A menstruação irregular, as alterações na pele, como a acne, a oleosidade e o aumento da pilosidade, são alguns dos sinais que podem indicar a existência da síndrome de ovário poliquístico. Trata-se de uma patologia mais frequente nas adolescentes do que nas mulheres adultas e que tem tendência para diminuir à medida que a idade fértil da mulher avança.
«Na adolescência, os ciclos menstruais são caracteristicamente irregulares. O problema coloca-se quando, para além da irregularidade dos ciclos menstruais, surgem outros sintomas como a acne, a seborreia e o aumento da pilosidade em zonas onde normalmente não se desenvolvem pêlos nas mulheres, como o buço, a região intermamária, etc.», refere o Dr. Fernando Cirurgião, ginecologista-obstetra no Hospital de S. Francisco Xavier, em Lisboa.
Por estar associada a vários sintomas, fala-se de síndrome. Mas, como o nome indica, o ovário poliquístico caracteriza-se pela existência de vários folículos (semelhantes a pequenos quistos) à volta do ovário e que são visíveis nas ecografias. Esses folículos vão-se desenvolvendo durante o ciclo e nalguns casos formam uma espécie de colar de pérolas que rodeia o ovário, como se fosse uma segunda parede, impedindo-o de fazer a ovulação.
«À medida que o tempo vai passando, a ovulação torna-se cada vez mais difícil, porque a cápsula do ovário fica mais fibrosa e rija, impedindo o óvulo de se libertar. Se a ovulação não acontece, as menstruações vão sendo atrasadas sucessivamente, podendo chegar a uma fase de total ausência», explica Fernando Cirurgião.
Pílula: o tratamento mais usual
Enquanto diagnóstico ginecológico, «15 a 20% das adolescentes passa por estas alterações», refere o médico. No entanto, os números podem ser diferentes porque esta sintomatologia leva as adolescentes a consultarem dermatologistas, pelas mudanças na pele, ou endocrinologistas devido ao aumento de peso.
De acordo com Fernando Cirurgião, um dos factores associado à síndrome do ovário poliquístico é a obesidade. Por isso, a perda de peso é essencial para o tratamento ser eficaz.
A pílula é a primeira alternativa terapêutica desta síndrome, pois tem poucos efeitos secundários e consegue regularizar a menstruação. Mas, muitas vezes, as mães que acompanham as filhas à consulta ficam chocadas porque vêem a pílula unicamente como método contraceptivo.
«É importante salientar, para além dos efeitos contraceptivos, os benefícios da pílula, nomeadamente na prevenção do cancro ginecológico», refere o médico.
Outra alternativa para o tratamento da síndrome de ovário poliquístico passa pela intervenção cirúrgica.
«Se pensarmos que as alterações nos ovários surgem como uma cápsula fibrosa que impede a ovulação, percebe-se porque uma das técnicas consiste em fazer um pequeno corte no ovário para que faça uma cicatrização e se desenvolva de uma forma mais orientada», refere o especialista.
Numa idade mais adulta, o tratamento pode passar pelos indutores de ovulação, já que a mulher pode querer engravidar e por não conseguir fazer a ovulação não engravida.
Assim, Fernando Cirurgião divide as mulheres em dois grupos: as que querem engravidar e as que não querem.
«Para as que não querem engravidar, a primeira abordagem terapêutica é a pílula. Podemos pensar numa mais adequada, com uma dose hormonal ligeiramente mais elevada e com características antiandrogénicas para contrariar o aumento da pilosidade, acne e seborreia», explica o especialista.
A toma da pílula pode ser feita durante anos, só havendo razão para a sua interrupção se houver um desejo de engravidar ou intolerância à toma da mesma, o que é raro.
Porém, segundo o médico, «após a interrupção, a sintomatologia pode voltar porque a situação de base mantém-se».
Para as que querem engravidar, é necessário recorrer aos indutores de ovulação, sendo que a síndrome de ovário poliquístico é uma das causas de infertilidade de mais fácil resolução.
Quistos nos ovários, cenários possíveis
– Situação normal e nada preocupante
Os ovários normalmente têm folículos que vão crescendo ao longo do ciclo até que a partir do nono dia, há um que se destaca e os outros todos regridem. O que predomina continua a crescer chegando aos 2 cm. Na ecografia é visível o ovário com cerca de 3 cm e um folículo de 2.
– Ovário poliquístico
Os folículos rodeiam as paredes do ovário, fazendo uma segunda parede, e impedem a ovulação.
– Quisto funcional ou quisto único
Acontece quando não se consegue romper o folículo e o óvulo não é libertado. Os quistos com 5 ou 6 cm desaparecem por si, mas se durante seis meses, que é o tempo em que se aguarda para ver como reage o quisto, não regrediu e mantém o tamanho, faz-se um tratamento cirúrgico.
Risco do cancro do endométrio
A pílula regula os ciclos menstruais e previne as instabilidades hormonais que caracterizam a síndrome de ovário poliquístico. Como os ovários funcionam de uma forma irregular, a produção hormonal dos estrogénios é irregular e inadequada, influenciando a futura fertilidade da mulher.
«Muitas vezes, a mulher tem níveis de estrogénios muito elevados, o que faz com que haja uma estimulação exagerada do tecido interno do útero, o endométrio, aumentando o risco de cancro do útero», salienta Fernando Cirurgião.
Além do mais, como as menstruações são irregulares não há a descamação periódica do útero aumentando, assim, o risco de cancro do endométrio.
Cláudia Marcelos
Medicina & Saúde®
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