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Envelhecer sem drama

Os seres humanos vivem, hoje, mais tempo que outrora, em consequência dos notáveis avanços na saúde e na qualidade de vida. A esperança de vida é maior e o Homem goza de uma superior longevidade.

Com a idade cronológica elevada, “os grandes idosos” tornam-se mais vulneráveis num quotidiano revelador de debilidade progressiva que os aproximam da dependência. A redução ou perda de autonomia impõe, então, cuidados adicionais na saúde e na assistência, fazendo disparar, com eles, os custos do quotidiano.

A perda de autonomia na pessoa idosa coloca sobre a mesa a possibilidade de ingresso num lar. E, assim sendo, deveremos questionar-nos o que sabemos sobre lares: quais as fontes que conhecemos para criar uma opinião consistente que nos permita conduzir, criteriosamente, o processo de apoio à pessoa idosa? O que sabemos nós sobre a pessoa idosa em geral e o “nosso idoso” em particular?

Os idosos vivem sós e mantêm-se afastados do quotidiano dos seus descendentes, antecipando o cenário do seu isolamento. A sociedade actual não está preparada, na generalidade, para conferir às famílias o apoio necessário para integrar e acompanhar os seus idosos. No entanto contamos com legislação que, hoje, recomenda e fixa medidas de apoio ao acolhimento das pessoas idosas.

O isolamento dos idosos agrava-se sempre com a perda de autonomia. Os mais novos privam pouco com as gerações mais velhas da família, reduzindo a proximidade e a inter-geracionalidade: pontual e que não se desenvolve harmoniosamente. Nos grandes centros urbanos os transportes obrigam a um movimento pendular diário, que preenche entre duas a cinco horas no dia-a-dia. Esta fatia acrescenta dificuldades às famílias, tornando-as vulneráveis e reduzindo-lhes a qualidade de vida e criando prioridades.

A aposentação antecipada é um factor que propicia o isolamento. A falta de preparação dos “jovens” aposentados deve ser motivo de preocupação social, uma vez que pode ser a gota de água para um envelhecimento disfuncional e, quiçá, mal sucedido.

 

Quando se perde a autonomia

O Despacho Normativo nº 12/98 de 25 de Fevereiro de 1998 (DR 47/98 – SÉRIE I-B) estabelece normas reguladoras das condições de instalação e funcionamento dos lares para idosos. O lar deve permitir desenvolver actividades de apoio social a pessoas idosas através do alojamento colectivo, de utilização temporária ou permanente, fornecimento de alimentação, cuidados de saúde, higiene e conforto, fomentando o convívio e propiciando a animação social e a ocupação dos tempos livres dos utentes.

No articulado deste diploma, os lares devem proporcionar serviços permanentes e adequados à problemática biopsicossocial das pessoas idosas, contribuir para a sua estabilização e, se possível, o retardamento do processo de envelhecimento. Devem criar condições que permitam preservar e incentivar a relação inter-familiar e potenciar a integração social.

No entanto não devemos esquecer que a opção de viver num lar deve ser vista como uma solução com um enquadramento próprio. A perda de autonomia e a escassez de apoio e cuidados necessários podem inviabilizar a manutenção da pessoa idosa no seu domicílio. A clivagem mais sintomática e influente no processo de envelhecimento está em ser autónomo ou dependente, física ou no domínio da cognição.

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A autonomia é o estado de capacitação, real em cada momento e, por sua vez, susceptível de modificar a qualquer momento por causa intrínseca ou extrínseca ao próprio sujeito. A pessoa idosa autónoma apresenta uma versatilidade que lhe permite uma adaptação constante para interagir com o quotidiano, desenvolvendo-se pessoalmente e de forma integrada. Sair diariamente, conviver e sentir interesse por projectos é o melhor antídoto do isolamento. Prevenir o estado de autonomia é a chave da longevidade com qualidade.

Factores intrínsecos, como os genéticos, podem influenciar a forma como envelhecemos. E uns podem transportar um legado genético mais gratificante que outros, isto é, proporcionar ou potenciar uma maior longevidade. Os genes que afectam o processo de envelhecimento são também os responsáveis pela manutenção e reparação do corpo. Mas para além da herança genética existe o estilo de vida que seguimos ou que nos condiciona.

O estilo de vida tem interdependência com o tipo de alimentos que ingerimos, com a vida activa, ou seja, a prática de exercício assistido e orientado e tarefas diárias que realizamos, complementadas pela atitude mental e qualidade do ecossistema em que nos inserimos. Os valores socioculturais da comunidade, a educação acrescentada e o sentido que concedemos à vida adicionam qualidade aos anos.

 

Lar, doce lar

Para uma resposta adequada impõe-se que conheçamos as condições de regulação do funcionamento dos lares. Ora, espera-se a prestação de todos os cuidados adequados à satisfação das suas necessidades, tendo em vista alguns elementos.

– Manutenção da autonomia e independência;

– Uma alimentação adequada, atendendo, na medida do possível, a hábitos alimentares e gostos pessoais e cumprindo as prescrições médicas;

– Uma qualidade de vida que compatibilize a vivência em comum com o respeito pela individualidade e privacidade de cada idoso;

– O acesso a actividades de animação sociocultural, recreativa e ocupacional que contribuam para um clima de relacionamento saudável entre os idosos e para a manutenção das suas capacidades físicas e psíquicas;

– Um ambiente calmo, confortável e humanizado;

– Serviços domésticos necessários ao bem-estar do idoso, destinados à higiene do ambiente, ao serviço de refeições e ao tratamento de roupas;

– O funcionamento do lar deve fomentar a convivência social, através do relacionamento entre os idosos e destes com os familiares e amigos, com a equipa de tratadores e com a própria comunidade, de acordo com os seus interesses;

– A participação dos familiares, ou pessoa responsável pelo internamento, no apoio ao idoso, sempre que possível: desde que este apoio contribua para um maior bem-estar e equilíbrio psico-afectivo do residente;

– O lar deve, ainda, permitir a assistência religiosa, sempre que o idoso a solicite, ou, na incapacidade deste, a pedido dos seus familiares ou próximos.

Jornal do Centro de Saúde

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