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Aborto espontâneo: Gravidez interrompida

Um aborto espontâneo é isso mesmo: uma gravidez interrompida por causas naturais, quase sempre antes da 12ª semana de gestação. É comum, mas nem por isso menos doloroso para quem esperava receber um filho nos braços.

É espontâneo e, por isso mesmo, se distingue da interrupção voluntária da gravidez. Acontece quando, por razões nem sempre óbvias, a gestação termina antes da 20ª semana.

Com frequência até à 12ª e, às vezes, tão precocemente que a mulher nem chega a aperceber-se de que está grávida, ainda antes da primeira falta menstrual.

O aborto espontâneo é comum e de causas variadas, com as anomalias cromossómicas a serem responsáveis pela maioria dos casos. Não se trata de problemas genéticos herdados dos progenitores, mas sim de erros ocorridos durante a divisão celular, os quais interferem com o desenvolvimento do embrião. Contudo, um erro destes raramente se repete, pelo que existem óptimas probabilidades de uma gravidez seguinte de termo.

Há outras causas mas são menos comuns: entre elas, incluem-se desequilíbrios hormonais, diabetes não controlada, doença tiroideia, infecções (rubéola por exemplo), problemas relacionados com o útero ou o colo do útero. Sendo causas, assumem-se também como factores de risco, em que se incluem a idade e questões ligadas ao estilo de vida. Descartadas devem ser algumas ideias erradas sobre o aborto espontâneo: é que ele não é causado por actividades de rotina como fazer exercício físico, trabalhar, levantar objectos, stress ou alimentos condimentados. A prática de relações sexuais também não influencia o curso da gravidez.

As influências potenciais (risco) têm outra origem: na idade da mulher – a partir dos 35 anos o risco aumenta e depois dos 40 aumenta mais -, e na existência de abortos anteriores – o risco sobe quando houve dois ou mais abortos. Mas também num estilo de vida em que haja abuso de substâncias ilícitas, de álcool e tabaco, bem como na existência paralela de doenças crónicas como a diabetes e as da tiróide. Um risco mínimo, mas real, está associado a testes pré-natais específicos, como a amniocentese: trata-se de um teste invasivo proposto às mulheres com mais de 35 anos e que visa recolher uma amostra do líquido amniótico para despiste de doenças como a síndrome de Down (ou trissomia 21).

 

Experiências diferentes

Quando se fala em aborto espontâneo podem abranger-se realidades diferentes, com desfechos diferentes.

Uma delas é a ameaça de aborto: ocorre nas primeiras 12 semanas de gravidez, com algum sangramento vaginal acompanhado de ligeiras contracções. É, naturalmente, um sinal preocupante para a mulher, mas, com frequência, não passa de um rebate falso e a gravidez prossegue, sem prejuízo do normal desenvolvimento do feto.

Pode acontecer, porém, que a hemorragia não estabilize e que haja, efectivamente, uma interrupção precoce da gestação. Dois cenários são, então possíveis: o de um aborto incompleto e o de um aborto completo.

O primeiro verifica-se quando a expulsão do conteúdo uterino é apenas parcial, com o segundo a corresponder à expulsão total, incluindo o feto e todos os produtos associados à gestação.

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Hemorragia, o primeiro sinal

Embora não seja automaticamente sinónimo de aborto, uma hemorragia vaginal é, quase sempre, o primeiro sinal de que o feto está em risco. Contracções ou dor abdominal, bem como da perda de fluido ou tecido pela vagina, são outros dos sinais a ter em conta. E que devem suscitar de imediato uma consulta médica, sobretudo se a hemorragia for abundante.

Casos há em que o aborto ocorre sem sintomas. O feto deixa de ser viável, mas permanece no útero, sem que haja hemorragia ou dor, sendo apenas detectado no decorrer de uma ecografia de rotina. Quando a retenção do feto morto se prolonga por quatro ou mais semanas fala-se em aborto diferido.

Perante a confirmação do aborto, dois caminhos se abrem: ou se deixa a natureza seguir o seu curso ou se opta pela remoção cirúrgica dos tecidos que permanecem no útero.

A avaliação é médica, com base na individualidade de cada caso.

Quanto mais cedo na gravidez ocorrer o aborto maior a probabilidade de o organismo expulsar o tecido fetal, sendo apenas necessária uma ecografia para confirmar se o útero ficou completamente limpo. A hemorragia cessa ao fim de alguns dias. Mas, quando não há expulsão ou ela é apenas parcial, procede-se a uma curetagem, procedimento que envolve a dilatação do colo do útero e a aspiração dos produtos da gravidez interrompida.

Após um aborto, a recuperação física é relativamente rápida. A menstruação regressa, normalmente, ao fim de quatro a seis semanas, devendo ser vigiados eventuais sinais de infecção, como febre, dores ou hemorragia intensa. Já a recuperação emocional leva mais tempo.

Um aborto leva as emoções ao auge, muitas delas contraditórias, podendo envolver culpa. Há que fazer o luto, antes de decidir tentar novamente.

E quando chegar esse momento é preciso lembrar que são muito elevadas as probabilidades de terminar a gravidez com um bebé nos braços.

 

Sem embrião

Uma gravidez sem embrião é possível e acontece por vezes. O ovo é fertilizado, cola-se à parede uterina, forma-se o saco gestacional, mas o embrião não se desenvolve – é uma gravidez anembrionária, também conhecida como “ovo cego”.

Tal como o aborto espontâneo, também esta gravidez pode acontecer tão precocemente que a mulher nem se aperceba. Mas o mais comum é que haja sinais que confirmam que houve fecundação, como uma falta menstrual e até um teste de gravidez positivo.

Mesmo sem embrião, o corpo comporta-se como numa gravidez bem sucedida: os níveis da hormona hCG continuam a crescer, tal como a placenta, que consegue manter-se por algum tempo.

A mulher acredita que está grávida, até que uma ecografia de rotina revela um útero vazio ou um saco gestacional vazio. A descoberta pode ser desencadeada por um sinal de aborto, nomeadamente hemorragia vaginal. A esta situação estão associados 50 por cento dos abortos ocorridos no primeiro trimestre. São anomalias cromossómicas que estão na origem de uma gravidez anembrionária: o organismo da mulher identifica essas anomalias e não permite que o desenvolvimento fetal prossiga, pois o feto não é viável.

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Duas opções se colocam perante esta situação: ou o organismo se liberta naturalmente dos tecidos ou é necessária uma intervenção cirúrgica (dilatação e curetagem) para garantir a completa limpeza do útero. O tecido removido pode ser submetido a análises laboratoriais para identificar a eventual causa do aborto.

Uma gravidez anembrionária não costuma repetir-se, pelo que as possibilidades de uma gravidez de termo são muito elevadas. Os médicos aconselham normalmente um período de espera que pode ir até três meses, mas depois disso o casal pode voltar a tentar.

 

Fora do lugar

Quando o ovo fertilizado se instala fora do lugar, noutro órgão do aparelho reprodutor feminino que não o útero, a gravidez está condenada ao insucesso: é assim a gravidez ectópica.

É quase sempre numa das trompas de Falópio que o ovo se instala quando falha a sua ascensão em direcção ao útero.

Um caminho que pode ser interrompido devido a uma infecção na própria trompa, que a bloqueia total ou parcialmente, mas também devido a endometriose, situação em que há crescimento de células uterinas fora do útero, ou ainda à formação de tecido em consequência de cirurgia pélvica prévia ou de doença no sistema reprodutor.

Independentemente da causa, uma coisa é certa: as trompas de Falópio não estão preparadas para albergar um embrião em desenvolvimento, pelo que uma gravidez ectópica é inviável.

O diagnóstico não é imediato, na medida em que os sintomas de uma gravidez ectópica são idênticos aos de uma gestação uterina: ausência de menstruação, aumento da tensão mamária, náuseas e vómitos, fadiga e vontade frequente de urinar.

O sinal vermelho acende-se quando a mulher sente dor na região abdominal ou pélvica. A dor – aguda e intensa – decorre do facto de a trompa não ter espaço suficiente para que o feto se desenvolva. À medida que ele cresce vai pressionando os tecidos, ao ponto de, nos casos mais graves, os romper, causando hemorragias abundantes e pondo a vida da mulher em risco.

Quando há ruptura da trompa de falópio, a dor pode ser sentida no pescoço ou nos ombros.

Tonturas e desmaio e baixa pressão arterial são outras manifestações de que a mulher está a perder sangue em excesso.

São sinais que devem suscitar uma ida à urgência. E, perante as queixas de mulher, o diagnóstico implica, antes de mais, a confirmação da gravidez através de análises ao sangue e à urina, em busca da hormona hCG. Produzida pela placenta, esta hormona é detectável dez dias após a fecundação e os seus níveis duplicam a cada dois a três dias nas primeiras dez semanas de gravidez. Níveis inferiores ao esperado para a fase gestacional podem fazer suspeitar de uma gravidez ectópica. O mesmo acontece se o útero for mais pequeno do que o previsto para o tempo de gestação em causa.

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Confirmada a gravidez fora do lugar, e dado que o feto não é viável, importa tratá-la quanto antes para evitar complicações que possam ameaçar a vida da mulher. Se a gravidez é detectada precocemente, e ainda não houve ruptura dos tecidos da trompa nem hemorragia, o tratamento pode passar pela administração de uma injecção de metotrexato, que impede o desenvolvimento celular e dissolve as células já existentes, as quais são depois absorvidas pelo organismo.

Numa gestação mais avançada pode ser necessário recorrer à cirurgia para remover o tecido e reparar a trompa. Nos casos mais severos, em que os danos são profundos, pode ser necessário extirpar toda a trompa.

Uma gravidez ectópica não inviabiliza uma gravidez posterior, ainda que diminua as probabilidades. E essa diminuição depende da extensão dos danos. Sendo que se mantém o risco de uma segunda gravidez fora do lugar.

 

União imperfeita

É um erro genético no processo de fertilização – quando o óvulo e o espermatozóide se juntam – que está na origem da gravidez molar (mola hidatiforme), uma anomalia da placenta também designada por doença trofoblástica gestacional.

Devido a esse erro genético, verifica-se o crescimento anormal de tecido no útero – são aglomerados de vesículas com a aparência de bagos de uvas pequenas.

Consideram-se dois tipos de gravidez molar – completa, quando o espermatozóide fertiliza um óvulo vazio e se formam apenas partes da placenta, mas não um embrião, ou incompleta (mais rara), quando a massa de tecido envolve tanto células anormais como um embrião defeituoso.

Esta é uma gravidez que apresenta os mesmos sintomas de qualquer outra – um período em falta e náuseas, por exemplo. Mas apresenta outros, tais como pré-eclampsia (pressão arterial elevada).

A suspeita de que algo corre mal provém das hemorragias vaginais, sendo confirmada quando na ecografia não se detectam movimentos fetais nem batimentos cardíacos.

Espontaneamente, o corpo acaba por rejeitar o tecido molar, podendo, ou não, ser necessária uma curetagem. A saúde da mulher requer vigilância durante alguns meses.

Também aqui existe possibilidade de voltar a engravidar, mas é aconselhado um intervalo de um ano após uma gravidez molar.

FARMÁCIA SAÚDE – ANF

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