Há umas décadas, ter uma leucemia ou um linfoma significava lutar com sangue, suor e lágrimas até ao fim dos tratamentos. As hipóteses de cura eram relativamente diminutas. Hoje em dia, o cenário é bem diferente: a quimioterapia veio dar novo alento aos doentes que padecem de cancros de origem sanguínea.
Ameaças externas. Estes “soldados”, presentes no sangue, têm por missão defender o organismo das eventuais ameaças. Não se sabe ao certo as causas, mas julga-se que o aparecimento de leucemias e linfomas se relacione com a resposta imunológica ligada à morte celular. Sabe-se, ainda, que o contacto com alguns vírus e uma exposição a radiações (como aconteceu com as vítimas da bomba atómica) podem despoletar o mecanismo de replicação de células malignas no sangue. No entanto, na grande maioria dos casos não existe uma explicação para o aparecimento destes cancros.
O que é um linfoma?
“Um linfoma consiste numa multiplicação desordenada e incontrolada de linfócitos. Estas células correspondem a um tipo de glóbulos brancos responsável pela imunidade e que se encontram, habitualmente, nos gânglios mas também no baço, no sangue e na medula óssea. Esta doença maligna manifesta-se pelo aumento patológico dos gânglios (vulgo “ínguas”) frequentemente instaladas na região cervical ou axilar e inguinais, esclarece o Dr. Herlander Marques, oncologista do Hospital de S. Marcos, em Braga.
Os linfomas podem-se dividir-se em duas categorias: Hodgkin e não-Hodgkin. No primeiro caso, “relativamente frequente nos adultos jovens”, a taxa de cura é elevada: “cerca de 60 a 80% destes tumores são curáveis, através da quimioterapia”, fundamenta. “Histologicamente, existe uma grande distinção entre os dois tipos de linfomas, para além da idade em que ocorrem. O linfoma não-Hodgkin, para além de ser frequente, atinge os indivíduos mais velhos.”
Por norma, o sinal mais frequente de apresentação dos linfomas é o aparecimento de gânglios aumentados na região cervical ou axilar. “O baço e o fígado podem ainda aumentar de tamanho, devido à invasão pelo linfoma. Os doentes surgem com queixas de “falta de força, falta de apetite, emagrecimento, episódios de febre, suores nocturnos e, mais raramente, prurido.”
Invasão da “fábrica de sangue”
De acordo com a origem do termo, “leucemia” significa que existe um crescimento desmesurado de células malignas no sangue. Existem dois tipos de leucemias: linfóides (afectam os linfócitos, à semelhança do que acontece com os linfomas) e as mielóides. “As leucemias linfoblásticas surgem, mais frequentemente, nas crianças, mas afectam também os adulto e aumentam de incidência com a idade. Já as leucemias mielóides são relativamente raras nos jovens, aumentando à medida que a idade avança”, explica o especialista.
Estes tumores invadem a medula óssea: considerada a “fábrica de sangue”. E, em consequência disso, as células normais deixam de produzir sangue. “Os glóbulos brancos baixam, aumentando o risco de infecção. Por redução da produção de glóbulos rubros, pode surgir anemia: os doentes queixam-se de falta de força, cansaço, falta de ar quando fazem esforço. Além destes sintomas, pode haver redução na produção das plaquetas, com alteração no sistema de coagulação, em que ocorrem perdas espontâneas de sangue (hemorragias) ou o aparecimento de ‘pisaduras’ ou hematomas no corpo.”
Quimioterapia: o primeiro recurso
As leucemias nem sempre são “detectadas no minuto zero”, isto porque as células malignas se instalam e multiplicam na “fábrica do sangue”. “Raramente, se consegue fazer um diagnóstico precoce de uma leucemia, porque geralmente só se detectam quando as células malignas invadem o sangue”. Já os linfomas geralmente podem ser detectados ainda numa fase localizada, “porque as células permanecem circunscritas a um gânglio durante um período de tempo variável”.
Mas, independentemente do tipo de tumor sanguíneo, a quimioterapia aparece sempre como o tratamento de primeira linha. “O transplante de medula óssea só está indicado para doentes que não se curaram com a quimioterapia inicial ou em casos mais raros de linfomas e leucemias agudas de mau prognóstico”, fundamenta o especialista. “No mieloma múltiplo (doença da medula óssea) é habitual realizar-se, por sistema, o auto-transplante de células estaminais nos doentes com menos de 70 anos e com bom estado geral.”
O termo transplante de medula óssea “tem sido progressivamente substituído por transplante de células estaminais (células-mãe do sangue e outros tecidos)”. Isto porque as células tanto “são colhidas na medula óssea por picada nos ossos da bacia, como no sangue periférico, com a máquina de citaferese”.
Este procedimento envolve, porém, várias dificuldades. Tratando-se de um transplante autólogo, com células provenientes do próprio doente, há um risco de as células “infundidas” no doente, depois da quimioterapia, poderem conter, ainda, células malignas residuais. “No caso de um dador familiar ou de um voluntário, terá de haver compatibilidade de tecidos, o que dificulta a doação. Neste caso podem surgem complicações muito graves como a rejeição, as infecções e a reacção de enxerto contra-hospedeiro.” O objectivo dos médicos é tratar e curar o doente com quimioterapia, razão pela qual “não é habitual colocar a indicação de quimioterapia intensiva e transplante de células estaminais à cabeça”, refere.
O que dizem as estatísticas?
O linfoma de Hodgkin é uma patologia relativamente rara, que afecta anualmente cerca de 3 pessoas por cada cem mil habitantes. Já o linfoma não-Hidgkin atinge entre 15 a 20 novos casos por cem mil habitantes.”
As leucemias agudas no seu conjunto rondam os sete e os 10 casos por cada cem mil habitantes/ano, ao passo que as leucemias crónicas afligem 10 pessoas/cem mil habitantes por ano.
Banco público do cordão já é uma realidade em Portugal
O Ministério da Saúde deu, recentemente, luz verde para se avançar oficialmente com o banco público do cordão umbilical. Este projecto já entrou em funcionamento em Julho deste ano e prevê a criopreservação de amostras do sangue do cordão umbilical fornecidas voluntariamente por parturientes. As amostras, registadas numa base de dados, ficam disponíveis para transplante. “São dádivas não dirigidas integradas numa rede mundial, à semelhança do que acontece com os dadores de medula óssea”, refere a Dr.ª Helena Alves, directora do Centro de Histocompatibilidade do Norte.
“O sangue do cordão umbilical apresenta uma série de vantagens comparativamente aos dadores adultos de medula óssea. Até agora, os progenitores que não optassem pela criopreservação em bancos privados deitavam fora o sangue do cordão umbilical. Uma vez que a tutela aprovou a decisão de se avançar com um banco público, estamos em fase de divulgação junto das grávidas desta nova possibilidade de aproveitamento. Com estas dádivas, poderá ser mais fácil salvar vidas.”
Neste momento, o Banco Público estabeleceu um objectivo de três mil colheitas por ano. E em sete anos, espera-se ter perto de 20 mil amostras. “Quando as colheitas não tiverem o volume suficiente, mesmo que cumpram os critérios de biosegurança, as amostras serão disponibilizadas para investigação. No futuro, estas amostras podem vir a ser utilizadas na medicina regenerativa.”
O próprio cordão será criopreservado durante o próximo ano em paralelo com o sangue. Este banco público abre um potencial de grande utilidade na transplantação, já que qualquer dador pode recorrer a este serviço de forma gratuita: “trata-se de um investimento importante com uma enorme abrangência”, refere a especialista.
Maior disponibilidade
Segundo as estimativas que foram realizadas, prevê-se que numa fase inicial perto de 3% das amostras recolhidas sejam utilizadas. De um total de 4 mil dádivas, mais de uma centena poderá ser usada em situações de leucemia, linfomas e outras doenças hematopoiéticas. “A aplicação do sangue tem vindo a crescer imenso, porque se tem feito a mistura de dois ou três cordões. Assim, presume-se que a aplicação desta técnica aumente gradualmente nos próximos anos.”
Com a criopreservação em banco público, as probabilidades de encontrar um dador compatível são superiores. Primeiro, porque as células estaminais do sangue do cordão umbilical têm um enorme potencial de diferenciação associado a uma menor taxa de rejeição do enxerto contra o hospedeiro. Por outro lado, se em certos casos há doentes que conseguem mais do que um dador, há casos em que, devido às características da tipologia sanguínea, os doentes aguardam anos por um dador. “Esta é uma situação dramática para as famílias e os próprios doentes”, revela Helena Alves.
Com o sangue do cordão umbilical, é possível trabalhar com níveis de compatibilidade inferiores. “Não precisamos de estar à procura de um dador cem por cento compatível. Ainda por cima, os sangues do cordão estão congelados e podem ser aplicados rapidamente. O que não acontece com os dadores adultos, que, embora registados numa base de dados, precisam de fazer novos testes e não têm um grau de disponibilidade tão elevado.”
Doentes podem solicitar apoio financeiro
Com o objectivo de garantir que todos os doentes que sofrem de leucemias, linfomas e mielomas tenham acesso aos medicamentos, a Associação Portuguesa de Leucemias e Linfomas (APLL), criada em Abril de 2001, garante o apoio financeiro. “Os doentes mais carenciados, encaminhados pela assistente social do Instituto Português de Oncologia, do Porto, têm um plafond até 400 euros para compra de medicamentos para tratamento ambulatório”, esclarece João Salazar, responsável pela APLL.
Esta entidade surgiu com o objectivo de promover fins científicos e de investigação. Mas, “com o andar da carruagem, a associação assumiu um papel mais proactivo na defesa dos doentes”, explica. Um dos grandes objectivos da APLL é sensibilizar a população para as leucemias, linfomas e mielomas. “Muitas pessoas associam estas patologias a morte. Hoje em dia, é uma noção errada.” Um estudo realizado em 2008, pela APLL, indicou que 5% da população portuguesa desconhece o que é um linfoma: “Estes dados são alarmantes, porque revelam grande desconhecimento.”
Embora se trate de uma patologia grave, “mas não é sinónimo de morte”, acrescenta. “Com as terapêuticas existentes, a taxa de sobrevivência é muito superior às registadas há 10 anos. E os medicamentos permitem que os doentes tenham uma qualidade de vida quase sem limitações.”
Uma das batalhas da Associação tem sido o aumento dos registos de dadores de medula óssea. “Nesta matéria há imensos mitos. Para desmistificar esta questão, organizamos brigadas dirigidas, em parceria com o CEDACE, que se desloca às universidades e às empresas para obter registos de dadores.”
ABC das células sanguíneas
– Linfócitos são um subtipo de glóbulos brancos, responsáveis pela imunidade: reconhecem as células anormais e os agentes externos e montam uma resposta imunológica, de modo a combater esses agentes (bactérias, vírus, fungos ou parasitas);
– Neutróficos: reconhecem os agentes estranhos e matam-nos por ingestão. São também responsáveis pelo controlo de infecções, activando outras células de combate;
– Glóbulo rubro ou eritrócito: célula cheia de hemoglobina que transporta o oxigénio dos pulmões para os tecidos;
– Plaquetas: fragmentos celulares que participam na coagulação, porque ajudam a encerrar qualquer fenda que surja nos vasos sanguíneos.
Jornal do Centro de Saúde