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Sexualidade na adolescência » Conhecer o rapaz «grávido»

«O actual enquadramento social e cultural vem permitindo uma experimentação sexual mais frequente, mais liberalizada e mais precoce, o que torna cada vez mais provável o risco de uma gravidez adolescente», diz a Dr.ª Maria de Jesus Correia, psicóloga clínica.

As palavras «gravidez adolescente» convidam a desenhar a imagem de uma rapariga, provavelmente no seu quarto, ainda mergulhada em incertezas, medos e com um segredo por contar.

Mas, noutro quarto, haverá certamente um rapaz que carrega dentro de si o mesmo peso, porque, psicologicamente, a gravidez é vivida pelos dois. Só por ser menos visí­vel, o pai adolescente não deve ficar fora do quadro, porque também ele precisa de apoio.

A Medicina & Saúde® propõe-lhe uma outra perspectiva da gravidez – prematura, psicológica e masculina. Quem são e o que sentem estes adolescentes «grávidos»?

Para nos dar o devido enquadramento a essa palavra menos familiar, fomos conversar com a Dr.ª Maria de Jesus Correia, psicóloga clínica com experiência na área da gravidez na adolescência e docente no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), em Lisboa.

O mar revolto da adolescência

A adolescência é uma fase conturbada do crescimento, em que se operam mudanças significativas a todos os níveis. O adolescente vive no cruzamento de dois mundos, o da criança que há pouco tempo foi e o do adulto que dentro em breve será. É um período de oscilação entre a depen­dência e a autonomia, repleto de emoções ambivalentes, conflitos interiores e exteriores a partir dos quais constrói a sua identidade individual.

Paralelamente ao processo de descoberta de si mesmo, a adolescência é também marcada pela descoberta do outro, da sexualidade. Os emergentes desejos sexuais e afectivos são, muitas vezes, confundidos, vividos de modo difuso, o que torna ainda mais sinuoso o caminho para a maturidade.

Até aqui, no essencial, o caminho da rapariga e do rapaz é bastante semelhante, mas a atribuição de diferentes papéis sociais estabelece algumas distinções entre ambos.

«Socialmente, o comportamento sexual esperado para cada um dos sexos é muito distinto. Muitas vezes, o que é transmitido ao rapaz é mesmo o oposto do que é transmitido à rapariga; desejo sexual, excitação e capacidade sexual são vistos como motivo de orgulho, de confirmação de masculinidade, sendo mesmo estimulados no jovem. Já para a rapariga, há uma desvalorização desta dimensão, valoriza-se essencial e paradoxalmente o ser sedutora, mas cuidadosa, cautelosa e contida», observa Maria de Jesus Correia.

Nas sociedades ocidentalizadas, verifica-se uma tendência para o atenuar destas diferenças, permitindo à rapariga «adquirir uma atitude mais favorável em relação à sexualidade, enquanto no rapaz também é valorizada a associação da prática sexual à qualidade afectiva», considera a psicóloga.

Simultaneamente, «o actual enquadramento social e cultural vem permitindo uma experimentação sexual mais frequente, mais liberalizada e mais precoce, o que torna cada vez mais provável o risco de uma gravidez adolescente», diz Maria de Jesus Correia.

O rapaz «grávido»: mitos e factos

Ele não passa pela gravidez biológica, não vê a sua barriga crescer. Por isso, é-lhe mais fácil esconder a gravidez prematura e a consequente vergonha que possa sentir.

Ao contrário da rapariga grávida, que passa a vigiar cuidadosamente o seu bem-estar e em função disso altera muitos dos seus comportamentos, o rapaz «grávido» mantém um estilo de vida mais aproximado ao que tinha anteriormente. Pode, por exemplo, continuar a fazer noitadas nas discotecas, a beber «uns copos» com os amigos e, caso fume, nem precisa de largar os cigarros. Assustado com a ideia de vir a ser pai brevemente, a sua procura destes «escapes» até pode aumentar.

Por tudo isso, e por motivos culturais, o rapaz é visto «como o inconsequente, o irresponsável, o aventureiro ou o impulsivo que procura, acima de tudo, o prazer sexual», sublinha a psicóloga.

Maria de Jesus Correia assinala o esforço crescente no sentido de haver um reco­nhecimento comum de que «também para os rapazes a gravidez é um acontecimento que requer adaptação interna».

Mas revela que «ainda são poucos os que aparecem na Consulta de Psicologia».

Da sua experiência, constata que «as raparigas grávidas vêm quase sempre acompanhadas pelas mães. Os namorados, não tendo espaço para manifestar os seus anseios, acabam por procurar outros escapes e depois ficam malvistos porque não estiveram presentes».

Na sua opinião, esta visão depreciativa do jovem coloca entraves à sua própria assunção da condição de pai, seja real ou potencial. Ao menosprezar a paternidade adolescente, a sociedade acaba por legitimar a ausência do rapaz.

Desvalorizado na sua capacidade de assumir responsabilidades, minorizado o impacto psicológico que tem para ele o processo de gestação e, muitas vezes, rejeitado o seu envolvimento na família da namorada, «o rapaz é frequentemente excluído e, por isso, acaba por se afastar», refere Maria de Jesus Correia.

No entanto, os jovens com os quais tem oportunidade de falar manifestam a vontade de poder participar na educação da crian­ça. Apesar de inesperado, na maior parte dos casos, o filho não é indesejado e os adolescentes acabam por exprimir felicidade e satisfação ligadas à idealização da paternidade. Não obstante, as preocupações são, compreensivelmente, preponderantes.

A psicóloga afirma que é falso o mito de que aqueles que vemos serem pais tão cedo sabem muito sobre sexo para a idade que têm.

«Para a maior parte dos rapazes, que vão ser pais aos 15, 16 anos, são as suas primeiras experiências sexuais e é porque não estão informados que ocorre a gravidez.

Não têm quaisquer tipos de cuidados contraceptivos, ou não estão bem-informados acerca do seu uso adequado. Põem o preservativo a meio da relação, ou então pensam que por ser a primeira vez para ela não há o risco de engravidar», esclarece Maria de Jesus Correia.

No senso comum, existe também a ideia de que as raparigas adquirem mais cedo uma maior maturidade psicológica, o que, alegadamente, lhes daria maior capacidade para lidar com a situação. Pelo lado dos rapazes, o rótulo de infantis e imaturos pressupõe que mais facilmente abandonariam o barco.

«Se os rapazes estão, eventualmente, ainda menos preparados, isso significa apenas que precisam de mais ajuda», enfatiza Maria de Jesus Correia, conti­nuando:

«A rapariga e o rapaz vêem-se na iminência de uma paternidade que, a maior parte das vezes, não planearam. Também para ele poderá ser um momento de perplexidade, de sobrecarga psíquica, o que exige um duplo esforço de adaptação – à adolescência e à paternidade.»

Numa fase de tão grande vulnerabilidade psicológica, o apoio emocional das famílias envolvidas reveste-se de uma importância fulcral no equilíbrio dos adolescentes.

Outro mito «é a de que as raparigas têm um grande fantasma em relação à reacção dos pais e sentem muito mais medo de dizer à família». Mas Maria de Jesus Correia revelou que «os rapazes têm tanto ou mais medo de contar aos pais do que as raparigas. Eles ficam muito aflitos, muito atrapalhados».

Para essa aflição contribui, uma vez mais, a atribuição de diferentes papéis sociais ao homem e à mulher que acarreta uma inse­gurança acrescida no rapaz «grávido».

Socialmente, ainda persiste a ideia de que o homem deve ser o principal sustento da família, apesar de, também no plano financeiro, estarmos a evoluir no sentido de uma partilha igualitária de responsabilidades.

Todavia, «os rapazes assustam-se muito com a possibilidade de terem de deixar os estudos para ir trabalhar, quase sempre em empregos precários. Enquanto para a rapariga isso acaba por ser socialmente mais aceite, é suposto que o rapaz arranje um emprego em que ganhe o suficiente para poder sustentar o filho. Obviamente, aos 15 e 16 anos isso vai ser muito difícil. A dependência económica da família também é mais fácil de aceitar para a rapariga do que para o rapaz», explica a mesma psicóloga.

Obrigados a entrar precocemente no mundo dos adultos, os adolescentes que esperam um filho, rapazes e raparigas, vêem a juventude ser-lhes roubada e experimentam «sentimentos de perda, associados à alteração forçada dos planos que tinham para o futuro (do qual passam a ter medo), à perda de liberdade e da condição de adolescente.

Estes sentimentos de perda são um dos grandes riscos da gravidez na adolescência, já que podem desencadear um acumular de frustrações, que impedem o desenvolvimento saudável da relação do casal adolescente, tipicamente já pouco consistente», afirma a psicóloga.

Do ponto de vista do rapaz, na sua relação com a rapariga grávida, Maria de Jesus Correia destaca «os que referem o prazer de criar algo em comum com a namorada, os que temem a rotina ine­rente à chegada do bebé e os que referem a dificuldade em viver a dois, quando isso não fazia parte dos seus planos».

Quanto à criança, ela corre o risco de se tornar a principal vítima dessas frustrações, tanto por parte da mãe como do pai.

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