com moderação, sem cair em exageros, que são igualmente prejudiciais. Passear, andar de bicicleta e correr são actividades benéficas, mas sempre de acordo com a sua condição física. De todos os desportos, a natação é a melhor escolha para quem tem insuficiência venosa. Proporciona bons exercícios para as pernas e com a vantagem de serem feitos horizontalmente na água que, para além de ser fria, reduz a pressão do peso corporal.
– No Verão, se for à praia, vá para a beira-mar e deixe as ondas aplicarem-lhe uma hidromassagem gratuita nas pernas. Quando voltar para a toalha, não se exponha demasiado ao sol. Se, com as varizes, as veias já ficam dilatadas, o calor ainda as dilata mais. Tenha o cuidado de ir molhando as pernas para as manter frescas.
– De igual modo (mas não só no Verão), antes de terminar o seu banho em casa, molhe as pernas com água fria. A reacção das veias ao frio obriga-as a contrair,
constituindo uma forma de ginástica no sistema venoso, melhorando o seu funcionamento.
– Evite usar vestuário apertado. Aconselham-se roupas largas, que facilitem os movimentos e deixem respirar a pele.
– Escolha calçado confortável, que deixe o pé à-vontade e que não interfira com a postura correcta da coluna vertebral – como acontece com os saltos excessivamente altos, em voga entre o sexo feminino. Sobre este aspecto particular, existe a ideia de que os sapatos rasos são sempre os mais aconselháveis, o que só é verdade para os homens.
As mulheres devem usar calçado com cerca de três a quatro centímetros de altura na sola.
– Se fuma, pense duas vezes antes de acender o próximo cigarro. O consumo de tabaco, para além de todos os malefícios que lhe estão associados, prejudica também a fluidez do sangue no retorno venoso para o coração, agravando o problema a quem sofre de varizes.
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