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Se detectados no início, 90% dos cancros da mama podem ser curados » Vencer esse medo de descobrir o cancro

Para Natália Henriques, 52 anos, o medo transformou-se em persistente coragem e, não fosse esta atitude, talvez hoje não estivesse viva para contar o seu percurso de vitória sobre um cancro da mama.

Foi há 12 anos. Depois de um dia de praia, Natália chega a casa, faz a autopalpação e detecta no seu peito direito «um nódulo que se mexia e parecia uma ervilha». Tinha então 40 anos. «Fiquei em pânico», desabafa, «e fui logo ao médico de família que me mandou fazer uma mamografia». Mais tarde, perante o exame, o médico disse que não era nada de grave.

Mas a persistência, ou talvez o sexto sentido, não deixou esta mulher resignar-se à explicação do médico, até porque o tumor ameaçava.

«Um dia reparei que o nódulo tinha crescido, tornou-se estático e, quando lhe tocava, sentia algo como um choque eléctrico», conta Natália.

É então que decide ir ao Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra, onde faz nova mamografia e a explicação repete-se: «É um tumor benigno», disseram-lhe. «Mas as diferenças que sentia no meu organismo não me deixavam descansada, como a menopausa bastante precoce», diz Natália, continuando: «Para além disso, o braço direito, de vez em quando, ficava paralisado. Então, fui novamente ao IPO e contei isto. Disseram-me para fazer fisioterapia, porque eram pro­blemas de coluna!»

Aproximavam-se os 40 anos e Natália sentia «coisas anormais» no seu orga­nismo. Preocupada, dá mais um passo e, desta vez, recorre a um ginecologista que lhe prescreve vários exames, entre eles outra mamografia.

Quando o médico de família a vê, «fica apreensivo» e mostra os resultados a Natália. «Estava tudo chapado: para além do nódulo que eu tinha detectado, já se estava a formar outro na axila. Depois disto, disseram-me que tinha de ser operada a curto prazo.»

Adquirir um sétimo sentido

Visão, audição, olfacto, paladar e tacto. Estes são os cinco sentidos que se ensinam às crianças logo na escola primária. Dizem que as mulheres têm um sexto sentido – a intuição. E a campanha de prevenção do cancro da mama deste ano, que decorreu durante todo o mês de Outubro, quis incutir um sétimo sentido: a prevenção.

«Com os sentidos conhecemos a vida. Para a agarrar precisamos de mais um: a prevenção.» Este foi o lema escolhido pela Sociedade Portuguesa de Senologia (SPS) que, em parceria com a Laço, a Liga Portuguesa Contra o Cancro e o Movimento Vencer e Viver, organizou, mais uma vez, uma campanha com o principal intuito de sensibilizar a população para a estreita relação que existe entre diagnóstico precoce e possibilidade de cura do cancro da mama.

«O medo de descobrir o cancro faz com que muitas mulheres fujam à mamografia. Por isso, nós insistimos na importância do diagnóstico precoce, porque pior do que ter um cancro é, deliberadamente, não querer saber que se tem e deixar que ele se desenvolva», sustenta o Prof. Jorge Soares, presidente da Sociedade Portuguesa de Senologia (SPS).

Num inquérito de 2004, verificou-se algum desconhecimento sobre a mamografia, sua importância e utilidade e constatou-se que 3/4 das portuguesas não faziam a autopalpação, embora reconhecessem a sua utilidade.

Este ano, novo inquérito foi aplicado. Os resultados dão conta que as mulheres estabelecem a relação entre diagnóstico precoce e probabilidade de cura, admitindo que este diagnóstico depende da mamografia e da autopalpação. Mas, embora estando informadas, o facto é que 75% das mulheres não faz o auto-exame, talvez por medo de encontrarem o que não querem.

Na sua maioria, assumem um papel social de protectoras, principalmente no âmbito familiar, esquecendo-se, muitas vezes, de se protegerem a elas mesmas.

«Quisemos alertar as mulheres para a necessidade de tomarem conta delas próprias e a autopalpação é uma expressão de cuidado para com a própria saúde», sustenta Jorge Soares, advertindo que «o auto-exame não é um método alternativo à mamografia».

O cancro da mama é uma doença maligna, o que quer dizer que, se não for tratado, pode matar. «Ocorre quando as células mamárias se transformam em células tumorais», explica este oncologista, «e pode, depois, propagar-se para os gânglios axilares, acabando por se espa­lhar a todo o organismo».

Contudo, tem uma particularidade positiva: é que, «se for identificado numa fase muito inicial, a probabilidade de cura aproxima-se dos 90%», assegura Jorge Soares. Existe, portanto, «uma relação estreita entre detecção precoce do cancro da mama e sobrevida que as pessoas precisam de interiorizar».

Realizar mamografias periódicas, consultar regularmente o médico e, no intervalo das mamografias, fazer a autopalpação são os procedimentos que permitirão detectar um cancro da mama em fase inicial e, assim, actuar atempadamente no sentido da cura.

«Os sintomas são escassos e pouco expressivos. Por isso, é preciso procurá-lo, porque ele não se anuncia pelas manifestações comuns do cancro, sendo essencial fazer uma mamografia de dois em dois anos, ou anualmente (em casos com história familiar ou existência de patologia mamária prévia)», aconselha este oncologista.

Acabar com a vida do cancro, antes que ele…

«Quando me disseram que tinha de ser operada, parece que vi tudo a desabar sobre mim. Mas, depois da cirurgia, encarei tudo muito bem e pensei positivo», compartilha Natália Henriques. Esta mu­lher fez uma mastectomia radical e teve de retirar o peito direito por completo.

Segundo o presidente da SPS, existem quatro principais respostas terapêuticas ao cancro da mama: a cirurgia, a quimioterapia, a hormonoterapia e a radioterapia.

A cirurgia é o mais antigo e eficaz método de tratamento. Existe a mastectomia radical, através da qual se retira a totalidade da glândula, e a mastectomia parcial, também chamada de tumorectomia, em que se elimina o tumor sem ferir o que está à volta, conservando-se a maior parte da glândula.

«A cirurgia teve um avanço considerável nos últimos anos e desenvolveram-se estratégias não só para tirar apenas o tumor com um tecido de segurança à volta, mas também que permitem a recons­trução pós-cirúrgica – a cirurgia oncoplástica –, que procura devolver à mulher uma imagem que a satisfaça através da reconstituição mamária», constata Jorge Soares.

Muitas mulheres não recorrem ao implante mamário, pois têm receio que o seu organismo rejeite a prótese.

«No fundo, eu gostaria de fazer uma reconstrução plástica do peito», confessa Natália, continuando: «Até cheguei a marcar uma cirurgia plástica, fui chamada, mas não compareci porque tive medo de arranjar mais complicações.»

Natália venceu um cancro, mas sabe que tem de continuar em alerta: «Continuo a fazer autopalpação e uma mamografia por ano. Nunca mais detectei nenhum tumor no peito.»

E este é o balanço de uma vida marcada pela vitória sobre o cancro da mama: «Hoje em dia, sinto-me um pouco limitada – canso-me facilmente, tenho tendinites e perdi força no braço direito», desabafa Natália Henriques. Mas o encontro com o cancro não a fez mudar de vida: «Continuo com força de vontade e a fazer as minhas tarefas em casa.» E com este episódio ainda descobriu um talento: «Depois do cancro, comecei a pintar. Agora, pinto para mim!»

Números do cancro
da mama

– É a doença tumoral mais comum nas mulheres, mas também afecta os homens;

– Estima-se que uma em cada 10 mulheres irá ter este cancro ao longo da vida;

– É a principal causa de morte das mulheres entre os 35 e os 65 anos;

– Representa cerca de 24% dos casos de cancro;

– Morrem por dia cinco mulheres com cancro da mama em todo o mundo;

– Só na Europa, surgem meio milhão de novos casos por ano;

– Em Portugal, surgem anualmente entre 4000 a 4500 novos casos;

– Morrem por dia quatro portuguesas com cancro da mama.

«A união faz a força»

Sob o lema «Ame e viva a vida», foi criado, no passado mês de Outubro, o Grupo de Apoio às Mulheres Mastectomizadas. Para já, dele fazem parte cerca de 300 mulheres cujo caminho se cruzou com o cancro da mama. Com sede no Hospital do Desterro, em Lisboa, este grupo é coordenado por uma mulher – Liliana Barguez – que sobreviveu a um cancro da mama.

Actualmente, entre 60 a 70% das portuguesas diagnosticadas com esta doença são tratadas através da mastectomia radical (remoção de todo o peito afectado), o que pode causar problemas psicológicos decorrentes da alteração da imagem física.

Porque ultrapassar um cancro da mama não passa apenas pela detecção precoce e pelos tratamentos, mas também por acompanhar o doente e respectiva família a nível emocional, mental e social, este grupo pretende «criar uma atmosfera de confiança e partilha, na qual as mulheres possam discutir as suas mudanças, de modo a interajudarem-se psicologicamente».

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