A perda de urina associada a esforços físicos pode atingir cerca de 25% da população. Mas novas técnicas cirúrgicas, como o TVT e o mais recente TVTO podem, em poucas horas, levar as mulheres que padecem deste problema a voltar a ter uma vida completamente normal. O responsável de Ginecologia Cirúrgica no Hospital de Santa Maria, Dr. Alexandre Lourenço, explica-nos como.
Em que consiste a Incontinência Urinária de Esforço (IUE)?
É uma doença relativamente frequente na mulher que pode atingir quase 25% da população e que se caracteriza por perdas involuntárias de urina associadas a esforços físicos.
Normalmente são esforços que aumentam a pressão abdominal sobre a bexiga e que, por essa razão, fazem com que haja uma saída súbita de urina. Os esforços mais associados são a tosse, o riso, o espirro, mas à medida que esta doença se vai tornando mais grave, pequenos esforços, como simplesmente andar ou dar uma pequena corrida, podem causar perda de urina.
O que leva à perda de urina associada ao esforço?
Há um mecanismo específico que tem a ver com a mobilidade da uretra e liga a bexiga ao exterior e normalmente é nela que se faz a continência. Ou seja, se a uretra estiver numa boa posição, se os músculos à sua volta estiverem fortes, quando há um aumento de pressão dentro da bexiga a uretra responde também com um aumento da sua pressão e não sai líquido.
Só sai se o aumento de pressão da bexiga for superior ao aumento de pressão da uretra. A maior parte das lesões relacionadas com a uretra são a falência dos músculos que suportam a uretra e, por isso, quando a pessoa tosse a uretra muda de posição deixando de ter tanta pressão e a urina sai para o exterior.
Em que consiste a técnica cirúrgica mais recentemente desenvolvida, denominada TVT?
O TVT (trans vaginal tape) é uma fita sintética, muito fina e de uma substância semelhante ao nylon que impede a mobilidade da uretra e substitui os músculos de reforço atrás da uretra fazendo, portanto, o mesmo que as operações tradicionais.
Esta cirurgia via vaginal é muito rápida (cerca de meia hora) e implica um internamento que pode ser de um único dia e que até se pode fazer com anestesia local ou epidural.
O TVT foi lançado há dez anos e rapidamente em todo o mundo foi substituindo a anterior cirurgia que se praticava e tem uma taxa de sucesso de 90%. O TVT passou, então, a ser a forma de tratamento mais indicada para a IUE.
O TVT é uma cirurgia simples, rápida, mas tem alguns riscos (2%). Como temos que passar umas agulhas, para passar a fita em frente da bexiga, podemos perfurar a bexiga e isso às vezes obriga-nos a repetir a cirurgia e a ter alguns cuidados.
Para evitar esta possibilidade desenvolveu-se, há cerca de três anos, uma nova técnica que chamamos TVTO (TVT Obturador), que é o primeiro sucedâneo do TVT. Nesta técnica, as agulhas em vez de passarem pela parte da frente da bexiga passam lateralmente e saem pela perna, por uns buracos que estão nos ossos.
Desta forma, não furamos a bexiga, tem uma taxa de cura semelhante, um pouco mais rápida e a recuperação é igualmente boa. No nosso serviço praticamente só fazemos TVTO e a tendência em Portugal, neste momento, é que as cirurgias sejam mais de 70% de TVTO do que TVT.
Mais recentemente, há cerca de seis meses, foi desenvolvido um novo TVT (TVT SECUR) que fica só na uretra. A cirurgia é semelhante às outras. É à mesma uma fita, mas mais curta, mais rápida de colocar e que se pode fazer em ambulatório, pelo que a pessoa não necessita ficar internada.
Esta fita fica mais solta e é a própria cicatrização dos tecidos que envolvem a fita e que permitem a estabilização da uretra. Contudo, é uma cirurgia que sabemos que tem eficácia mas ainda estamos numa fase de aprendizagem.
A mulher recém operada demonstra alterações imediatas no seu dia-a-dia?
Sem dúvida. Senhoras que não saem à rua devido à quantidade de urina que perdem, passado uma semana após a cirurgia ficam completamente continentes e podem ter uma vida que já não faziam há muitos anos.
A alteração é enorme em termos de qualidade de vida, de capacidade de realizar coisas que já não se faziam, de depressão e ansiedade que desaparecem… A recuperação é cerca de uma semana. As pessoas vão-se embora no dia seguinte à operação e se tudo tiver corrido bem em dois ou três dias estão a fazer uma vida normal e ao fim de um mês têm relações e fazem ginástica.
Jornal do Centro de Saúde
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